Setor editorial brasileiro fecha em queda pelo quinto ano consecutivo, aponta Fipe

Todos os anos, as pessoas que trabalham com livros no Brasil ficam ansiosas para receber os resultados da Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro encomendada à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). É a chance de ver, em números, aquilo que era só uma sensação. Em anos bons, hora de se certificar de que nadou a favor da maré. Em anos ruins, confirmar que o mar não estava para peixes. Nesse ano, a espera foi abreviada e, pela primeira vez, os resultados foram apresentados em abril. O que se viu foi uma queda real (considerando a inflação) de 4,5% e o tombo só não foi maior porque o governo aumentou as suas compras. Aqui vale salientar que o crescimento nas compras governamentais é natural. É que em 2017, ano-base de comparação, a compra tenderia a ser menor já que foram comprados livros apenas para o Ensino Médio e, no ano passado, para os alunos da Educação Infantil e para o Ensino Fundamental

 

1. Considerando apenas as vendas a mercado (aquelas que não são a governo), a queda foi de 10,1% já levando em conta a inflação no período. É interessante destacar que 2018 foi o quinto ano consecutivo que a pesquisa demonstra queda real no faturamento da indústria.

No ano passado, as editoras brasileiras colocaram no mercado 14.639 novos ISBNs e reimprimiram outros 32.189. De todos eles, foram produzidos 349,9 milhões de exemplares. Em relação ao ano anterior, isso representa queda de 11,03% no número de cópias produzidas. Foram vendidos 352 milhões de exemplares (-0,82% a menos do que em 2017), sendo 202,7 milhões (-8,84) para o mercado e 149,3 milhões (+12,62%) para o governo. Dessas vendas, se resultou faturamento total de R$ 5,11 bilhões.

Em termos reais, todos os subsetores apresentaram queda nas vendas. O que menos sofreu foi o de Religiosos que apresentou crescimento nominal de 1,07%, mas quando se considera a inflação, a queda foi de 2,6%. Agora, o subsetor que continua com a corda no pescoço é o de livros científicos, técnicos e profissionais (CTP), que caiu nominalmente 17,33% (20,3% se considerar a inflação). No ano passado, a Fipe já chamava a atenção para esse subsetor que já tinha acumulado perdas de 17% entre 2015 e 2017 e com essa queda de agora, as perdas de 2015 para cá já somam 44,9%. O subsetor de Didáticos apresentou queda nominal de 5,6% (9,1% real) e o subsetor Obras Gerais apresentou queda nominal de 3,3% (6,8% real). “Confesso que assusta no subsetor de Obras Gerais termos 10 milhões a menos de livros vendidos”, comentou Mariana Zahar, vice-presidente do SNEL.

Marcos Pereira, presidente do SNEL, ressaltou no evento de apresentação dos resultados da pesquisa na manhã desta segunda-feira (29), que o livro digital não está contemplado na pesquisa. “De 2016 a 2018, não temos dados dos livros digitais, e quando vejo a queda das vendas, me pergunto até que ponto houve uma substituição pelo formato digital. É difícil especular com precisão sobre isso, mas precisamos ter esta questão em mente”, disse. Mesmo em CTP, Pereira acha a questão relevante. “No caso do CTP, há portais [de conteúdo digital] e venda de conteúdo fracionado, e não estamos contemplando o digital, que é muito forte”, salientou. “Uma armadilha perigosa é olhar os números e dizer ‘Que difícil!’, quando o grande aprendizado aqui é olhar e ver o que podemos fazer para reverter como indústria e Estado, lembrando que o Estado somos nós”, completou.

O preço médio dos livros cresceu acima da inflação em quase todos os subsetores, menos, no de Religiosos. Neste sentido, destaque para o de Obras Gerais que saltou de R$ 10,83 para R$ 11,60, crescimento de 7,07%, acima portanto do IPCA que foi de 3,75% .

O impacto da crise nos números

Os prognósticos apresentados no início do ano passado davam conta de um ano difícil. Muito por conta de Copa do Mundo e de eleições, dois períodos em que, normalmente, o varejo de livros cai no País. E no meio do ano ainda veio a greve dos caminhoneiros que não era prevista, mas impactou negativamente a venda e a distribuição de livros no País. Mas nenhum desses fatores sazonais teve tanto impacto quanto a crise que deu seus primeiros sinais em abril passado, quando Saraiva e Cultura começaram a atrasar pagamentos e culminou com os respectivos pedidos de recuperação judicial entre outubro e novembro. O efeito desses movimentos das duas maiores redes de livrarias do país pode ser visto em números. As livrarias continuam sendo o principal canal de vendas de livros. Dos 202,7 milhões de exemplares vendidos, 93,7 milhões, ou 46,25%, foram comercializados nesses ambientes. Mas, em comparação com 2017, houve uma variação negativa de 20,6%.

Ainda olhando para os canais de distribuição, chama a atenção a performance das livrarias exclusivamente virtuais (onde a Amazon se enquadra). A participação desse canal pode até ser pequena ainda, totalizando 3,41% do faturamento total da indústria, mas, entre 2017 e 2018, houve crescimento de 25,20% do faturamento nesses canais, que saltou de R$ 100,3 milhões para R$ 125,6 milhões. Crescimento importante também do canal Distribuidores, o que pode indicar uma movimentação nas livrarias independentes. As editoras responderam que as vendas para esse canal cresceram 27,29% em relação a 2017. Uma novidade na pesquisa é o número de livros comercializados através de Clubes de Assinatura, que apesar de representar em 2018 somente 1,08% das vendas, indica um novo canal para as editoras.

Metodologia

A pesquisa é feita com base em questionários respondidos pelos editores. Nesse ano, foram ouvidas 202 editoras, sendo 185 emparelhadas ao ano anterior. Segundo o instituto de pesquisas, isso representa 68% do setor editorial em termos de faturamento. Os 32% restantes são inferidos estatisticamente.

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