Região Nordeste avança e Sudeste empaca em oportunidades da educação

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

Apesar de estados do Sudeste, como São Paulo, liderarem o Ioeb (Índice de Oportunidades da Educação Brasil), a região Nordeste foi a que mais avançou em relação aos resultados de 2017. Os dados foram obtidos com exclusividade pelo UOL e serão divulgados hoje pela Comunidade Educativa Cedac, que faz a gestão do indicador.

Alagoas, Ceará, Piauí e Bahia, por exemplo, são responsáveis por quase metade dos 500 municípios que avançaram no indicador. Ao todo, o Nordeste reuniu 70% dos municípios que mais tiveram crescimento no Ioeb. Já o Sudeste tem apenas 11% das cidades com os maiores crescimentos. No Sul, são apenas 9%.

Para chegar ao Ioeb 2021, foram usadas informações do Censo Escolar e do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2019, ou seja, números de antes da pandemia, além de dados de formação dos professores e oferta de vagas na educação infantil.

`Quando a cidade está em um patamar mais baixo, é mais fácil melhorar, mas, quando vemos isso se repetir ao longo dos anos, podemos falar também que aquele lugar tem feito políticas agressivas no aprimoramento das oportunidades`, explica Ana Lima, cofundadora da Conhecimento Social e parceira técnica nas análises do Ioeb.

Segundo ela, o avanço se torna `mais desafiador` para estados como São Paulo, porque não é preciso garantir condições mínimas, como acesso à escola, mas se aprofundar nas questões educacionais. `Por um lado você está num bom patamar, mas tem um desafio político e ético de continuar avançando.`

O Ioeb nacional ficou em 5,02, um aumento de 0,2 ponto em relação aos números da última edição, quando teve 4,85.

O indicador é usado para olhar as oportunidades da educação para crianças e jovens para além da nota do Ideb. `Pode-se pensar no Ioeb como um provocador de articulações intersetoriais e institucionais que se corresponsabilizam pela educação`, afirma a diretora-presidente da Cedac, Tereza Perez.

Tereza exemplifica o objetivo do indicador com uma frase usada no livro `O Berço da Desigualdade`, de Cristovam Buarque e Sebastião Salgado: `O berço da desigualdade está na desigualdade do berço`.

Boas práticas no Nordeste

O Ceará, segundo Ana Lima, é um dos estados que têm mostrado fortalecimento de suas políticas. `É interessante observar que o Ceará não cresceu só nas grandes cidades, mas no conjunto dos municípios, e existe uma estratégia de crescer em equidade`, afirma.

Hoje, o Ioeb do estado ficou em 5,5 —de uma escala de 0 a 10. O de São Paulo está em 5,7. Os bons resultados não são refletidos apenas nesse indicador. Em 2005, o resultado do Ideb do Ceará nos anos iniciais foi de 2,8, mas em 2019 chegou a 6,3 —ultrapassando a meta de 6,0 sugerida ao Brasil em 2022 pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O estado tem um sistema focado em alfabetizar na idade certa, evitar evasão escolar, valorizar professores e dar apoio financeiro aos municípios. A cidade de Sobral é um dos grandes destaques —o Ioeb de 2021 dela ficou em 6,7.

A economista Fabiana de Felício, uma das criadoras do Ioeb, ressalta que o efeito de crescimento vale mais aos estados do que para a região. `Importante lembrar também que os nossos estados com melhores resultados não estão com notas muito boas, principalmente quando comparamos em avaliações internacionais como o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes]. Estamos aquém.`

Apesar dos municípios do Sudeste e Sul não apresentarem um crescimento significativo, eles ainda são responsáveis pelos maiores índices. Segundo os dados da Cedac, 32% das cidades paulistas estão entre os municípios com maiores resultados do indicador. O Ceará tem 26%, e o Paraná, 20%.

Para algumas cidades paulistas e estados como São Paulo, o indicador usa uma classificação de `atenção`. `Isso significa que ele tem um bom resultado, mas não evoluiu acima da média`, explica Ana.

Tereza afirma também que os avanços nos últimos anos se deram graças a uma `tomada de consciência do papel da educação`. O olhar dos poderes públicos deve continuar mais atento após o período da pandemia.

A pandemia, como sabemos, explicitou as desigualdades sociais e as dificuldades que um aluno sem acesso à tecnologia enfrenta. Sem dúvidas, com o fechamento das escolas e essa ruptura na aprendizagem, os estados precisarão se empenhar para melhorar a educação oferecida aos alunos.`

Tereza Perez, diretora-presidente da Comunidade Educativa Cedac

Formar o aluno para ir além do vestibular

Para Tereza, os próximos meses e anos serão momentos dos estados e municípios pensarem em qual perfil de aluno querem formar. `Não posso mais reduzir a educação sobre formar um aluno apenas para universidade. Preciso pensar nesse desenvolvimento integral, entendendo tudo o que aconteceu nesse período de pandemia`, explica.

O foco, segundo ela, deve ser na gestão democrática, desde a escola até a Secretaria de Educação e a formação dos professores.

Ana ressalta que é preciso ter cuidado para que os avanços tidos até aqui não se percam. `O problema não é só de quem tem filho na escola, o retrocesso desses dados positivos é um preço que a gente paga. A gente paga como país`, afirma.

A inação do MEC (Ministério da Educação) nesse processo é outro ponto destacado por Tereza. Ela disse ser esperado, por exemplo, a definição de políticas macros e subsídios aos municípios durante esse período.

`Falta ter um sistema nacional para a educação. A saúde se segurou durante a pandemia com o SUS (Sistema Único de Saúde) e precisamos disso para educação`, diz.