Perfil do Ensino Médio avança, mas fica abaixo da meta

A queda das desigualdades regionais e de renda vivida pelo Brasil nas últimas décadas teve reflexos positivos na Educação, com a maior presença de Alunos pobres e de regiões com menor renda nas Escolas.

Somado a isso, a atual geração de pais, na média, valoriza mais a Educação dos filhos do que os seus antecessores. A dúvida fica para o comportamento dos estudantes na atual crise econômica: se, com o mercado de trabalho desaquecido, vão se concentrar de vez nos estudos ou vão precisar trabalhar mais cedo para ajudar financeiramente a família.

A análise é de Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público que conta com apoio de empresas como Itaú, Gerdau e Rede Globo. Ela admite que, apesar da expansão do Ensino, a qualidade ainda está longe do ideal, mas garante: “Cada vez mais estamos caminhando para uma sociedade que valoriza a Educação”.

Entre 2005 e 2014, a taxa de conclusão do Ensino fundamental aos 16 anos pulou de 58,9% para 71,7% A meta “bastante ambiciosa”, admite Priscila, era de 86%. Já a de conclusão do Ensino médio aos 19 anos foi de 41,4% para 56,7%. Nesse caso, a meta era de 69%.

Os avanços foram maiores entre as famílias de menor renda e as regiões mais pobres. No Nordeste, por exemplo, a taxa de conclusão do fundamental aos 16 anos saltou de 39,3% para 62,6%, ou 23,3 pontos percentuais. O Sudeste, saindo de um patamar mais alto, avançou 9,4 pontos. No mesmo período, as 25% famílias mais pobres do Brasil tiveram alta de 18,8 pontos nesse quesito. Enquanto isso, as 25% mais ricas tiveram alta de 4,5 pontos. Os dados são baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Segundo Priscila, uma combinação de fatores contribuiu para a menor evasão Escolar e a diminuição das desigualdades educacionais. Um deles foi a progressão continuada. A repetência em grande escala, diz, além de atrasar os Alunos, praticamente não contribuía com os índices qualitativos. “É errado pensar que se o Aluno repetir, vai aprender mais. Será que ele vai aprender mais só porque repetiu, vendo o mesmo conteúdo, da mesma forma?”, pergunta.

Além disso, as próprias políticas de combate à pobreza promovidas na última década ajudaram a manter os Alunos desde cedo na Escola. “Nos níveis socioeconômicos mais baixos, temos correlação muito estreita entre indicadores sociais e Educação. O Bolsa Família, por exemplo, tem impacto muito grande na Educação. Fatores como a melhora na Saúde, assistência social, geração de renda estão muito próximos da Educação e ajudam a manter o Aluno estudando”, diz.

Mas não são só as políticas públicas que têm levado a um menor êxodo Escolar, afirma Priscila. Um dos exemplos dessa maior importância que a sociedade tem dado para a Educação vem de dentro de casa. “Cada vez mais a própria juventude quer concluir o Ensino médio. Os Alunos atuais são filhos de uma geração que tem mais consciência da importância da Educação. Na média, a família atual quer que o filho fique na Escola e priorize o estudo”, diz.

Para Priscila, a crise econômica deve trazer mudanças à evolução dos últimos anos. A questão é se essas mudanças serão positivas ou negativas. “Em uma época de mercado de trabalho aquecido e Escolas ruins, você pode ter até o efeito contrário, de aumento da evasão. Com a piora da economia, o Aluno pode ser obrigado a ajudar em casa ou, sem trabalho, investir na própria Educação”, afirma.

Independentemente dos efeitos da crise e da expansão da presença Escolar dos últimos anos, é consenso entre especialistas que o Brasil ainda peca na qualidade. Na visão de Priscila, a saída está em tratar situações diferentes de maneiras diferentes. “A Escola do Amazonas não tem as mesmas necessidades da de São Paulo. A Escola do Jardim Europa não tem as mesmas necessidades do Jardim Miriam”, diz. Ela defende uma distribuição mais criteriosa de recursos. “Precisamos de um sistema que dê mais para quem tem menos. Quanto mais pobre o Aluno, de mais dinheiro ele precisa”, afirma.

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