O Site que reúne e padroniza o vasto léxico da Língua Portuguesa

O Vocabulário Ortográfico Comum foi lançado com um rol de 310 mil palavras usadas no Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde e Timor-Leste.

Sem muito alarde, foi lançada em 12 de maio a versão consolidada do Vocabulário Ortográfico Comum, o VOC, da língua portuguesa. A divulgação foi tímida, mas o trabalho é de vulto: reúne e unifica o léxico de cinco países lusófonos, num acervo de 310 mil palavras.

Como apontou o escritor Sérgio Rodrigues, no jornal “Folha de S.Paulo”, “a falta de perspectiva histórica que, por definição, caracteriza o noticiário convencional e o burburinho das redes sociais pode explicar a repercussão pífia de um fato cultural tão relevante”.

O VOC foi lançado em Cabo Verde, na cidade de Praia, capital do país, onde funciona o Instituto Internacional da Língua Portuguesa. O instituto foi criado em 2002 e está ligado à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), fundada em 1996.

O VOC é feito a partir da colaboração dos países membros da CPLP e está alojado em um site. Representa um grande esforço de normalizar o vocabulário dos falantes de português no mundo todo – são cerca de 250 milhões de pessoas.

Atualmente, o VOC contempla o vocabulário de cinco dos nove países que têm a língua portuguesa como oficial:

  • Brasil
  • Portugal
  • Moçambique
  • Cabo Verde
  • Timor-Leste

Cada um desses países forneceu suas versões de vocabulário nacional, que foram sendo reunidas e compiladas de acordo com critérios comuns pela equipe que coordena o VOC.

No site, é possível consultar o vocabulário de cada um desses países, clicando nas respectivas bandeiras nacionais. Ao clicar no logotipo do VOC, tem-se acesso ao conteúdo unificado. Para cada vocábulo clicado, há a informação sobre grafia, a divisão silábica e a flexão de gênero e número da palavra. Entre os outros quatro países da CPLP, São Tomé e Príncipe, Angola e Guiné-Bissau estão finalizando seus vocabulários nacionais para integrá-los ao VOC.

Já a Guiné Equatorial, o nono país que tem o português como idioma oficial, não fala a língua no dia a dia – ela entrou na CPLP em 2014 por razões políticas, e não tem um vocabulário nacional luso. “Para a língua portuguesa é a primeira vez que aparecem os vocabulários de vários países alinhados, seguindo uma norma ortográfica comum, mas respeitando a variação que há em cada um dos Estados-membros”, diz Margarita Correia, da equipe que organiza o VOC.

Além da lista de palavras que compõem o vocabulário dos cinco países, há uma lista de toponímias, com 70 mil entradas referentes a nomes de cidades dos países participantes e também de lugares relevantes no mundo – Paris ou Washington, por exemplo.

Compõe ainda o VOC uma lista de “formas não adaptadas”, com palavras que de outros idiomas que podem ser usadas na sua grafia original, como “apartheid” ou “offline”, acompanhadas de possíveis adaptações ou indicação de palavra equivalente, quando elas existem em português – caso de  “diet”, que pode ser “dietético” ou “drink”, aceito como “drinque”.

Por que fazer o VOC
A instituição do VOC começou a ser preparada em 2010, após recomendação da CPLP em reunião em Brasília. Ele é um instrumento que já era previsto pelo Acordo Ortográfico da língua portuguesa – firmado em 1990. O acordo é oficialmente obrigatório no Brasil desde janeiro de 2016 e em Portugal desde 2009. Mas sua utilização gerou debates entre os dois principais membros da CPLP.

A ideia do VOC era justamente harmonizar as formas propostas pelo acordo. Criou-se um grupo de consultores com representantes dos membros da CPLP para, em 2016, estabelecer a  “Sistematização das Regras de Escrita do Português”.  Assim, o VOC acabou trazendo de volta ao vocabulário português os hífens em “maria-vai-com-as-outras” e “bumba-meu-boi”, que haviam sido limados pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o Volp, no Brasil. As duas grafias passam a ser aceitas.  Além de aparar arestas na consolidação do repertório de palavras do português nos vários países que usam a língua, o VOC é parte de um esforço político de projeção internacional do idioma.

A promoção das línguas nacionais é um conhecido instrumento de diplomacia e construção de imagem usado pelos países. A França, com suas diversas Alianças Francesas espalhadas pelo mundo, é árdua defensora e promotora da francofonia. Da mesma forma, a Alemanha apoia os institutos Goethe em 98 países, para divulgar sua língua e cultura. Uma das apostas mais certeiras da China para se consolidar como potência internacional foi o pesado investimento na difusão do mandarim pelo mundo. 

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