O paraíso distinto de editores, autores e leitores

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Editores e autores, cada tribo tem sua versão particular de paraíso.  
 
O dos editores é um paraíso de livros que se escrevem por si, sem o incômodo de autores que escrevem menos ou mais do que o esperado, reivindicam maior percentagem de direitos autorais e questionam a eficiência da distribuição, já que raramente encontram seus livros nas livrarias que freqüentam.  
 
No paraíso dos escritores os livros chegam às mãos dos leitores sem intermediários, impressos em gráficas que da noite para o dia transformam grossos originais em livros bonitos e baratos. As tiragens dos livros sempre coincidem com as registradas em contrato e os livros chegam a livrarias, onde ficam em destaque até que os leitores descubram a maravilha que se oculta entre as capas que os contemplam das estantes.  
 
Paraíso de editores, inferno de escritores. E vice-versa.  
 
Mas um não vive sem o outro. Melhor dizendo, um não vivia sem o outro.  
 
O casamento parecia eterno e indissolúvel em tempos pré-internet. Mas a partir dos três dáblius da World Wide Web, novos pactos nupciais continuam surgindo no horizonte. Porém, enquanto o tempo de bits e nets democráticas e gratuitas não vem, alguns aspectos da parceria entre escritores (fornecedores de matéria-prima) e editores (fabricantes do produto) merecem reflexão. Particularmente por parte de produtores de textos entendidos como literários.
 
O mercado brasileiro não consome literatura nas mesmas quantidades em que consome, por exemplo, obras didáticas. Talvez seja assim no mundo todo, mas talvez seja mais assim no Brasil. Em conseqüência, sobram acusações de todos os lados. Os livros são caros, dizem os autores. Os livros são caros porque vendem pouco, retrucam os editores. No bate-boca, os livros permanecem inéditos ou fechados.  
 
Letrados não se dão muito bem com números, mas é na frieza dos algarismos que precisa fundar-se um diagnóstico menos impressionista de como anda a questão da leitura no Brasil. Do tema faz parte a relação entre escritores e editores: são ambos interessados em livros, papéis pintados com tinta sobre os quais se desenvolvem as práticas de leitura, as quais gozam de publicidade gratuita já que todos — da Unesco a qualquer secretaria de Educação — fazem parte do coro que defende, divulga e quer implementar a leitura.
 
Os números disponíveis são poucos. Os mais recentes e consolidados vêm de pesquisa de junho de 2005 encomendada pela Câmara Brasileira do Livro. Mas mesmo estes números estão longe de serem suficientemente abrangentes: refletem respostas de apenas 151 editoras dentre as 513 consultadas.  
 
Mas como são estes os números de que dispomos, vamos a eles.  
 
Eles dizem que em 2004, entre lançamentos e relançamentos de literatura, houve 4.875 títulos que venderam 24.220.487 exemplares. É pouco? É muito? E que sentido podemos atribuir à informação de que houve mais títulos reeditados (2.487) do que títulos novos (2.388)? Que interpretação damos à informação de que os lançamentos venderam mais exemplares (14.712.750) do que os relançamentos (9.507.737)?
 
Outras cifras permitem cruzar a situação de autores brasileiros com a de autores estrangeiros. Infelizmente, porém, os dados disponíveis não discriminam autores de literatura. Limitam-se os indicadores às chamadas obras gerais, categoria que abrange a literatura. Segundo eles, os autores nacionais levam vantagem: 6.823 títulos brasileiros contra 3.220 estrangeiros e 48.313.790 exemplares nacionais contra os 12.511.661 traduzidos.
 
Repete-se o impasse de interpretação: com pouco mais do dobro de títulos, os patrícios vendem quase quatro vezes mais exemplares. O público prefere o produto made in Brazil . Será? Ou será preocupante que num país de 170 milhões de almas apenas menos da metade tenha comprado, em um ano, um livro não didático, nacional ou estrangeiro?  
 
E se acrescentarmos a informação de que nos últimos anos a publicação de autores traduzidos vem avançando tanto em títulos quanto em exemplares: 1.670 títulos em 2002, 2.430 em 2003 e 3.220 em 2004. No mesmo período, a publicação nacional encolhe: 9.080 títulos em 2002, 7.220 em 2003 e 6.826 em 2004. E se lembrarmos que é também crescente o capital editorial estrangeiro no país?  
 
Encomendadas pelo setor empresarial, estas pesquisas espantam pelo que não pesquisam. Não ajudam um cidadão — inclusive o cidadão-editor que as paga — que queira basear-se nelas para decidir em que linha editorial investir. Excluindo-se o setor de didáticos que tem consumidor cativo na figura do MEC, os demais setores são uma espécie de buraco negro onde as decisões talvez se pautem pelo mesmo amadorismo de Monteiro Lobato nos anos 20 do século passado, para ficarmos com um amador altamente competente e bem-sucedido.
 
Mas no buraco negro do que não se sabe também naufraga um aspecto muito importante de nossa história cultural. Sem um melhor conhecimento de práticas da cultura letrada brasileira, campanhas em prol da leitura podem muito pouco. É verdade que uma história da leitura não se faz apenas de números. Mas se faz também deles. E para que as estatísticas e algarismos cumpram o papel que precisam cumprir, as pesquisas precisam ser planejadas de forma a contribuírem para um diagnóstico mais eficiente das condições de leitura no Brasil. Por onde, como já se disse, passa o jogo de braço entre escritores e editores.
 
Que não venha o paraíso destes senhores é pena, mas… e nós leitores, e nosso paraíso de livros, livros a mancheias, como queria o poeta?  
 

Marisa Lajolo é professora titular de teoria literária na Unicamp e autora, entre outros títulos, de “A formação da leitura no Brasil”, “O preço da leitura”, “Monteiro Lobato, um brasileiro sob medida” 
 
 
 
As editoras publicam mais estrangeiros que brasileiros 
O Globo – Douglas McMillan 
 
Quando o escritor Ryoki Inoue terminou o original de seu primeiro livro, em 1986, achou que a fase de criação já estava terminada. Foi então que ouviu o pedido:— “Brasileiro só lê livro de americano. Inventa um nome de americano”, foi o que me disseram.  
 
E foi assim que “Os colts de McLee”, um pocket book de bangue-bangue, chegou às bancas assinado por James Monroe. Graças a Inoue — que já tem livros publicados com seu próprio nome por algumas editoras, incluindo a Globo, que lança em breve dois novos títulos dele — os brasileiros também puderam conhecer a verve de Bill Purse, William Sweetstick, Stepham McSucker e outras crias desse descendente de japoneses.  
 
— O diabo é que acabei usando 39 pseudônimos, pois quando um deles começava a ficar conhecido do público, o editor mandava trocar. Assim o leitor se fixava na coleção e não no autor. Se eu mudasse de editora, não arrastaria fregueses — conta ele, que entrou para o Guinness como o escritor mais produtivo do mundo e dominou, segundo suas contas, 95% do mercado de pockets .  
 
Mas a questão que o homem de 1.072 livros levanta é mais profunda que a anedota e por isso tornou-se o tema desta última reportagem da série Mitos e Verdades do Mercado Editorial: as editoras brasileiras gostam mais do que vem de fora?  
 
— É mais complexo que isso, e depende de que setor você está falando: o segmento infanto-juvenil é 90% brasileiro, por exemplo. Mas no geral, na hora de tomar decisões, os editores querem muita informação sobre os autores. E quando um livro já foi publicado lá fora há toneladas de informação. Podemos ver se o livro foi bem, se a crítica bate em pontos importantes, dá para ter uma idéia da performance da obra — explica Carlos Augusto Lacerda, da Nova Fronteira.  
 
Até pouco tempo, a editora de Lacerda tinha um catálogo nacional para lá de clássico e pencas de autores estrangeiros na crista da onda.  
 
— Claro que nem sempre o que funciona lá fora se repete aqui. Mas quando você avalia um fenômeno mundial como “O caçador de pipas”, de Khaled Hosseini (há mais de 20 semanas na lista de mais vendidos) , vê que é muito difícil que não faça sucesso. Todo editor adoraria publicar só livros de novos autores brasileiros, mas isso nunca fecharia as contas.  
 
Num sinal de que o acesso dos autores brasileiros contemporâneos às grandes se solidifica, a Nova Fronteira anunciou há duas semanas a contratação do moderno-menino-mau Santiago Nazarian, 27 anos, surpreendendo o mercado. Era algo que não se fazia há muito na editora carioca, e parece confirmar que as grandes casas estão realmente mais abertas aos nacionais.  
 

 
Força dos estrangeiros não impede que brasileiros conquistem espaço 
O Globo – Douglas McMillan 
 
Na outra ponta do espectro, com diversos estreantes brasileiros em seu catálogo de editora pequena, Elio Demier, da Bom Texto, não mede as palavras do que ele próprio define como “bronca” com o apartheid editorial:  
 
— São uns pobres, esquecidos e abandonados, os autores nacionais. Não é exagero nem choro. É uma blague, mas tem verdade. As editoras grandes fazem seu quinhão em cima dos estrangeiros, não tenha dúvidas. E têm razão quando dizem que os nacionais não vendem. Não vendem mesmo! Mas é por isso que se tem de lutar por eles.  
 
A luta passa pela malandragem e pelo peito, receita do não só escritor como agitador Marcelino Freire aprendida na marra. Resultado disso, prefere não reclamar, mas, como diz, “enfiar os pés no teclado”.  
 
— Não sei se gente como o Marcelo Mirisola, o Luiz Ruffato, ou eu, deixamos de ser publicados porque veio um cara como o Paul Auster lá de fora. Sei lá se é porque o nome é mais bonito, “Joe Fitzgerald”, “Paul Vrelows Golopaul”, sei lá… — ironiza ele, inventando nomes de colegas estrangeiros. — Quando não tinha editora, publicava eu mesmo as coisas, ia ver preço em gráfica. Não é muito da minha índole ficar sentado na reclamação. Ouvi muito que ninguém publicava essa geração. Respondia que tínhamos que meter os pés no teclado, falar alto, fazer as coisas acontecerem. E têm acontecido, tem muito escritor novo nas grandes (editoras) agora. E me pergunto: será que são os estrangeiros que seguram nossa onda? São os “Código Da Vinci” que seguram os Mirisolas da vida? Aí estamos lascados!  
 
Os acertos que sustentam os erros  
 
Tudo indica que sim, que são os best-sellers que sustentam os brasileiros, principalmente os novos autores, como atestam vários editores procurados pelo GLOBO. Luciana Villas-Boas, diretora editorial do grupo Record, aceita o nexo sem maiores problemas e garante que isso nem de longe significa que os brasileiros “estão lascados”, pelo contrário. Segundo ela, são esses acertos que sustentam os erros. Os muitos erros:  
 
— Para ter um grande novo autor brasileiro, tenho que investir em cinco. Três deles vão ser médios, o último vai ser ruim. Tem muitos que lancei e que não aconteceram. Não deram em nada. Faz parte do jogo de lançar autor novo. E acho que essa divisão entre brasileiros e estrangeiros é meio passada. Quando entrei na Record, dez anos atrás, 75% dos lançamentos vinham de fora. Agora são apenas pouco mais da metade, e isso porque temos um catálogo fortíssimo de estrangeiros, senão essa proporção penderia para os brasileiros.  
 
Isa Pessôa, responsável na Objetiva pela escolha dos autores nacionais que vão ao prelo, também acha a idéia de que há preferência pelos estrangeiros equivocada. Garante que na editora os brasileiros contam com uma “fiel, voraz e violenta paixão”.  
 
— Autor nacional para mim é sangue bom. O desejo de qualquer um que faz o meu trabalho é sempre o de encontrar “o” original, o novo autor que nos deixa de queixo caído. Mas você tem que ser rigoroso e distribuir “nãos”, por mais que isso seja desagradável. Muitos originais aqui chegam num padrão que não é o de publicação. Lá fora, essa peneira inicial já está feita.  
 
Espaço pequeno para muitos autores  
 
O mercado é disputado. Uma editora de porte recebe cerca de 50 originais de brasileiros por mês. Tem ainda olheiros no país e em capitais importantes do mundo literário — Nova York, Londres e Paris são as principais — onde tendências são farejadas e originais avaliados. Além disso, há as feiras internacionais, hoje em dia mais e mais um lugar para fechar negócios que um evento de promoção de cultura.  
 
O que pode parecer conversa de editor grande para evitar críticas ganha o apoio também de escritores, que andam vendo com mais otimismo o mercado para os autores nacionais. Sérgio Sant’Anna, por exemplo, acha que hoje em dia não há mais o medo de investir de antes e a má vontade que deixava originais de gente como Inoue (o recordista do início da reportagem) intactos nas gavetas por meses, às vezes anos a fio.  
 
— Eu acho que as editoras hoje têm uma noção muito mais sólida de que devem investir na renovação de seus catálogos. Sempre dei sorte de encontrar editoras dispostas a acreditar, geralmente as menores. Mas hoje acho isso mais difundido, mesmo entre as grandes — avalia ele.  
 
Luiz Ruffato prefere sair por outro lado, afirmando com franqueza que a discussão sobre o espaço entre autores estrangeiros e nacionais é “deslocada”.  
 
— A questão para mim não é que eles disputam espaço, mas que esse espaço é pequeno. Quero ser claro: não há espaço para todo mundo no nosso mercado minúsculo — afirma o escritor, mandando a bola de volta para mitos e verdades passados, alguns deles ruminados aqui no Prosa.  
 
Difícil dizer que lhe falte razão. 
 
 
 
Temas debatidos dividem o setor 
O Globo – Douglas McMillan 
 
Para se ter uma idéia, na França, o Centro Nacional do Livro, órgão governamental responsável pela monitoração da atividade editorial e da leitura no país, sabe até quantos lugares para sentar existem nas bibliotecas do país. Afinal, quem lá vai quer espaço para ler com tranqüilidade e silêncio… No Brasil, porém, como se viu em reportagens das últimas três semanas, na série Mitos e Verdades do Mercado Editorial, que termina hoje — mas que pode voltar a qualquer momento, já que são muitos os temas a serem discutidos — ainda são escassos os dados sobre os livros, incluindo aí seus leitores, as livrarias, as editoras.  
 
Devido à carência de dados, o mercado editorial no Brasil costuma ser envolto em mitos. A partir dos indícios disponíveis para se analisar o setor, não há unanimidade sobre como facilitar o acesso ao livro, como ficou claro na série e sua repercussão. Os assuntos abordados provocaram polêmica, como o mito “o livro no Brasil é caro”, debatido na semana passada. O presidente da Campus/Elsevier, Claudio Rothmuller, critica a idéia de que o livro é caro porque as empresas são ineficientes.  
 
— Temos uma variedade enorme de títulos. Como se pode dizer que as editoras não são eficientes? — pergunta o editor, sem medo da controvérsia que apimenta o setor.  
 
Preço único do livro, a maior polêmica  
 
A proposta que mais polariza entidades do mercado é a do preço único do livro. Se cada livro tivesse um preço único, com descontos regulados (por exemplo, de no máximo 5%), em vez de um preço apenas sugerido, como acontece atualmente, quais seriam as conseqüências? Seria uma forma de frear a concentração no setor e, assim, mantê-lo mais competitivo a longo prazo?  
 
Na primeira semana, no dia 4 de fevereiro, o Prosa & Verso debateu o mito “o brasileiro não gosta de ler”. Até que ponto ele é verdadeiro? De acordo com profissionais que trabalham no incentivo à leitura no país, muitos em ONGs como a Leia Brasil ou a Associação Vaga-Lume (que atua na Amazônia Legal), é verdade que a maior parte dos brasileiros enfrenta dificuldade para ler, em grande parte devido aos problemas de educação básica. No entanto, o trabalho que realizam mostra que é possível muita gente trocar a novela pelos livros. No Brasil, o índice mais conhecido sobre a leitura é o de 1,8 livro lido por habitante/ano. Mas este foi calculado há seis anos e tem sido questionado por especialistas, por corresponder à simples divisão do número de livros publicados pelo de pessoas escolarizadas.  
 
Na segunda semana, foi a vez de se debater a idéia bastante difundida de que “em Buenos Aires há mais livrarias que no Brasil”. Verificou-se que isso não é verdade, mas não se sabe ao certo quantas livrarias existem no Brasil. Fala-se de 1.600 a 1.800, mas nem a Associação Nacional de Livrarias crava com certeza um número.  
 

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