No ensino médio, leitura precisa encontrar o protagonismo do aluno

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Nem mesmo o distanciamento social causado pela pandemia da Covid-19 afetou a agenda do Clube de Leitura Itinerante do município de Senhor do Bonfim, localizado a 375 quilômetros de Salvador (BA). Os debates, organizados pela professora Edjanne Amaral de Almeida Silva com alunos de ensino médio da rede estadual, seguem a distância.

Com mais de 30 milhões de exemplares vendidos e traduzido em 70 idiomas, “O Diário de Anne Frank” foi uma das leituras recentes realizadas pelos integrantes do clube. Nos encontros semanais de duas horas, além de trabalhar o que o período da Segunda Guerra Mundial causou a Anne Frank nos aspectos emocional e familiar (vítima do holocausto, a menina passou anos enclausurada em um sótão na cidade de Amsterdã, capital da Holanda), Edjanne relacionou aspectos da obra ao período de isolamento vivido pelos jovens na atual crise sanitária. “Os alunos ficaram surpresos. Não passamos pelo período da guerra, mas vivemos uma pandemia, que também se tornará um marco histórico, causando mudanças na vida dos estudantes”, explica a professora.

O clube de leitura baiano é um exemplo da formação interdisciplinar do leitor durante o ensino médio. “O processo de proficiência leitora ocorre por meio da interação entre texto, autor e leitor. Por isso, é importante oferecer ao professor suporte para trabalhar a leitura de forma dinâmica e interativa, proporcionar roda de conversas com docentes e discentes sobre temáticas leitoras”, sugere Edjanne. “Precisamos ouvir as experiências dos alunos durante o processo, apoiando o gosto pela leitura a partir de suas necessidades e desejos”, complementa.

Projeto de vida

Ex-presidente do CNE (Conselho Nacional de Educação) e da Comissão do Sistema Nacional de Educação do Ensino Médio e da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), Eduardo Deschamps comentou, em recente podcast, o papel da leitura nas políticas curriculares. “O novo ensino médio é focado no protagonismo do aluno. Esse protagonismo vai se traduzir na escola pelo projeto de vida do estudante, que não é apenas desenhar sua trajetória profissional. O projeto de vida começa, de maneira geral, com o autoconhecimento, com a relação com outro aluno, com sua relação com o mundo. Ter referenciais de leitura significativos nesta etapa vai ser importante para o jovem.”

As dez competências da BNCC trazem muito da habilidade leitora por parte do aluno, explica Deschamps, que também é professor titular da FURB (Universidade Regional de Blumenau), em Santa Catarina. “Ao ampliar o conjunto de competências que o estudante precisa desenvolver, não vejo como ele conseguirá fazê-lo sem a questão da leitura. Ele não conseguirá limitando-se ao ambiente de convivência, ao relacionamento com o professor ou com [o contato com] outras mídias de acesso, que são importantes. A leitura tem papel fundamental nesse processo”, opina.

Aprendizado constante

Uma imersão na literatura ajudou a desatar o nó de uma situação preconceituosa vivida à época em que André Luiz Sampaio lecionava em uma escola religiosa no Rio de Janeiro (RJ), em 2016. Hoje analista de conteúdo pedagógico da Árvore, Sampaio não se esquece de quando um aluno árabe foi chamado pelo colega de homem-bomba. Ao notar o constrangimento geral, reuniu a turma e, coletivamente, foi decidido que todos se aprofundariam nos estudos sobre a cultura oriental, por meio de filmes, artes plásticas, música e literatura.

Entre os livros adotados, estavam “O fundamentalista relutante”, segundo romance do paquistanês Mohsin Hamid, sobre um jovem de seu país que vivia bem nos Estados Unidos até o atentado do 11 de setembro. Já “Lendo Lolita em Teerã”, da iraniana Azar Nafisi, conta a história de mulheres que se reúnem escondidas para ler e debater a literatura ocidental proibida. “Esse trabalho me marcou muito. Existe uma segunda leitura literária a qual não estamos tão habituados, que é o contato com a leitura não-ocidental, muitas vezes chamada de periférica, que nos coloca num outro lugar, por vezes desconfortável, mas que sempre nos traz reflexões importantes”, analisa Sampaio.

Professora de língua portuguesa e literatura há 21 anos, Grasielly Lopes também acredita que o ensino médio marca um processo de amadurecimento. “A leitura é importante nas diferentes fases da escola. Mas percebemos que, com o tempo, esse olhar vai se aprofundando, sendo apurado, de acordo com a maturidade de cada aluno. Nessa etapa, nós nos lembramos do que Paulo Freire dizia: que a leitura do mundo, da realidade do educando, precede a leitura da palavra”, diz Grasielly. “Os estudantes têm acesso a diferentes gêneros textuais, a mais textos com caráter crítico, como reportagens, artigos de opinião, além da literatura clássica e contemporânea. Assim, são convidados para um olhar mais profundo e interdisciplinar.”

Entre contemporâneos e clássicos

De modo geral, os jovens têm interesse no que está além das leituras obrigatórias, analisa Sampaio. “Eles leem de romances policiais e obras sobre mundos distópicos até notícias em blogs sobre seus artistas favoritos. O desafio dos professores está justamente em encontrar formas de unir os diferentes conteúdos programáticos e trabalhar o desenvolvimento de habilidades da BNCC com o gosto dos alunos.”

O acesso cada vez mais amplo à leitura por meio de celular e tablets é outro fator condicionante para a leitura dos jovens, como mostra a reportagem do Porvir. Em relação aos livros digitais disponíveis na plataforma da Árvore e recomendados para o público do ensino médio, “Os Mentirosos”, de E. Lockhart e “Vermelho, Branco e Sangue Azul”, de Casey McQuiston (ambas autoras norte-americanas) são os com maior número de acessos. Já nas “Trilhas de leitura” com atividades lúdicas para que os alunos leiam concomitantemente à obra original, os mais acessados são “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.

Fonte de cultura e conhecimento

Relacionar contextos literários com situações atuais, como fizeram Edjanne e Sampaio, também é uma prática de Grasielly com seus alunos de Santos (litoral de São Paulo). “Estamos estudando o romantismo, que traz como foco a questão do indígena e do negro. Ao falar sobre Castro Alves e Gonçalves Dias, abordo os contextos atuais a partir de reportagens sobre marco temporal, sobre a campanha “Vidas Negras Importam“. Trago as músicas de Elza Soares, do Emicida. Os estudantes fazem uma analogia a partir de diferentes linguagens para perceber a importância da literatura como fonte de cultura e de conhecimento para a vida”, conta.

A professora reforça a educação midiática como uma uma abordagem efetiva para trabalhar com as competências 1 a 5 da BNCC. “Esse aluno vai olhar para um artigo de opinião de uma maneira muito mais dirigida, no sentido de entender aqueles argumentos, como foram construídos e com quais propósitos. Ele vai analisar uma publicidade a partir dos elementos persuasivos, vai olhar aquele meme a partir de um olhar crítico sobre o contexto social, político. Quando o jovem entende que tudo é linguagem, o mundo se amplia.”