No Dia do Professor, docentes em início de carreira relatam desafio

Segundo Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da OCDE, quase 90% dos professores brasileiros acreditam que a profissão não é valorizada na sociedade.

Entrar em sala de aula com crianças e adolescentes e um currículo para cumprir é uma atividade repleta de prazer e também de desafios. No Dia do Professor, comemorado hoje (15), docentes que estão há pouco tempo na sala de aula conversaram com a Agência Brasil sobre o dia a dia em escolas públicas e particulares, as dificuldades com estrutura, materiais didáticos e em prender a atenção dos alunos. Eles falaram também sobre a importância do diálogo e do respeito entre professores e estudantes. Apesar das dificuldades, lecionar é um sonho realizado para muitos deles.

Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), da Organização para a Cooperação (OCDE), divulgada este ano, mostrou que são muitos os desafios a serem vencidos pelos professores do ensino básico. Quase 90% dos professores brasileiros acreditam que a profissão não é valorizada na sociedade. Mesmo assim, a maioria (87%) sente-se realizada com o trabalho. Também, segundo a pesquisa, 20% do tempo em sala de aula são usados para controlar o comportamento dos alunos.

A formação é fator relevante quando se fala da carreira de professor. Os dados do Censo da Educação Superior mostram que, em 2013, os formandos em licenciaturas foram 201.353. O número vem caindo desde 2011, quando foram registrados 238.107 concluintes no grau acadêmico. Em 2012, foram 223.892. O número era 145.859 em 2003 e atingiu o pico dos últimos dez anos em 2009, com 241.536 concluintes em licenciaturas.

Pelo Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece metas a serem cumpridas no setor em dez anos, até 2024, todos os professores do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio devem ter licenciatura na área em que atuam. Esse percentual está em 32,8% nos anos finais do ensino fundamental e em 48,3% no ensino médio, segundo dados do Observatório do PNE, que reúne informações sobre cada meta e estratégia do plano.

O Ministério da Educação tem incentivado a formação dos professores com ações como o Programa de Consolidação das Licenciaturas (Prodocência), que oferece apoio financeiro a projetos pedagógicos inovadores que contribuam para melhorar os cursos de formação de professores da educação básica. Outra iniciativa é o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), desenvolvido em parceria com instituições de educação superior e secretarias de Educação dos estados e municípios, que estimula as licenciaturas.

 

Professores defendem uso de recursos audiovisuais para ajudar alunos

A formação de professor começou na faculdade para Thiago Bahé. Foram estágios e plantões para tirar dúvidas que o colocaram em contato com os estudantes para ensinar uma disciplina temida: física. Ele graduou-se em 2011 e, desde então, está na sala de aula. Leciona na escola particular Mackenzie, no Lago Sul, em Brasília, e na rede pública, no Centro de Ensino Fundamental São José, em São Sebastião, no Distrito Federal, onde dá aulas para a Educação de Jovens e Adultos. Os alunos são todos do 9º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio.

“Tenho convicção de que a gente precisa utilizar recursos que facilitem ou deixem a física mais concreta para os alunos”, diz Bahé, que utiliza recursos audiovisuais para ajudar na compreensão. São slides e simulações, muitas disponibilizadas por instituições de ensino superior como a Universidade de Brasília (UnB).

“Usei uma simulação para ensinar fenômenos sonoros. Com ela, os alunos puderam ver a imagem da onda e ouvir qual era o efeito gerado por aquele fenômeno. Diferente do quadro, ele teve a oportunidade de visualizar aquilo”, exemplifica o professor.

Com 26 anos, Thiago Bahé acredita que para conseguir o respeito dos alunos o principal caminho é mostrar domínio do conteúdo. “Se demonstrar insegurança ou que não se preparou, inevitavelmente o professor vai ser motivo de desconfiança e vai perder o controle”.

Mesmo tendo feito estágio em escolas durante a faculdade, Bahé diz que o que o ajudou a dar aula foi a experiência. “Acredito que o ensino de física ainda é feito por professores que estão envolvidos com a área de pesquisa, e o foco não é o ensino em si. Isso contribui muito para a distância do conteúdo visto ou a forma como é visto na universidade e em sala de aula”, diz.

O método de Bahé trouxe frutos. Ele iniciou um projeto próprio, um curso de acompanhamento para vestibular em turmas pequenas, até oito alunos. Estudante de mestrado, o professor tem vontade de dar aulas no ensino superior, formando futuros professores. “Acho que é necessária uma renovação dos cursos de licenciatura para que se tenha mais preparo para o ensino básico”, diz.

Desde julho, Yuri Soares Franca dá aulas de história para estudantes do Centro de Ensino Médio 01 de Sobradinho, escola da rede pública do Distrito Federal. Com 29 anos, ele seguiu os passos da mãe, que também é professora. Nas aulas, busca ensinar traçando um paralelo entre os acontecimentos históricos e os dias atuais. “Busco mostrar que o mundo foi historicamente e sociologicamente construído”, conta.

No próximo ano, o professor pretende pleitear equipamentos, como câmeras e máquinas fotográficas, por meio de programas governamentais, para incrementar o ensino com atividades práticas.

Para Yuri, ainda há muitos docentes que têm uma concepção errada dos jovens e da educação, e é preciso mudar essa visão para construir um bom ambiente na sala de aula. “É uma concepção que, muitas vezes, só vê o adolescente como problema e não como alguém com quem você precisa dialogar, mostrar o conteúdo com a realidade atual”, acrescenta.

Mesmo com as contradições do ambiente escolar, a avaliação que o professor faz da experiência de lecionar é positiva. “Muitas vezes, a estrutura não é a necessária, o salário nem sempre é o merecido, mas quando você coloca na balança os problemas e as vantagens, o prazer de trabalhar com a juventude supera as dificuldades”. Para ele, ser professor é muito bom”.

 

Professores apostam no diálogo para conquistar confiança de alunos

O diálogo foi a forma encontrada por professores recém-formados para conquistar a confiança e o respeito dos estudantes. A professora de biologia Amanda Rodrigues e o professor de educação física Rafael Duarte começaram a dar aulas este ano, ambos no ensino fundamental. Para eles, conhecer os alunos é o segredo para uma boa relação.

“Posso estar sendo romântica, mas acho que ter carinho, se dedicar à profissão é ser um bom professor. E ser professor está muito além de chegar ali para escrever na lousa. É saber identificar se está tudo bem, até que ponto posso ir, ter um olhar diferenciado tanto para cada turma quanto para cada um”, diz Amanda.

Ela tem 24 anos, “com cara de 21”, como descreve. Desde março deste ano leciona biologia para alunos do 6º ao 9ª ano do Colégio do Sol, escola particular no Lago Norte, em Brasília. ‘Sou muito aberta, os alunos vêm conversar sobre a aula, sobre sexualidade”. A professora diz que se dedica à escola praticamente de segunda a segunda. “Sempre estou lendo, buscando coisas novas para levar a eles, procuro não ficar presa ao livro”, conta Amanda.

Com 23 anos, Rafael Duarte está na sala de aula há três meses, no 7º ano do Centro de Ensino Fundamental 03 do Gama, escola pública do Distrito Federal. “Dar aula é bem diferente do que se aprende na universidade, é mais pesado e mais difícil. A universidade não te prepara para a realidade que encontra em sala de aula”, diz. O professor busca, por meio de aulas práticas e teóricas, unir esporte com princípios como respeito e companheirismo.

Rafael, que trabalha com jovens da faixa etária de 12 a 14 anos, acredita que para uma boa aula é preciso diálogo, “e o diálogo tem que estar inserido na realidade deles. Se vamos trabalhar dança, por exemplo, tenho que buscar as músicas que eles escutam”. É também preciso ter jogo de cintura, nem sempre o que funciona em uma turma funciona na outra, acrescenta.

Na escola, os dois professores esbarraram em dificuldades que vão além da relação com os estudantes. Segundo Amanda, o currículo obrigatório restringe a criatividade e até mesmo o tempo. “Há muita coisa que desestimula. A educação é muito quadradinha”, diz. “Os professores têm muita coisa para cumprir”, observa. Ela tenta sair um pouco da rotina e, se está chato, tenta chamar a atenção dos estudantes. “Talvez por ser início de carreira”, pondera.

Rafael, que para a prática esportiva precisa de quadra, bola e outros materiais, esbarrou na falta de estrutura, coisa que não viveu no estágio. Além disso, tem o desafio de lidar com alunos munidos de smartphones e outras tecnologias. “É preciso saber usar essa tecnologia para aproximar o aluno de forma educativa”, comenta.

 

Transformar realidade de alunos incentiva atuação de jovens professoras

O desejo de transmitir conhecimento e a possibilidade de transformar a realidade de jovens por meio da educação são alguns dos fatores que incentivam a atuação de duas jovens professoras recém-chegadas às salas de aula. Elas já conhecem os desafios da profissão, mas continuam certas de que fizeram a escolha correta.

Filha de professores, Agnes Serrano, 23 anos, tinha ideia dos desafios a serem enfrentados na profissão, mas não teve dúvidas quando decidiu ser professora. Há quatro meses, elá dá aulas de geografia em uma escola pública de Ceilândia, cidade do Distrito Federal próxima a Brasília, para alunos do 6° ao 9° ano do ensino fundamental.

“Sempre ouvi dizer que dar aula era um desafio, mas era prazeroso. Só fui entender agora que dar aula é difícil porque você tem que lidar com realidades muito complicadas do ponto de vista social”, conta Agnes.

O sentimento de que é possível mudar para melhor a realidade dos estudantes é um incentivo para a professora. “A gente se percebe como agente que pode modificar a realidade dos estudantes, incentivando os meninos a seguir em frente, dar prosseguimento aos estudos. Sabemos que é só o estudo que vai mudar essa realidade em que vivem. Temos muitos estudantes que percebem a dificuldade da realidade social deles e querem mudar”, disse.

Na avaliação de Agnes, o professor não chega à sala de aula com o preparo necessário para enfrentar o dia a dia da profissão. Segundo ela, o curso superior oferece uma boa formação teórica, mas falta a prática.

“Acho que a universidade e a educação básica não são próximas e é na educação básica que os alunos são preparados também para entrar no curso superior”. E completa: “Quando entramos em contato com o público com o qual vamos trabalhar, já estamos no fim do curso. Então, acho que a preparação é muito deficiente”.

Em poucas palavras, a professora de geografia resume o que tem sido a experiência desses quatro meses de magistério. “Não imaginei que eu fosse gostar tanto de dar aula. Está sendo muito bom. Tenho a expectativa de devolver à sociedade tudo que aprendi”, diz Agnes, que sempre estudou em instituição pública de ensino.

A professora de espanhol Maria Eduarda Andrade, 23 anos, lecionou por seis meses em escola particular e, desde setembro, dá aulas no Centro de Ensino Médio 01 do Gama, no Distrito Federal. Ainda criança, ela brincava de ser professora e hoje o que era brincadeira se tornou realidade.

Maria Eduarda relata que, como professora de espanhol, tem encontrado prós e contra na atividade. “Espanhol é para alunos de ensino médio e não é uma matéria que reprova, aí você se depara com alunos que não dão a mínima importância para a matéria. Fiquei chocada com algumas coisas que ouvi”, lembra.

Esse susto inicial, no entanto, é compensado pelo retorno positivo de alunos interessados em aprender. “Estou adorando dar aula. Ao mesmo tempo, há os que fazem questão da aula e isso compensa os que não querem nada”.

Ela conta que busca tornar as aulas mais dinâmicas, interagir com os alunos e não se apegar tanto ao livro didático para tornar o aprendizado mais interessante. O uso da tecnologia em sala de aula é citado como meio para prender a atenção dos jovens, mas observa que isso pode ter também um lado negativo. “Muitos estudantes não sabem usar a tecnologia a favor deles e querem bater uma foto do conteúdo que está no quadro em vez de copiar para fixar a matéria”, acrescenta.

 

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