Morre, aos 84, o editor e livreiro José Xavier Cortez

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Morreu nesta noite o editor e livreiro José Xavier Cortez. Sr. Cortez, como era comumente chamado pelos colegas, completaria 85 anos em novembro. A causa da morte não foi divulgada.
Nascido em Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, Sr Cortez sonhava em ser caminhoneiro ou sanfoneiro. Gostava de contar que, ainda muito pequeno, percorria nove quilômetros entre o Sítio Santa Rita, onde morava, até a escola rural mais próxima. Na adolescência, segue para Natal, para seguir nos estudos. No fim desse período, já em Recife, ingressa na Marinha.

No início da década de 1960, marinheiros descontentes com seus soldos e com as condições de trabalho, resolvem fundar a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Cortez foi um dos primeiros a aderir à entidade.

Em março de 1964, às vésperas do golpe que deu início à ditadura militar brasileira, Cortez foi preso por sua participação em uma assembleia da entidade na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. O episódio o leva à expulsão da Marinha em dezembro daquele mesmo ano.

Foi nesse contexto que resolve se mudar para São Paulo, onde volta a estudar. Matricula-se em um pré-vestibular e consegue uma vaga no curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A PUC forja a sua trajetória no livro. Na Universidade, um dos focos de resistência ao governo militar, faz carreira primeiro como livreiro, comprando e revendendo aos seus colegas da Economia, e mais tarde, fundando a sua própria editora. Os primeiros livros eram escritos por professores da instituição de ensino superior.

O catálogo da Cortez se consolidou com a publicação de livros nas áreas de Educação e Serviço Social. Pela editora saíram livros de nomes como Paulo Freire, Florestan Fernandes e Maurício Tragtenberg. Em 2004, o editor resolve diversificar seu catálogo e passa a publicar também livros de literatura infantil e juvenil.

O trabalho e a trajetória renderam a Cortez o título de cidadão paulistano, conquistado em 2009, no mesmo ano que foi tema do documentário O semeador de livros, de Wagner Bezerra. Em 2016, é considerado também cidadão natalense. Mas, de todas as honrarias, a que deixava “seu” Cortez mais orgulhoso era ter dado seu nome a escola estadual localizada na Zona Sul da capital paulista. Fazia questão de ir lá todos os anos se encontrar com as crianças.

Em nota, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), da qual foi diretor entre 1999 e 2003, lembrou do legado de Sr. Cortez: “Seu comprometimento e legado levaram ideias potentes às prateleiras de livrarias do Brasil inteiro. Ideias essas fundamentais para a formação de nossa nação, e luta pelas desigualdades sociais em nosso país”.

Bernardo Gurbanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), também lamentou a morte do colega: “José Xavier Cortez, um pioneiro, um mestre, um herói. Um exemplo de superação, fez da educação sua bandeira e dos livros sua paixão. Livreiro, editor, autor, passou por todas as etapas de produção e comercialização do livro. Sempre solidário, teve ativa participação na ANL, contribuindo para o bem comum do nosso setor”.

Em março de 2020, Sr. Cortez participou de um episódio do PublishNews Entrevista, programa do PN que montou um arquivo da memória da indústria editorial brasileira conduzido por André Argolo.

No fim desse mesmo ano, lançou o livro Tempos de isolamento em que relembrou a sua trajetória.

Atendendo a um desejo do próprio Cortez, seu corpo será cremado. No entanto, até o fechamento desta edição, não havia informações sobre cerimônias de despedida.

Nota da CBL

É com muita tristeza que a Câmara Brasileira do Livro recebe a notícia do falecimento de José Xavier Cortez (1936-2021). Amigo dos livros, defendeu com paixão e esmero as causas dos direitos autorais e da disseminação da leitura no Brasil.

Cortez, como era conhecido pelos amigos do mercado editorial, além de fundar a Editora que leva seu nome, também foi diretor da CBL durante os anos de 1999 e 2003. Em sua passagem pela Câmara, esbanjou carisma, colecionou amigos e deu continuidade ao trabalho que transformou o setor. Como presidente da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, Cortez liderou uma pauta que nos é muito cara: a da defesa dos direitos autorais no Brasil.

Seu comprometimento e legado levaram ideias potentes às prateleiras de livrarias do Brasil inteiro. Ideias essas fundamentais para a formação de nossa nação, e luta pelas desigualdades sociais em nosso país.

O menino de 17 anos que saiu do sertão nordestino, dedicou mais de 50 anos aos livros e à leitura. Em 2018, a CBL homenageou tal legado durante a Festa de Confraternização de Editores e Livreiros. Um momento que guardamos em nossas memórias e temos muito orgulho de fazer parte de nossa história.

Além de um legado sem igual, Cortez deixa saudades. Foi homem íntegro e muito querido por todos os amigos e profissionais do mercado editorial brasileiro.

Neste momento de luto, nossos pensamentos estão com seus familiares. Deixamos aqui nossos sentimentos e desejamos força e resiliência neste momento.

Nota da ANL

Hoje o mercado livreiro e editorial perdeu um de seus maiores porta-vozes, Jose Xavier Cortez 84 anos, antes de tudo um grande contador de histórias. Uma história que foi eternizada por documentário e livros. Ele mesmo, em 2020, escreveu Tempos de isolamento: Reflexões e qualidade de vida. A obra é um exemplo de sua luta incessante para manter a cabeça ativa, a despeito de seus mais de oitenta anos, alguns deles já enfrentando uma longa batalha por sua saúde. Uma jornada rica em desafios e superações.

“Escrevi porque acredito ter o que contar e porque aposto que algumas escolhas podem fazer muita diferença em termos de qualidade de vida, especialmente quando nos tornamos parte da emblemática população de idosos – merece muito mais discussões, políticas públicas e holofotes do que infelizmente vem obtendo”. Nos contou Cortez.

Cortez trabalhou na infância e adolescência na agricultura de subsistência, no garimpo e no comércio de secos e molhados, no sertão do Rio Grande do Norte/RN. Aos dezoito anos, entrou para a Marinha do Brasil, de onde foi expulso após o Golpe de 1964. Em São Paulo, trabalhou em um estacionamento, concluiu o Ensino Médio em curso noturno e ingressou no curso de Economia da PUC-SP, época em que iniciou sua carreira como livreiro. Tempos depois, tornou-se editor e, hoje, já ultrapassou a marca de cinquenta anos dedicados ao mercado livreiro e editorial. Recebeu o título de Cidadão Paulistano e, graças a seu trabalho como incentivador do livro e da leitura, hoje dá nome à Escola Estadual José Xavier Cortez, na Zona Sul, em São Paulo.

“José Xavier Cortez, um pioneiro, um mestre, um herói. Um exemplo de superação, fez da educação sua bandeira e dos livros sua paixão. Livreiro, editor, autor, passou por todas as etapas de produção e comercialização do livro. Sempre solidário, teve ativa participação na ANL, contribuindo para o bem comum do nosso setor.”, descreve Bernardo Gurbanov Presidente ANL – Associação Nacional de Livrarias

Em nome da diretoria, associados e equipe, vai aqui nossa homenagem e reconhecimento.