Juventude e trabalho, educar melhor para um mundo incerto

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Em meio à pandemia, somos inundados a cada dia por uma torrente de más notícias sobre o país. Uma delas, de há cerca de um mês, veio do IBGE, referindo-se ao desemprego de jovens de 18 a 24 anos, no terceiro trimestre de 2020, da ordem de 31,4%, a maior taxa histórica com a atual metodologia, iniciada em 2012. A taxa geral foi de 14,6%.

Naturalmente, num contexto de redução geral de postos de trabalho, a falta de experiência penaliza mais essa faixa etária, o que aliás ocorria mesmo antes da presente crise. Mas a pergunta que fica é: como evitar que venha a ocorrer, no mundo pós-Covid, uma diferença tão grande como essa?

E há aí possibilidades de políticas públicas que se complementam: melhorar a formação dos jovens e promover opções de trabalho compatíveis com o século em que vivemos, em que, com o advento da inteligência artificial, máquinas substituem trabalho humano, inclusive aquele que demanda competências cognitivas.

Há muito o que pode ser feito para melhorar a educação da juventude para assegurar-lhe maior empregabilidade e um sentido de propósito em sua relação com o trabalho. Discutimos muito esse tema, num mundo anterior à Covid, em 2018, quando integrei a Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da OIT —e a abordagem ainda se mantém.

Foi, nesse sentido, uma boa surpresa ler o excelente trabalho do grupo Itaú Educação e Trabalho, “Educação Profissional e Tecnológica Emancipatória, Juventudes e Trabalho”, que mostra como o fato de o Brasil ter criado um novo ensino médio, com cinco itinerários formativos, um deles o ensino profissional, permitiu que se olhasse para esta modalidade como parte integrante da educação básica. Além disso, a recente Base Nacional Comum Curricular trabalha, já no fundamental 2, com o projeto de vida do aluno, o que o leva a estabelecer uma conexão com o mundo do trabalho, construindo, dessa forma, um sentido de propósito. No ensino médio, isso pode ser aprofundado, e, dada a permeabilidade dos itinerários formativos, alguma experimentação com cursos curtos que profissionalizem pode acontecer, mesmo que não seja essa a trajetória selecionada pelo aluno.

As habilidades previstas na BNCC são, para completar, mais adequadas para o que demanda o século 21 como empreendedorismo, pensamento sistêmico, autonomia para aprender, resolução colaborativa de problemas com criatividade. Mesmo assim, será importante estabelecer maior parceria com o setor produtivo e investir numa formação de professores para um ensino menos tradicional. O desafio será grande, mas os primeiros passos já foram trilhados, como mostra o documento.

Claudia Costin – Diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais, da FGV, e ex-diretora de educação do Banco Mundial.