A hora dos minidicionários de língua portuguesa voltarem ao ringue para mais um round de disputa está chegando: termina nesta segunda-feira (21) o prazo de inscrição dessas obras no Programa Nacional do Livro Didático 2006. Neste ano, porém, as regras do jogo foram mudadas no último momento pelo juiz. O governo publicou um edital no dia 15 de dezembro de 2004 anunciando novos parâmetros para os dicionários, e, com isso, obrigou as editoras a correrem para se adequar, em três meses, ao que foi estabelecido pelo seu maior cliente. Este ano, o total de dicionários adquiridos para beneficiar os alunos de primeira a quarta série do ensino fundamental público — incluindo o quinto ano das redes que adotam esse ensino em nove anos — poderá chegar a 4,2 milhões, para atender a aproximadamente 17 milhões de estudantes. Uma compra nada desprezível, que, como lembram os editores, vale o esforço e o investimento em novos produtos.
As mudanças mexem, de fato, nas duas pontas da cadeia. Pelo lado das editoras, haverá um desdobramento: o modelo único de minidicionário anteriormente distribuído para todas as séries, contendo de 15 mil a 35 mil verbetes, dará lugar a obras divididas em três categorias, adequadas às faixas etárias das crianças. As editoras Objetiva (Dicionário Houaiss), Positivo (Aurélio), Nova Fronteira (Aurélio e Caldas Aulete), Larousse do Brasil e Melhoramentos participarão, no total, com 15 dicionários da seleção.
Acervos serão compostos por obras de dois tipos
Do lado dos alunos, a grande modificação no programa é que, em vez de levar os dicionários para casa, a partir de 2006 eles passarão a consultar as obras em sala de aula, pois os exemplares permanecerão na escola. A idéia é dispor de obras de pelo menos cinco autores por sala, na proporção de um dicionário para cada quatro alunos.
As turmas vão trabalhar com acervos compostos por títulos de dois tipos. Para as de primeira e segunda série, o MEC vai comprar dicionários na faixa de um mil a três mil verbetes (tipo 1) e haverá também um modelo mais avançado, com 3.500 a dez mil verbetes (tipo 2), para os alunos que já dominam melhor a língua escrita. Esse mesmo modelo será distribuído a estudantes de terceira e quarta séries, junto com um outro tipo de obra, mais completo, na faixa de 19 mil a 35 mil verbetes (tipo 3). O pressuposto é que existem estudantes em estágios distintos de aprendizagem numa mesma sala.
— Beira o desperdício de dinheiro público entregar dicionários de 35 mil verbetes a alunos em fase de alfabetização. Temos uma preocupação do ponto de vista pedagógico: como pode o mesmo dicionário servir para todo o ensino fundamental? Os dicionários distribuídos anteriormente não eram adequados à faixa etária — afirma a diretora do Departamento de Políticas de Educação Infantil e Ensino Fundamental da Secretaria de Educação Básica do MEC, Jeanete Beauchamp.
Segundo ela, não faz sentido entregar a uma criança de 6 ou 7 anos, que muitas vezes não conhece sequer o alfabeto, dicionários com mais de 30 mil verbetes, letra miúda e nenhuma ilustração. E entregar o dicionário ao aluno era, para a diretora, outro equívoco do programa:
— Não é a distribuição de dicionários que garante o uso. Levar para casa é uma coisa, usar é outra. Achamos que a escola é o lugar ideal para uma ação pedagógica capaz de fazer os alunos utilizarem os dicionários. Queremos que o professor seja um mediador e vamos treiná-lo para isso.
O investimento das casas editoriais deverá ter reflexos também na concorrência pelo mercado privado, pois parte dos novos títulos inscritos no PNLD chegará às prateleiras. Na verdade, editoras que tradicionalmente participam das concorrências do governo já estavam esperando alterações. Mas quando o edital foi publicado, além das divisões em categorias, foi surpresa também o fato de o governo não ter especificado detalhadamente, como fazia até então, todas as características técnicas do dicionário (formato, número de páginas, tipo de papel, tamanho das letras).
— Em outras palavras o governo está dizendo o seguinte: “a vida toda nós definimos o que queríamos e vocês, editores, reclamaram. Portanto agora vocês façam um produto bom que nós compraremos” — observa Breno Lerner, diretor geral da Melhoramentos. — Da nossa parte é um investimento sim, mas a vida do editor de dicionários é um investimento eterno, porque a língua é viva, precisa ser atualizada sempre.
Lerner afirma que investiu pouco, cerca de R$ 50 mil, nos novos projetos, principalmente porque usou a base de dados do dicionário Michaellis, editado pela casa. Mas a editora não tinha, por exemplo, um dicionário do tipo 1 adequado ao modelo sugerido pelo edital, que pode ser ilustrado. Na tentativa de conquistar uma fatia desse bolo, a casa convidou Ziraldo para ilustrar o novo dicionário.
Já o investimento da Editora Positivo foi alto: R$ 1 milhão para o desenvolvimento das suas três novas edições. A gerente editorial de obras de referência da casa, Liana Pérola Schipper, conta que já existia a idéia de aumentar a família Aurélio.
— Esse edital tem o mérito maravilhoso de se preocupar com a adequação do produto ao público que ele vai atender. Existia um grande mérito também nas compras anteriores, que colocavam um dicionário na mão de cada aluno — diz ela.
Roberto Feith, editor da Objetiva, concorda que o dicionário de cerca de 30 mil verbetes não é indicado para alunos das primeiras séries do ensino fundamental. A casa concorrerá com duas obras na seleção. Uma delas, o “Minidicionário Houaiss”, lançado no ano passado, exigiu um investimento de cerca de R$ 350 mil somente na sua parte editorial, segundo Feith. Já o investimento no novo infantil da Objetiva está estimado em cerca de R$ 150 mil.
Feith ressalta que as compras do governo na área de dicionários são importantes, principalmente para o novo dicionário infantil ilustrado, que tem um nicho menos maduro:
— O mercado privado já está claramente configurado para o mini porque esse formato vem sendo comprado há muitos anos. Já o dicionário infantil ilustrado tem uma demanda menos cristalizada e amadurecida.
Mais de 20 milhões de mini-Aurélios vendidos
A Nova Fronteira já vendeu 23 milhões, aproximadamente, de Aurélios mini para o governo desde o primeiro PNLD de dicionários. A casa, que comprou a base do Caldas Aulete após a mudança do “Aurélio” para a Positivo, concorrerá com quatro títulos. Na opinião do editor de obras de referência da casa, Paulo Geiger, o investimento feito tem retorno independentemente da compra do governo.
— A nossa interpretação é que essa mudança só pode ser para o bem, no interesse da boa formação dos alunos. E foi baseado nisso que nós nos mobilizamos. Esperamos que haja a vitória dos méritos, que os dicionários tenham melhorado.
Depois de aprovados e selecionados, os dicionários adquiridos deverão chegar às escolas no fim do ano ou início de 2006, para uso no próximo ano letivo. Porém, devido à mudança no edital, quem ingressou na escola em 2005 ficará sem dicionário. Jeanete Beauchamp afirma, entretanto, que o aprendizado desses estudantes não sofrerá prejuízo, uma vez que não estariam aptos a utilizar os dicionários comprados e distribuídos pelo sistema anterior.
— São alunos que estão iniciando a alfabetização e, portanto, não usariam o dicionário com a atual configuração. Todos serão contemplados em 2006 com obras adequadas à faixa etária — conclui ela.