FNDE avança na construção de plano institucional de diversidade

O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia vinculada ao Ministério da Educação (MEC), realizou no último dia 05 de maio, o segundo encontro do ciclo de oficinas voltado à construção do plano institucional de diversidade. A iniciativa reúne equipes técnicas da autarquia e integra as ações do Censo de Diversidade, com foco na promoção da equidade racial em perspectiva interseccional com gênero.

Na abertura, a presidente do FNDE, Fernanda Pacobahyba, destacou a importância de incorporar o debate sobre diversidade na formulação de políticas públicas. “A gente sabe que o motor de qualquer política pública em um país tão desigual quanto o nosso precisa considerar, especialmente, as questões de raça e de gênero. É fundamental manter esse olhar atento na estruturação dessas políticas”, afirmou.

Conduzido por especialistas do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) — Júlia Rosemberg, psicóloga e fundadora da consultoria Tecidas, e Winnie Santos, psicóloga e coordenadora da área de trabalho da Tecidas — o encontro deu continuidade às discussões iniciadas em abril e avançou na organização das propostas em eixos estruturantes.

Foram definidas seis frentes prioritárias: letramento racial e referências formativas; branquitude e seus impactos institucionais; equidade racial e de gênero na liderança e na composição das equipes; boas práticas e experiências de referência; políticas públicas e ações afirmativas; e interseccionalidade aplicada à comunicação e à cultura organizacional.

Reflexões sobre branquitude e racismo estrutural

Durante a formação, Júlia Rosemberg abordou conceitos como branquitude e daltonismo racial, destacando a ausência de repertório individual, coletivo e institucional para compreender o racismo em sua complexidade. Segundo ela, esse cenário contribui para uma leitura limitada do problema, frequentemente reduzido a atos isolados, e não como um sistema estruturado.

A especialista também apresentou a teoria da autora Robin DiAngelo, que discute a dicotomia entre “bom” e “mau” no debate racial. A partir dessa perspectiva, explicou que há uma tendência de tratar o racismo de forma binária, em que pessoas racistas são vistas como más, enquanto as não racistas são automaticamente associadas a características positivas.

Essa lógica, segundo a palestrante, leva à inação. “Ao se colocarem no lugar de ‘não racistas’, muitas pessoas entendem que já cumpriram seu papel, limitando-se a manifestações pontuais nas redes sociais ou a declarações públicas”, afirmou. Ela citou, como exemplo, a adesão a hashtags e o consumo de conteúdos de intelectuais como Sueli Carneiro, sem que isso necessariamente resulte em mudanças concretas de comportamento.

Outro ponto abordado foi a apropriação do conceito de racismo estrutural. Segundo Rosenberg, há uma tendência de simplificação do tema, que desloca a responsabilidade para uma dimensão abstrata. “Ao afirmar que o problema é estrutural, muitas vezes se evita a reflexão sobre práticas individuais e institucionais”, explicou.

Implementação da Educação para as Relações Étnico-Raciais

A professora Jussara Santos, especialista em Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) e autora do livro Democratização do Colo, também participou do encontro como palestrante convidada. Em sua apresentação, abordou a organização institucional, a gestão de recursos e os desafios para a implementação contínua da ERER nas escolas.

A especialista destacou a importância das leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 e ressaltou que, apesar de consolidadas, sua aplicação ainda enfrenta entraves. “Não adianta apenas se sentir acolhida, é preciso aprender”, afirmou, ao comentar dados que indicam defasagens de aprendizagem, mesmo em contextos escolares considerados inclusivos.

Segundo ela, iniciativas como a recomposição de equipes e a valorização de práticas pedagógicas baseadas no reconhecimento identitário têm contribuído para avanços. Escolas que promovem ambientes em que os estudantes se reconhecem tendem a apresentar melhora no desempenho e redução da evasão.

Ao final do encontro, a presidente do FNDE reforçou a importância da continuidade das ações e do engajamento das equipes na construção do plano. “Precisamos liderar esse processo e levar esse debate para dentro das equipes. É um projeto estratégico para a instituição”, afirmou.

A expectativa é que, ao fim do ciclo de oficinas, o FNDE consolide diretrizes e ações estruturantes capazes de fortalecer a gestão institucional e ampliar a incorporação da equidade racial e de gênero no planejamento e na execução das políticas públicas educacionais.

O próximo encontro contará com a participação de Cida Bento, referência nacional no debate sobre relações raciais e equidade.

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