Foi sair do ensino médio, mesmo na escola particular, para perceber que a maioria dos professores aplicava os conteúdos com discursos cheios de ideologia ligada a partidos de esquerda, como define o estudante Guilherme Fontenele, 21.
Ele se incomoda ao ver questões sobre marxismo e cultura do estupro faladas como se todos concordassem. E se posiciona a favor do Escola Sem Partido porque considera que os contrapontos seriam melhor explorados.
Um das propostas do movimento é reformular também o material didático para garantir um equilíbrio entre visões contrárias. O que seria mais adequado, conforme Guilherme, para discutir temas como a igualdade de gênero. “Seriam melhor entendidos por meio de leituras mais imparciais”, defende o estudante.
O estudante Marcos Alves, 19, é contrário ao programa por entender que o pensamento crítico na escola é formado com o máximo de debate sobre problemas sociais. Assim, ele acredita que o ensino não deve estar vinculado a crenças e valores pessoais. E acha que a escola deve ser descontinuidade da família para despertar novas consciências. “Não precisamos continuar o que é negativo. A homofobia continuaria circulando livremente”, exemplifica.
“As crianças vão para a escola para descobrir o mundo e ter contato com o diferente. É debatendo ideias que não são nossas que tomamos a decisão de qual identidade formar”, defende Alejandra Meraz Velasco, superintendente do movimento Todos Pela Educação. A crítica ao programa se dá também pelos textos que dão base aos projetos de lei. Conforme a superintendente, os termos — como doutrinação — são subjetivos e trariam dificuldades de entendimento, deixando o professor vulnerável à perseguição.
Termos e frases ainda são muito abrangentes e passarão por modificação, explica Antônio Jorge Pereira, professor de Direito na Universidade de Fortaleza (Unifor). Ele prestou auxílio ao deputado federal Diego Garcia (PHS-PR), que foi relator do projeto de lei da Escola Sem Partido na Câmara. “O texto dá margem a interpretações de que haveria censura nas escolas, de acabar com o pensamento crítico. A concepção original é evitar que os alunos sejam submetidos a direcionamentos de viés político e partidário”, defende. (Thaís Brito)
Frase
“Nada poderia impedir um professor católico ou evangélico de usar suas aulas para catequizar os alunos ou um professor marxista de tentar convencê-los de que a religião é o ópio do povo. Nos dois casos, a liberdade de consciência e de crença dos alunos seria violada.”
Miguel Nagib, coordenador do Movimento Escola Sem Partido
“Embora reconheçamos que a escola seja um polo importante do processo educativo, este processo é bem maior. É formado pelas experiências também na família, na vida social, na igreja, no partido político.”
Idevaldo Bodião, professor aposentado da UFC e colaborador do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca)
“Sabemos que não existe uma neutralidade ideológica estrita, em nenhuma atividade humana, mas a impossibilidade da neutralidade não deve nos impedir de buscar a neutralidade ao máximo que pudermos”.
Antônio Jorge Pereira, professor de Direito na Universidade de Fortaleza (Unifor)
“O projeto de lei desconsidera que os alunos pensam. Como se a criança fosse uma esponja e absorvesse tudo, numa posição de total vulnerabilidade. Mas, na escola que a gente deseja, o aluno é incentivado a pensar e tem suas hipóteses respeitadas.”
Alejandra Meraz Velasco, superintendente do movimento Todos Pela Educação.
“Infelizmente, nem na escola particular deixa de ocorrer doutrinação. É prejudicial a partir do momento em que o professor desconsidera o outro lado.”
Guilherme Fontenele, 21, estudante
“Não é sufocando o debate na escola que se resolvem situações de doutrinação, de vender uma verdade como única. A proposta flerta com o autoritarismo, e é em contextos como este, de restrição da liberdade, que ela ganha força.”
Edmar de Sousa, doutor em Geografia e professor da rede estadual
O professor no programa Escola Sem Partido
Conforme a proposta de lei, todas as salas de aula de ensino fundamental e médio teriam um cartaz com o seguinte conteúdo:
1. O professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.
2. O professor não favorecerá, não prejudicará e não constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.
3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.
4. Ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa — isto é, com a mes ma profundidade e seriedade —, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito da matéria.
5. O professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.
6. O professor não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros dentro da sala de aula.