Como os projetos de incentivo à leitura sobreviveram na pandemia

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No final de 2020, aumentou nossa inquietação aqui no Instituto Pró-Livro sobre a continuidade dos projetos cadastrados na Plataforma Pró-Livro e os projetos vencedores do Prêmio IPL nas últimas edições. Apesar de solicitarmos atualização do cadastro, muitos não responderam. Achamos importante uma consulta e desenhamos uma enquete para saber se os projetos conseguiram vencer as dificuldades e manter as ações para promover a leitura durante a pandemia.
O número de respostas não atingiu 30% dos projetos cadastrados o que nos faz supor que muitos podem estar desativados. Dos projetos que responderam à enquete:

• 15% – Suspenderam as atividades, até que seja possível retomar
• 55% – Se mantêm ativos, com atividades reduzidas e/ou adaptadas
• 30% – Se mantêm ativos promovendo ações a distância.

Os projetos que se mantiveram ativos sem redução importante em suas atividades e, até, com ampliação no número de seguidores ou beneficiários, em sua grande maioria, são os que se desenvolvem nas mídias digitais (canais no YouTube, podcasts etc.). A ampliação deu-se principalmente para atender a quem está em casa.

Identificamos também projetos que não eram de mídias digitais e conseguiram se adaptar para propor ações a distância organizando lives, podcasts literários, contações de histórias on-line, leitura compartilhada, oficinas virtuais, produção coletiva de e-books etc.

Algumas bibliotecas, em especial as comunitárias, conseguiram manter ou retomar algumas atividades presenciais, incorporando protocolos de segurança e, inclusive, difundindo informações sobre a pandemia e sobre cuidados para seus usuários. Recebemos relatos de promoção de ações de solidariedade, mobilizando empresários e a comunidade local para a doação de cestas com alimentos e livros. Incluir um ou dois livros na cesta foi o diferencial dessas campanhas promovidas por esses projetos ou bibliotecas, como a Biblioteca Comunitária Wagner Vinício, do Rio de Janeiro.

Público, comunidade e beneficiados

Muitos projetos relatam que houve, inicialmente, uma grande diminuição do público atendido. Porém, aos poucos a comunidade foi se envolvendo com as atividades on-line ou retirando livros nas bibliotecas, o que aponta para a ampliação da leitura na pandemia.

Não temos um número preciso de beneficiários, mas, segundo dados da enquete atingiram cerca de 600 mil pessoas.

Os principais desafios para promover ações a distância, além da sustentabilidade financeira, foi, como já prevíamos, a falta de equipamentos e recursos tecnológicos, assim como a expertise para lidar com essas ferramentas e propor novas ações. Também o usuário, como vimos nas aulas on-line oferecidas pelas escolas públicas, não conseguiram acessar as atividades pois não dispõem de equipamentos ou de acesso à internet/banda larga.

A mesma dificuldade foi enfrentada por professores, mediadores e agentes de leitura, que, além de não contarem com equipamentos e acesso à internet, também não dominam essas ferramentas para desenvolver suas atividades de mediação online ou lives.

Aqueles que tentaram manter ações presenciais também enfrentaram dificuldades para manter protocolos de distanciamento e higienização.

Principais aprendizados

Não podemos deixar de apontar que o enfrentamento da situação e da pandemia também trouxe aprendizagem, conforme apontadas pelos projetos.

Aprender a lidar com as ferramentas digitais, novas metodologias e a criar ações que pudessem despertar o interesse daquele público, foram uma grande conquista, mas, provocou, também, flexibilidade, resiliência, superação e, principalmente, solidariedade e empatia dos organizadores para lidarem com perdas, estresse, ansiedade e medo trazidos pelo público atendido.

Projetos que fizeram diferença e são inspiradores

Vale destacar um projeto que “fez de um limão uma limonada”: o Sistema Municipal de Bibliotecas de Juína (MT), em processo de instalação para integrar e equipar todas as bibliotecas do município (comunitárias, públicas e escolares), enfrentou a pandemia inovando e, graças a implantação de um software para integrar acervos, lançou o BiblioDelivery para entrega de livros em sistema delivery para alunos da rede de escolas públicas e com necessidades especiais, o que foi muito positivo para compensar a suspensão das aulas nas escolas. Por meio ainda da parceria com o projeto “Eu leio para uma criança”, da Fundação Itaú, o SMBJ recebeu 20 mil novos livros que foram distribuídos para as crianças das escolas do município, além da distribuição em um drive thru. Acesse aqui para conhecer o projeto.

Outro projeto que vale difundir é o Fafá Conta.

No início da pandemia, “Fafá” passou a fazer lives diárias no YouTube e no Instagram e, apesar de já dominar as ações de contação de histórias a distância, enfrentou algumas dificuldades técnicas que logo foram superadas; agora, mantém uma live semanal e retomou o ritmo de uma história a cada 15 dias no canal; teve uma ampliação “absurda” de público, atingindo 500 mil, por conta da pandemia. Passou a ser uma alternativa para as crianças e muitas escolas passaram a recomendar o canal, além de um reconhecimento, segundo ela, pelas editoras. Ela avalia seu sucesso como um “ponto fora da curva”. Certamente, soube identificar a necessidade do momento.

O Piracaia na Leitura é um projeto de minibibliotecas em pontos de ônibus. No início da pandemia, eles suspenderam todas as atividades e recolheram os acervos. Acontece que as pessoas continuavam devolvendo os livros, e os voluntários seguiam recolhendo. Mas as pessoas não paravam de colocar livros nas casinhas, e doavam outros títulos também. Foi então que eles viram que a população já havia incorporado o empréstimo e devolução dos livros na rotina, no dia a dia; e eles passaram, em vez de recolher o acervo, a higienizar e informar sobre os cuidados a serem tomados nesse tempo de pandemia.

Conheça outros projetos que “deram a volta por cima” clicando aqui.