A escola deve ter as janelas abertas para o mundo

O bom professor com vocação, criatividade e dedicação será lembrado para sempre pelos alunos. Pena que a prática não é bem assim. A Professora Doutora Maria de Lourdes Spazziani conhece bem os desafios da profissão e comenta nessa entrevista a evasão dos talentos: “Muitos dos que cursam e concluem não se identificam com a profissão, favorecendo a mediocridade”. Organizadora do livro “Profissão de professor: cenários, tensões e perspectivas”, da Unesp, ela deseja uma nova formação para o professor.

Confira a íntegra da entrevista:

Qual é o conceito de um bom professor?
Esta resposta é muito difícil de ser dada de pronto. Na verdade, todos nós, especialmente os que atuam na docência, gostaríamos de oferecer um protocolo para nossos licenciandos de como ser um bom professor. Entretanto, compartilho a ideia de alguns estudiosos da área que diferenciam professor bom do bom professor. O professor bom na opinião dos estudantes é aquele que atende as expectativas do grupo ou de parte dele (especialmente dos que exercem certo tipo de liderança na turma).

E quais são elas?
Estas expectativas são diversas de turma para turma, mas atualmente tem a ver mais com empatia e cumplicidade do que com competência e seriedade. Já o que qualifica um bom professor é apresentar (assegurado pelas instituições de ensino superior) uma excelente formação teórica e didática, estar comprometido com o projeto pedagógico da escola, desenvolver nas suas práticas pedagógicas específicas atividades que contribuam para a formação cientifica e sociocultural dos estudantes, trabalhar em parceria com os demais docentes da instituição e estar engajado nos movimentos sociopolíticos da profissão de professor.

O que mudou na formação dos professores na última década?
Olhando para a formação inicial mudou pouca coisa, porque a legislação que promoveu as alterações mais recentes na organização dos cursos de graduação data do início dos anos 2000, momento que aumenta para no mínimo 400 horas o estágio supervisionado e inclui 400 horas de Prática como Componente Curricular, as famosas PCC. Grande parte das instituições não as entendem e, como consequência, não sabem aproveitar como forma de inovar os projetos políticos pedagógicos dos cursos de licenciaturas.

Em que áreas se percebe a mudança?
Os programas de incentivo à formação inicial são os que têm promovido algumas mudanças importantes, como o Pibid – Programa de Iniciação à Docência da Capes, porque além de contribuir para inserir efetivamente os graduandos na escola de educação básica, incentiva a parceria entre universidade e secretarias de educação, favorecendo inclusive a educação continuada dos docentes em exercício.

Os avanços tecnológicos foram incorporados à formação docente?
Depende do que se entende por avanços tecnológicos. Se partirmos da ideia de uso dos recursos digitais, que geralmente está subtendida neste tipo de questão, podemos dizer que sim. Ou seja, grande parte das instituições (ensino básico e superior) montou laboratórios didáticos com computadores e acesso à internet para uso dos docentes e estudantes. E mesmo em sua infraestrutura administrativa essas instituições se renderam às tecnologias digitais. Agora, quando observamos as aulas ministradas, a exposição oral e uso de textos em papel predominam.

Hoje vemos notícias sobre os chamados professores performáticos e bons resultados na sala de aula. Como vê essa novidade?
São professores carismáticos e que conseguem fazer da aula um espetáculo, no sentido dado por Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo, quando diz que “preferimos a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a ilusão à verdade”. Preferimos momentos de descontração e sem muitas exigências, e é o que a sociedade hoje exige dos profissionais: mais ‘jogo de cintura’ do que formação profissional competente e compromisso social.

Quais são os principais desafios na formação dos professores?
Em primeiro lugar é a valorização profissional da carreira do professor, tanto no que se refere às condições de trabalho quanto salarial. Essa condição vai estimular a escolha e a permanência nos cursos de licenciatura de jovens efetivamente vocacionados para a docência. O que temos hoje é evasão de talentos e, infelizmente, muitos dos que cursam e concluem não se identificam com a profissão favorecendo a mediocridade. Ou seja, a desvalorização da carreira é causa direta da diminuição do interesse pela profissão.

A Base Nacional Curricular Comum ajuda ou atrapalha?
A BNCC, os parâmetros curriculares nacionais, as propostas curriculares estaduais, os pacotes de apostilas de rede privadas, entre as tantas parafernálias apresentadas a cada momento e novo governo, com o discurso de renovação da educação brasileira têm efetivamente atrapalhado e/ou dificultado a compreensão do cenário de para onde estamos caminhando quando se pensa na educação básica. A BNCC está em discussão desde 2015, e acho que infelizmente não terá destino muito diferente do que já assistimos em outras ocasiões, muito alarde, muito investimento em recursos e capacitações e pouca efetividade em prol da melhoria da qualidade da formação de nossas crianças e jovens.

Como lidar com os alunos nativos digitais que não querem mais o modelo tradicional de ensino?
Os estudantes, sejam nativos digitais, sejam das comunidades indígenas sem acesso às tecnologias, querem e precisam de escolas constituídas por equipes de professores e demais profissionais da educação bem formados, valorizados e sintonizados com um projeto pedagógico com fundamentação teórica/metodológica consistente e comprometidos com comunidade a qual estão inseridos.

Quais as ações inovadoras que fazem a diferença na formação dos professores?
Hoje, grande parte dos professores que atua na educação básica possui curso de graduação, o que em tese é um ponto importante para contribuir com a qualidade do ensino. Entretanto, ainda temos problemas com a qualidade desta formação, que está concentrada em instituições de ensino superior sem vocação para articulação entre ensino e pesquisa no campo educacional. Entendo que a inovação na formação dos docentes é justamente a articulação efetiva entre teoria e a prática, o ensino e a pesquisa, o saber e o saber fazer.

Qual é a nova função da escola básica?
Continua muito atual o que o psicólogo russo Lev Seminovich Vigotski propunha para a escola do início do século XX, ou seja, a escola do futuro deve ter suas “janelas abertas de par em par, e o professor não só olhará, mas também participará ativamente dos deveres da vida. O cheiro de mofo e podridão em nossa escola deve-se ao fato de que, nela, as janelas para o amplo mundo estavam hermeticamente fechadas e, sobretudo, fechadas na alma do próprio professor”. Ou seja, a função da educação escolar é formar o sujeito social, e o profissional professor, representando todo o sistema educacional, é um dos personagens centrais para o cumprimento desta enorme e fundamental tarefa.

 

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