A influência positiva de uma biblioteca escolar no desempenho dos alunos mais do que dobra nas escolas socialmente vulneráveis. Esse é um dos resultados do levantamento feito em cerca de 500 escolas públicas, de 17 estados brasileiros. A Pesquisa Retratos da Leitura – Bibliotecas Escolares, desenvolvida pelo INSPER, a pedido do Instituto Pró-Livro e aplicada em campo pelo OPE Sociais, foi apresentada no último dia 23 de setembro, na sede do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, em São Paulo, para uma plateia de educadores, bibliotecários e especialistas e, com transmissão on line.
O objetivo da pesquisa é o de contribuir na orientação de políticas públicas, estimular o desenvolvimento de programas e investimentos voltados à melhoria da qualidade do atendimento nas bibliotecas escolares. É também colaborar no alcance das metas de aprendizagem integrada ao curriculum escolar, enquanto ambiente informacional e de promoção da leitura e pesquisa.
Uma das conclusões da Retratos é que a diferença entre as escolas pesquisadas que têm a melhor e a pior biblioteca reflete em 4 pontos no desempenho em Português na escala Saeb – Sistema de Avaliação da Educação Básica. Considerando que, segundo os dados do Censo/MEC, de 2017, 61% (88.340), das escolas públicas do país não têm bibliotecas ou salas de leitura, não ter uma biblioteca escolar deixa o nível educacional ainda mais desafiador.
Foi para ampliar esse olhar sobre a questão que, o Instituto Pró-Livro realizou o Seminário. “É uma honra contar com o interesse de um público tão especial para que juntos, possamos refletir sobre a importância das bibliotecas nas escolas”, comentou José Ângelo Xavier, presidente do Instituto Pró-Livro na abertura do encontro. Entre os convidados para as mesas de discussões estão Zoara Failla, coordenadora da pesquisa; a pesquisadora do INSPER, Clarice Martins; a ex-secretária executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e fundadora do Palavralida, Renata Costa; a presidente executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz; o presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia, Marcos Luiz Cavalcanti de Miranda; Marcelo Mallmann (UNDIME) e o deputado federal Rafael Motta (PSB), membro da Comissão de Educação.
Seminário
Os resultados da pesquisa e algumas análises aconteceram na primeira parte do evento. “É fundamental identificarmos o que deve ser garantido na instalação, no funcionamento, no perfil profissional e nas atividades oferecidas pelas bibliotecas escolares para que, de fato, tais aspectos atuem integrados ao currículo escolar”, pontuou Zoara Failla.
A relação positiva entre a existência de bibliotecas escolares ou salas de leitura e o desempenho escolar em Português e Matemática, no 5º ano do Ensino Fundamental foi um dos dados apresentados por Clarice Martins, pesquisadora do INSPER. Essa relação demonstrou ser mais forte quanto mais vulnerável é a condição socioeconômica da criança. “Ficamos surpresos, quando pensamos nesses resultados refletidos na disciplina de Matemática, mas o enunciado da questão é fundamental. Os alunos dependem da interpretação de texto para resolver um problema”.
A pesquisadora, também apontou que a presença de um responsável qualificado em bibliotecas e salas de leitura é relevante no aprendizado. “Isso reflete em 4 pontos na escala SAEB, que equivale a 4 meses de aprendizado entre o 5º e o 9º anos. O efeito é ainda mais forte nas escolas mais vulneráveis: 16 pontos na escala SAEB.
Priscila Cruz, presidente da ONG Todos Pela Educação finalizou o painel falando dos índices de educação no país: “O Brasil deu um salto na educação básica. No fundamental I, justamente o foco da pesquisa em bibliotecas, de 2007 a 2017 a porcentagem de alunos que atinge pelo menos o nível mínimo de aprendizado da língua portuguesa saltou de 28% para 60%”. Apesar deste indicador positivo, Priscila ressaltou que “ainda temos muito a fazer. No ensino médio apenas 9% dos alunos que concluem, atingem a aprendizagem mínima em matemática”.
As políticas públicas e a universalização das bibliotecas foram debatidas por Marcelo Mallman da UNDIME (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), deputado Rafael Motta, representante da Comissão de Educação, e Marcos Luiz Cavalcanti de Miranda, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB). Com Mediação de Adriana Ferrari, presidente da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas de Informação e Instituições (FEBAB).
O deputado Rafael Motta, falou da dificuldade implementação da Lei nº 12.244/2010, que estabelece a universalização de bibliotecas em escolas públicas. “O prazo para a universalização das bibliotecas foi estendido até 2024. No Brasil existe uma biblioteca a cada 30 mil habitantes, na República Tcheca é uma para cada 1.971”.
No painel ainda foi discutido o papel do bibliotecário. Na pesquisa é possível observar que a presença de um professor que se envolva em atividades de pesquisa e leitura e, incentive os alunos a frequentar a biblioteca aumenta o desempenho em Português em até 7 pontos na escala SAEB, o que representa 63% de um ano de aprendizado.
Christine Fontelles, da campanha “Eu Quero Minha Biblioteca”, Marília Paiva, professora e pesquisadora da área de biblioteconomia (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), Volnei Canônica, do Instituto de Leitura Quindim e ex-coordenador do programa “Prazer em Ler” (Instituto C&A), e Maria das Graças Castro, professora de biblioteconomia (Universidade Federal de Goiás – UFG), discorreram também sobre os principais dados do estudo.
A professora e pesquisadora Marília Paiva explicou, “Não é que a biblioteca e o bibliotecário não sejam reconhecidos. Eles não são conhecidos”. Ainda complementou que “a maioria das pessoas nunca tiveram acesso a uma biblioteca de verdade”. Levando em conta o critério espaço físico, a escola que mais se destacou tem um IDEB 0,2 maior que a escola com pior espaço. A mesma magnitude de correlação tem o indicador de uso da biblioteca. Nas escolas em região de maior vulnerabilidade com bom espaço dedicado à leitura, essa pontuação chegou a ser 0,5 maior que em outras escolas na mesma situação, apresenta a pesquisa.
Renata Costa, fundadora do Palavralida deu início a última sessão, “terminamos esse seminário com tanta escuta, tanto aprendizado, inquietações, em relação a nossa área do livro, leitura e biblioteca, que é um respiro finalizar este evento falando de experiências exitosas. Participaram, Simone Monteiro, professora da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro e assessora de articulação pedagógica da MultiRio e Mônica Uriarte, coordenadora da biblioteca de São Leopoldo (RS). “Temos nossas querelas, nossos problemas, na nossa tão amada área do livro, mas também encontramos projetos maravilhosos de fomento à leitura acontecendo pelo país”, completa.
O debate pode ser visto na íntegra pelos links:
https://www.youtube.com/watch?v=qlwQUc6UjWw
https://www.youtube.com/watch?v=y8aMSWgSMHI
Sobre o Instituto Pró-Livro: O IPL (www.prolivro.org.br) é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, criada e mantida pelas entidades do livro – Abrelivros, CBL e SNEL – com a missão de transformar o Brasil em um país de leitores. Sendo assim, tem como objetivo promover pesquisas e ações de fomento à leitura. Realiza, periodicamente, a pesquisa Retratos da leitura no Brasil, maior e mais completo estudo sobre o comportamento do leitor brasileiro, a fim de avaliar impactos e orientar ações e políticas públicas em relação ao livro e à leitura, visando, assim, melhorar os indicadores de leitura e o acesso ao livro. Também é responsável pelo Prêmio IPL – Retratos da Leitura, que busca homenagear organizações que desenvolvem práticas de incentivo à leitura e, desse modo, promovê-las e difundi-las, de maneira que ganhem amplitude e investimentos, orientem políticas públicas e inspirem outras iniciativas pelo Brasil. O IPL também conta com outra ação importante, a Plataforma Pró-Livro – uma plataforma digital colaborativa que reúne informações sobre as práticas de leitura ao redor do país e incentiva a conexão entre essas experiências. Os projetos premiados e cadastrados estão mapeados e podem ser conhecidos na Plataforma Pró-Livro (www.plataformaprolivro.org.br).