Notícias de que novas tecnologias seriam capazes de revolucionar o aprendizado não são novas. Nos últimos anos, porém, talvez a iniciativa que mais recebeu atenção foi o programa “Um Computador por Aluno”, que tinha por trás a chancela de um respeitado pesquisador do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), Nicholas Negroponte. O Brasil foi um dos países em que o programa foi testado, num projeto piloto.
Um estudo publicado no site do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) — feito pelos pesquisadores Alex Rodrigues Lima, Adolfo Sachsida e Alexandre de Carvalho — identificou alguns efeitos benéficos do programa no desempenho dos alunos nas principais avaliações do MEC (Prova Brasil e o Enem). O ganho mais expressivo detectado na pesquisa foi um aumento de 3% no desempenho em matemática. Foi, na avaliação dos autores, um impacto positivo, mas “não muito eficaz e/ou eficiente no sentido de mudar consideravelmente o nível educacional dos alunos da rede pública de ensino”.
Como em qualquer pesquisa com esse nível de rigor e complexidade, há algumas limitações a serem consideradas. No caso desse novo estudo do Ipea, foram comparados dados de desempenho dos alunos entre 2009 a 2011. Como o programa foi implementado em sua fase piloto em 300 escolas (principalmente em seis municípios) no ano de 2010, isso significa que só foi possível investigar efeitos de curto prazo. Não sabemos, portanto, se esses ganhos foram ampliados, reduzidos ou ficaram estáveis depois.
Outros estudos já haviam sido realizados sobre o mesmo programa no Brasil. O mais abrangente foi divulgado em 2013 pelas pesquisadoras Lena Lavinas e Alinne Veiga, depois publicado no livro “Avaliando a inclusão digital pela escola”. A pesquisa identificou que, em cinco municípios onde o programa foi implementado por completo, ele chegou a todos os alunos e resultou num maior uso dos equipamentos digitais. No entanto, a infraestrutura inadequada (especialmente a má qualidade da conexão com a internet) e problemas de implementação fizeram com que os resultados fossem muito desiguais, tendo os alunos pobres se beneficiado menos do que os demais, um problema sério para uma iniciativa que desejava reduzir, e não ampliar, desigualdades. Por esses e outros motivos, as autoras concluíram que os efeitos do programa ficaram aquém do esperado, ainda mais considerando seus custos elevados.
Os resultados pouco animadores do uso de tecnologia em sala de aula não se restringem ao Brasil. No Peru, onde o mesmo programa “Um Computador por Aluno` foi implementado em larga escala, um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento também não identificou ganhos significativos de aprendizagem. Outros programas que prometiam revolucionar a sala de aula por meio de novas tecnologias também se mostraram pouco eficazes, quando não prejudiciais, ao aprendizado.
Apesar desses resultados frustrantes até o momento, num mundo em que a tecnologia revoluciona todas as dimensões da vida, seria um erro ignorar por completo seu potencial para o aprendizado. Há iniciativas promissoras (geralmente aquelas que ajudam a aproximar alunos e professores), mas há um longo caminho ainda a percorrer até termos evidências concretas do que pode dar certo em larga escala. Isso sem falar no óbvio: elas não resolvem problemas estruturais de um sistema de ensino, como a baixa atratividade da carreira e a má formação docente, nem são capazes de substituir o professor.