Especialista fala sobre a hora certa de conhecer as letras

A alfabetização é um momento de mudança de perspectivas de mundo para a criança. Descobrir o que as letras, juntas, são capazes de dizer abre a mente para a escrita e a leitura, duas formas muito importantes de comunicação do ser humano. Entretanto, a idade adequada para que esse processo aconteça está longe de ser um consenso.

“Dar letramento para uma criança com menos de 7 anos é como se tentássemos cozinhar numa panela que não está pronta”, defende a professora Camila Fornaziero, da Escola Waldorf Micael de Sorocaba. “Uma coisa é apresentar as letras, outra coisa é fazer um trabalho sistemático de alfabetização”, pondera o professor Márcio Antônio Gatti, vice-chefe do Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) do campus de Sorocaba da UFSCar.

Desde 2006, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira estabelece a obrigatoriedade de matrícula das crianças, no ensino fundamental, já aos 6 anos. Isso significa começar a alfabetização nesta idade e tê-la concretizada até os 8 anos (final do 3º ano do ensino fundamental), como preconiza o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. O impacto da antecipação da entrada das crianças no ensino fundamental, ainda que há mais de dez anos em vigor, segue sendo motivo de debates. E, agora, o Conselho Nacional de Educação (CNE) já analisa nova proposta, do Ministério da Educação, para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estuda que o processo de alfabetização seja antecipado para o 2º ano do ensino fundamental, quando as crianças geralmente têm 7 anos. Na contramão dessa discussão, educadores de linhas diversas, como a Pedagogia Waldorf, por exemplo, defendem esticar “para cima” essa idade na qual a criança alcança o domínio completo do ler e escrever. Mas, afinal, há idade certa para alfabetizar?

A discussão sobre a precocidade da alfabetização passa, quase sempre, pela defesa da educação infantil voltada exclusivamente ao lúdico, à brincadeira. E se para as crianças na primeira infância, imitar é parte desse mundo em descoberta, apresentar as letras aos pequenos antes dos 7 anos, para a Pedagogia Waldorf, por exemplo, é um erro. “Até as histórias que os professores contam não são lidas. Se o adulto (professor) não quer estimular a alfabetização, ele não pode ficar lendo e trazendo conteúdos abstratos para suas crianças”, defende Camila. Para a Pedagogia Waldorf, os primeiros 7 anos de vida das crianças devem ser focados no desenvolvimento sadio do corpo. “Os órgãos estão sendo formados, células estão sendo criadas, e se a energia dessa criança for usada para aprender coisas abstratas, como letras, palavras, frases, forças se retiram do desenvolvimento e são dirigidas para atividades cognitivas, prejudicando o desenvolvimento sadio de órgãos e células. A criança hiper estimulada fica desvitalizada”, explica Camila. Gatti concorda que estimular a alfabetização na educação infantil pode sim ser considerada uma atitude precoce, capaz de comprometer o desenvolvimento de outras questões mais importantes neste período da infância. Entretanto, o docente da UFSCar pondera que há diferenças entre apresentar as letras a uma criança na primeira infância e efetivamente ensiná-la a ler e a escrever. “Uma coisa é fazer um trabalho, por exemplo, de consciência fonológica, no qual as crianças passam a compreender que certas palavras são produzidas com o mesmo som e que umas rimam com as outras. Outra coisa é o trabalho sistemático de tentar compreender a correspondência entre letras e sons da língua portuguesa, de compreender e se apropriar do sistema de escrita alfabético ortográfico.” Gatti concorda que, se inserida no mundo letrado, é quase certo que a criança acaba se interessando “naturalmente” pelas letras. Ele reflete, entretanto, que oferecer conhecimento para sanar essa curiosidade não precisa ser considerado um crime. “É necessário entender se não é uma pressão, mas se é um interesse natural, não vejo como precoce. O que de fato não é desejável é estipular metas ou qualquer trabalho sistemático de alfabetização na educação infantil, substituindo, por exemplo, o direito à brincadeira, a socialização, o desenvolvimento de outras habilidades.”

Gatti explica que alfabetização e aquisição da linguagem são coisas que andam juntas. “Se pensamos que com 6 anos a criança já adquiriu, de certa maneira, a língua materna, ou ao menos a parte mais dura, isto é, a fonologia, a sintaxe e a morfologia, digamos que para ela fica mais fácil adquirir a escrita.” Por outro lado, alerta o professor, forçar o processo com crianças menores pode ser danoso, exatamente porque estas ainda estão consolidando a própria aquisição da língua materna.

Cada vez mais cedo

“Não gosto de pensar em uma idade correta, mas é óbvio que antecipar demais é ruim”, avalia Gatti, sobre a tendência de colocar as crianças “oficialmente” em fase de alfabetização cada vez mais cedo. “Costumo dizer aos meus alunos que fazemos pequenas maldades com as crianças. Colocá-las tão cedo em salas de alfabetização talvez seja uma delas. Por outro lado, a coisa tem que começar em algum lugar, não é?”, questiona. “Para a Pedagogia Waldorf essa antecipação [de ingresso das crianças no ensino fundamental] foi um verdadeiro crime contra a infância. Hoje temos crianças de 5 anos que vão para o ensino fundamental, e delas é exigido um comportamento que muitas vezes elas não conseguem corresponder, e então vêm os diagnósticos precoces e errôneos de hiperatividade e déficit de atenção. É uma pena”, reflete Camila.

 

Menu de acessibilidade