Queda de receita em 2017 deve reduzir gasto com Educação Básica

Segundo levantamento do Todos Pela Educação, 20 dos 27 Estados tiveram queda real dos valores anuais por aluno no Fundeb; Caio Callegari, coordenador de projetos da organização, analisa que muitos municípios terão que transferir recursos de investimento para pagar a folha de pagamento.

Os efeitos da recessão sobre a arrecadação de impostos devem atingir este ano também os recursos que financiam a educação básica. O valor mínimo investido por aluno na educação básica do país, projeção que baliza a distribuição para Estados e municípios dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), teve queda real de 1,3% em 2017 ante 2016, em dados deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do ano passado pelo economista Caio Callegari, coordenador de projetos do movimento Todos pela Educação. É o segundo ano consecutivo de queda real do valor mínimo, aponta o levantamento.

“Muitos municípios terão que transferir recursos de investimento para manutenção, como folha de pagamento”, diz Callegari. O Fundeb é a principal fonte de financiamento da educação básica, e responde por em torno de 63% de todo o investimento na área. Márcio Lacerda, presidente da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) e ex¬prefeito de Belo Horizonte, diz que na capital mineira, por exemplo, 100% do Fundeb são usados para cobrir a folha de pagamento.

“O custeio da máquina pública tende a crescer mais que a inflação. Se o prefeito der reajuste igual à inflação, ele já está perdendo”, diz Lacerda, que cita o reajuste de 7,64% do piso salarial dos professores da educação básica, concedido em janeiro deste ano, ante inflação de 6,29% em 2016. “Sai do dinheiro do Fundeb.”

O valor anual mínimo nacional por aluno, definido em portaria dos ministérios da Educação (MEC) e da Fazenda e válido desde o início do ano, ficou em R$ 2.875,03, menor que os R$ 2.912,10 de 2016, corrigidos pela inflação oficial do período. O cálculo do valor mínimo é feito a partir de projeções de arrecadação para 2017 feitas pelo MEC e pela Fazenda. “Esse valor mínimo baliza a distribuição dos recursos e para decidir o quanto a União terá que transferir para os Estados”, diz Lacerda.

Criado em 2007 e válido até 2020, o Fundeb é formado a partir de uma cesta de impostos e transferências municipais e estaduais vinculada à educação (como IPI, IPVA e ICMS). Conforme os tributos são arrecadados, 20% do montante deixam de ir para o caixa da prefeitura e são depositados no fundo estadual ligado ao Fundeb.

Cada Estado tem um fundo próprio, de onde os recursos são redistribuídos entre as contas das prefeituras e dos Estados, de acordo com o número de matrículas em cada etapa de ensino, segundo o censo escolar do ano anterior, ponderados por valores diferentes para cada etapa. Pela lei, cabe aos municípios a oferta de creches, pré¬escolas e ensino fundamental? os Estados são responsáveis pelo ensino médio, além de apoiar os municípios na oferta de ensino fundamental.

Cada etapa de ensino tem um valor distinto a ser distribuído no Fundeb. A matrícula de um aluno no ensino fundamental urbano, por exemplo, é a referência de valor 1, e recebe o mínimo. Um curso integral, ou na zona rural, por outro lado, precisa de mais recursos. “A matrícula do Fundeb pode variar de 0,7 a 1,3 do valor do ensino fundamental urbano”, explica Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que participou ativamente do trâmite tanto da lei que criou o Fundeb, em 2007, quanto do Plano Nacional de Educação, em 2014.

De acordo com o levantamento, 20 dos 27 Estados tiveram queda real dos valores anuais por aluno no Fundeb em relação a 2016 e terão que ajustar as políticas educacionais, alerta Callegari. No dado corrigido pela inflação, Roraima teve queda de 17% em seu valor aluno/ano do Fundeb. Apesar de ser a maior queda entre os todos Estados, ainda é o maior valor por aluno do país. Espírito Santo, Amapá, Rio, São Paulo e Santa Catarina tiveram quedas de, respectivamente, 8,2%, 8%, 6,7%, 5,2% e 4,8%.

Pela regra do Fundeb, a União complementa transferindo recursos para os Estados que não conseguem atingir o valor mínimo nacional com o equivalente a 9% do arrecadado no Fundeb entre todos os Estados e municípios. “A lei exige 10%, mas permite que 1% da complementação seja gasta de forma discricionária”, diz Callegari.

Nove Estados recebem complementação financeira da União: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco e Piauí? mesmo número de 2016. “A complementação vai sempre para quem está pior, e a União precisa dar o suficiente para o Estado subir para a próxima posição no ranking. E se houver dois Estados na última posição, a União tem que melhorar os dois”, diz.

Callegari destaca que, como depende da capacidade de arrecadação de cada Estado, a discrepância no orçamento de uma região para outra é muito grande. “Os Estados mais pobres têm Fundeb menor. Hoje, um aluno de Curitiba, por exemplo, não tem a mesma importância em termos de recurso de um aluno de Teresina”, diz. Descontada a inflação, a complementação da União tem se mantido estável desde 2012, cerca de R$ 12 bilhões.

“O Fundeb gera um tipo de redistribuição que não equaliza todo o Brasil “, diz Callegari. Ele defende a implementação do Custo Aluno Qualidade (CAQ) e do Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi), mecanismos previstos no Plano Nacional de Educação, sancionado em 2014 e que estabelece 20 metas até 2024. “Hoje, se define o orçamento a partir do que tem, e não do que é necessário”, afirma.

Prevista na estratégia 20.7 do PNE, a implementação do CAQ e do CAQi definiria valores para quanto o Brasil precisa investir para garantir um padrão mínimo de qualidade. “A assimetria no Brasil é muito radical. O objetivo do CAQ é garantir um mínimo, em que todos os estudantes teriam um valor por matrícula um pouco acima do de São Paulo”, diz Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, entidade que criou o mecanismo do CAQ, que foi incorporado ao PNE. “A única maneira de corrigir uma distorção arrecadatória entre Estados e municípios é ter o papel corretivo da União.”

Cara estima que a implementação do CAQ exigiria o aumento da complementação da União de 10% para 50% do Fundeb total. “A cada R$ 1 colocado nos Estados e municípios, a União colocaria R$ 0,50”, diz o especialista. “Deixaria de pressionar tanto os Estados e muitos desistiriam da municipalização. Por que hoje muitos Estados transferem responsabilidades para os municípios? Porque o Fundeb está subfinanciado”.

Segundo Cara, a preservação da brecha para elevar gastos na PEC do teto foi uma concessão da União a partir da pressão das entidades de educação e municipalistas em meio à votação da emenda. “Mas não é uma exceção clara? pode ser questionada juridicamente”, avalia ele.

Lacerda, da FNP, destaca que em 2017 os prefeitos enfrentam ainda a pressão do aumento da demanda por serviços públicos. Para ele, a realidade impõe que as prefeituras melhorem a gestão, já que não é mais possível pedir dinheiro à União. Diz, no entanto, que as restrições orçamentárias não permitirão o cumprimento das metas do PNE. “Este ano, toda cidade já está obrigada a universalizar a educação infantil para 4 e 5 anos”, diz. “O prefeito pode e ajustar, desde que não cumpra as metas do PNE.”

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