Tivemos que ocupar para sermos ouvidos, diz símbolo das ocupações no PR

As ocupações de escolas lideradas por estudantes secundaristas novamente ganharam força pelo Brasil. Por conta delas, até o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) teve que ser adiado em mais de 400 locais que seriam utilizados para a aplicação das provas.

O movimento, iniciado há pouco mais de um mês em colégios públicos do Paraná, contra a MP (Medida Provisória) 746, que trata da reforma do ensino médio, e a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 241 e 55, que fixam um teto de gastos à União pelos próximos 20 anos – ganhou força e se espalhou até para universidades e institutos federais.

Para a estudante Ana Júlia Ribeiro, 16, que se tornou símbolo das ocupações paranaenses após discursar na Assembleia Legislativa do Estado, a estratégia de ocupar os colégios foi necessária para que os alunos fossem ouvidos.

`A gente ia às ruas, falava, ninguém entendia, ninguém escutava. Foi na ocupação que a gente viu que podia ser ouvido. Porque aí incomoda, foge da normalidade`, explicou a jovem ao UOL, após participar de uma mesa de debates sobre os desafios curriculares do ensino médio, realizado em São Paulo nesta quinta (10).

`A gente esperava que o movimento ganhasse força – que ele deixasse de ser algo só ali, em Curitiba. Ficamos felizes em ver que isso está sendo alcançado aos poucos, que esse movimento está se tornando um movimento nacional`, acrescentou Ana Júlia Ribeiro.

O ensino médio que eles querem

Nas discussões sobre o ensino médio ideal, Ana Júlia destacou o grande problema hoje é que os responsáveis pelo sistema educacional não escutam quem de fato deveriam escutar: os estudantes.

`A primeira atitude que deveria ser tomada é realmente ouvirem o que a gente quer, ouvirem o que esse pessoal que está ocupando quer`, complementou Lidiane de Paula Pereira, 18, estudante de gestão social na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ex-aluna de escola pública, convidada para participar das discussões.

`Para mim, deveria ter todas as matérias que tem e também uma maior valorização do professor`, explicou Lidiane. Segundo a jovem, isso traria um dinamismo maior entre alunos, professor e conteúdo, além de ser um bom caminho para a interdisciplinaridade.

A universitária também defendeu um ensino médio com suporte de professores e psicólogos para que os alunos descubram seus talentos. `Hoje a gente não recebe essa atenção, estamos lá simplesmente para assistir às aulas. A gente não tem alguém que sente com a gente e nos ajude a ver no que somos bons`.

Sobre o atual sistema de avaliação, os participantes foram unânimes ao criticar a supervalorização das provas no lugar dos alunos.

Para as alunas, o ensino médio ideal seria aquele em que o professor acompanharia os alunos ao longo dos bimestres, avaliando a interação dos alunos e o quanto eles conseguiram aplicar o conteúdo passado na própria vida

`Seria uma avaliação mais justa e mais honesta do que a de hoje, em que você tem que decorar o conteúdo para fazer uma prova`, concluiu Lidiane.

O seminário

O evento, realizado na quarta (9) e quinta (10), foi organizado pelo Instituto Unibanco, em parceria com o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), com o objetivo de contribuir com a discussão em torno das principais questões da etapa escolar no país.

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