“Enquanto evoluímos na tecnologia das telas, deixamos de investir na capacidade cognitiva e perdemos o pensamento crítico”

A entrevistada deste mês é Ana Erthal, que foi painelista do webinar “Leitura, escrita e a construção do conhecimento”, realizado em novembro pela Abrelivros, Revista Educação e Two Sides. Ana falou sobre “O ato sensorial da leitura na formação do pensamento crítico”. Doutora em Comunicação, com pós-doutorado na ECA-USP, Ana Ertahl é uma voz influente no debate sobre educação e tecnologia. Ela atua como pesquisadora na Escola do Futuro (NACE-USP) e na Pupa Educação Digital, é colunista do portal Meio & Mensagem e integra a equipe da renomada pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro.

Na conversa, Ana destacou a urgência de reconstruir a capacidade de concentração dos jovens na era da hiperconexão, detalhou como a leitura profunda atua diretamente nos mecanismos cognitivos. Defendeu ainda a necessidade de uma lei que determine a inclusão da Educação Midiática nas escolas, tratando a leitura como um eixo estratégico para o desenvolvimento nacional. Confira!

Você afirma que o ato de ler envolve processos sensoriais fundamentais para a formação do pensamento crítico. Como essa dimensão sensorial da leitura impacta a aprendizagem dos estudantes hoje, especialmente em um contexto marcado pela hiperconexão e pela abundância de telas?

A construção do conhecimento a partir da nossa habilidade cognitiva e das conexões neurais que fazemos passa diretamente pelos nossos cinco sentidos. Os sentidos constituem a nossa memória: nos lembramos daquilo que vivemos, que vemos, que ouvimos, que sentimos e que percebemos. Quando lemos, mobilizamos toda a nossa memória para buscar, nesse imenso repertório de experiências, as imagens, os sentimentos e os afetos que as narrativas demandam. A leitura desenvolve o pensamento crítico porque é capaz de fazer essas conexões entre memória, experiências e pensamentos, permitindo que cada um estabeleça relações a partir de suas vivências. Assim, o indivíduo se torna capaz de questionar, construir e compartilhar ideias e conceitos de modo crítico, refletido e analítico. Um mundo de abundância de telas é, no entanto, um mundo de alienação, onde as pessoas consomem mais e exercem menos a reflexão analítica sobre os conteúdos. Este é o fio condutor que liga o ato sensorial e o pensamento crítico.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, da qual você faz parte, revelou queda no hábito leitor. Quais achados da pesquisa mais preocupam quando pensamos na importância de políticas públicas como o PNLD? E que caminhos podem ser construídos para reverter esse cenário?

A queda do número de leitores está ligada a uma redução transversal do interesse em todos os perfis. São muitos os fatores de influência, o que exige várias frentes de trabalho para reverter esse quadro. Preocupam o tempo livre cada vez menos investido em leitura, o orçamento cada vez mais reduzido para o setor da educação, a falta de políticas públicas voltadas para a valorização da leitura e publicação de livros, a ausência de um discurso que mostre os impactos da leitura sobre o cérebro em comparação com o uso das tecnologias digitais, o acesso precário aos livros, às bibliotecas e aos autores, sobretudo fora dos grandes centros, e o próprio mercado que se forma dentro das redes, com a ascensão de influenciadores literários. Este é um conjunto complexo que legitima a importância da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e de todos os eventos que ela promove para avançar no debate e gerar mudanças significativas.

Muito se discute sobre o equilíbrio entre materiais digitais e impressos na educação. A partir das suas pesquisas, quais evidências científicas mostram como cada suporte contribui, ou não, para a compreensão profunda, a memória e o desenvolvimento cognitivo?

As evidências mostram que as experiências nas telas não geram memória. É fácil fazer a experiência: do que nos lembramos do que vimos ontem em telas, considerando que acessamos centenas de informações? A experiência da tela é de velocidade, e não de reflexão, e por esse motivo ela não contribui para o desenvolvimento cognitivo. Há uma diferença enorme no consumo da tela interativa e do livro ou e-reader. A tela se mexe e interage, enquanto o livro não. São experiências sensoriais e cognitivas diferentes que não podem ser dissociadas. A experiência do livro, que não interage, é fundamental para o desenvolvimento da atenção.

Os jovens de hoje enfrentam desafios inéditos de atenção e foco. Como a leitura, especialmente a leitura profunda, linear, pode ajudar a reconstruir a capacidade de concentração? E qual o papel da escola na mediação desse processo?

Os jovens são hiperestimulados por telas e, consequentemente, não são estimulados ao tédio, à reflexão e à leitura, o que gera um abismo. Ao mesmo tempo em que preparamos essa geração para viver em um mundo acelerado e impulsionado pela Inteligência Artificial, perdemos o investimento na capacidade cognitiva. A leitura profunda é a chave para a reconstrução do foco, pois a cada atividade concentrada, trabalhamos com áreas do cérebro, ativando mecanismos que aumentam a sua capacidade. O cérebro funciona pela lógica do estímulo: quanto mais se dedica a uma atividade, melhor ele vai desempenhá-la. O abismo se aprofunda porque, enquanto evoluímos na tecnologia, deixamos de investir na capacidade cognitiva necessária para acompanhar essa nova realidade, resultando na perda do pensamento crítico. A desinformação, deepfakes, fake news e o marketing das mídias são consumidos sem nenhuma reflexão crítica, levando a um modo de vida totalmente irreflexivo.

O papel da escola é fundamental, mas ela não consegue reverter o problema sozinha, pois ele é estrutural. O discurso sobre a leitura precisa ser mudado, e o professor e o escritor precisam ser mais valorizados do que o artista e o influenciador. A escola deve instituir a educação midiática e digital para que os alunos compreendam o que realmente tem valor. É preciso uma lei que determine que as escolas tenham essa educação, junto com oficinas de leitura, pois a formação do sujeito crítico, capaz de construir conhecimento com autonomia e discernimento, só se consegue se for trabalhado desde pequeno. Essa determinação legal é fundamental porque os pais hoje, atarefados, não conseguem plantar um horário para ler com os filhos e apresentam um desconhecimento total sobre o letramento digital.

A Abrelivros tem defendido políticas estruturantes para fortalecer a leitura e o livro no país. Na sua visão, o que ainda falta para que a leitura seja tratada como um eixo estratégico do desenvolvimento nacional?

O que falta, de fato, é a valorização da leitura como parte fundamental da formação crítica dos indivíduos. Não teremos sucesso se não perseguirmos esse discurso. É necessário que essa valorização seja determinada por uma lei, assim como precisamos de uma lei para a educação midiática, visando mudar a mentalidade das pessoas sobre a importância da leitura. Precisamos desse momento, de uma determinação legal, para elevar o nível de discussão do nosso país sobre temas principais, como as questões sociais, políticas e ambientais, e não deixar isso de lado para conteúdos superficiais.

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