“Para além da produção artística, Brasil precisa desenvolver criatividade na solução de problemas científicos e sociais”

O último resultado do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) apontou que mais da metade (54%) dos adolescentes brasileiros, com 15 anos ou mais, não têm pensamento criativo e soluções originais. O país ficou na 49ª posição entre 64 nações, num ranking liderado por Singapura, Coreia do Sul, Canadá e Austrália. O baixo desempenho acompanha os demais resultados que o Brasil costuma apresentar na mais importante avaliação sobre aprendizagem no mundo. Mas chama a atenção por contradizer a autoimagem que os brasileiros fazem de si, de um povo criativo por natureza. Não é o caso. Primeiro, como afirma a entrevistada do mês Patrícia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, porque a criatividade não é um dom. Requer estímulo de um sistema educacional que rompa a tradição de ensino pela repetição, invista na profissão docente, no aumento de horas de aula e na transversalidade no exercício da criatividade. Foi o que ocorreu nos países mais bem colocados. Nenhum criou aula especial de criatividade. Em segundo lugar, lembra a especialista que já coordenou programas de educação e saúde pelo governo do estado americano de Massachusetts, o pensamento criativo não é exclusivo do mundo artístico e cultural, motivo de orgulho nacional. Vai além e é medido também pela capacidade de se resolver problemas científicos e sociais. “Há muito o que podemos desenvolver para que o pensamento criativo não fique só restrito à produção artística”, defende. Ou que a criatividade fique associada a determinados grupos socioeconômicos, de raça ou gênero. Em todos os países, as meninas tiveram melhor desempenho que os meninos.

O que explica esse desempenho tão fraco no Pisa?
Temos os resultados do Pisa em outras frentes, como matemática, leitura e escrita, nos quais o Brasil também não tem apresentado um desempenho satisfatório. O pensamento criativo está associado aos desafios mais amplos de ensino e aprendizagem dos estudantes brasileiros.

Mozart começou a compor aos 5 anos de idade, talvez o exemplo mais conhecido para justificar a ideia, forte no imaginário, de que o talento é precoce e inato. A criatividade é um dom?
Muito frequentemente as pessoas pensam que criatividade é um dom e a associam a artistas que criam ou a gênios, que inventam algo muito disruptivo. É uma ideia presente inclusive em outras áreas como a matemática. Um dos maiores desserviços à aprendizagem de matemática é acreditar que algumas pessoas nascem com um dom e outras não.

Em que sentido?
Muitas crianças crescem achando que não podem aprender matemática. Há muitos estudos sobre o efeito da mentalidade, da crença, sobre a inteligência, no fato de alguém acreditar que é muito bom ou muito mau em matemática, ou em criatividade. Essa mentalidade te torna menos aberto para o aprendizado e menos resiliente para frustrações, comparado a outra forma de mentalidade, que é a de crescimento, de estímulos e de que, se tiver esforço, pode sim. Ora, para que o pensamento criativo seja desenvolvido os estudantes precisam de estímulos.

Há diferentes tipos de inteligência. O mesmo pode-se dizer em relação à criatividade? De que maneira o pensamento criativo é importante para a educação e a formação dos indivíduos?
Sim, não é monocórdico. A avaliação do Pisa olha o pensamento criativo em três dimensões: na expressão escrita, na expressão visual e na capacidade de resolução de problemas sociais e científicos. Ele é algo hoje fundamental, transversal aos componentes curriculares e transversal na nossa vida em sociedade. O mundo exige cada vez mais essa capacidade de gerar soluções para problemas complexos, do dia a dia, das comunidades, países, territórios onde vivemos, do mundo do trabalho, da economia e também em relação ao avanço da tecnologia, da inteligência artificial, todas estas transformações exigem cada vez mais o pensamento criativo. Não é preciso criar uma aula especial de criatividade.

Como a escola pode desenvolver a criatividade dos alunos?
Primeiro é muito importante o investimento na formação dos professores e nos recursos pedagógicos, nas condições de trabalho, para que eles possam desenvolver, ao longo das aulas, atividades e projetos que estimulem o pensamento criativo nos alunos. Passa-se muito tempo só repetindo, copiando tarefas. Estratégia de ensino faz muita diferença. Tanto que alguns sistemas educacionais na China, que tem alto desempenho em matemática no Pisa, não tiveram o mesmo nível de desempenho no pensamento criativo. Porque são metodologias muito baseadas em memorização, repetição, de pouca exploração de se chegar por diferentes formas a diferentes resultados.

Que outros fatores influenciam?
Há outros desafios, de questões estruturantes, como o número de horas que os estudantes tem na escola, porque é um limite de tempo inclusive para os professores poderem desenvolver projetos mais profundos, com mais complexidade. A média nos países da OCDE é de sete horas, e em grande parte no Brasil é de quatro a cinco horas diárias. Além disso, os professores brasileiros, sobretudo nos anos finais do fundamental, dão aula em mais de uma escola. Em algumas redes, há professores que têm 400, 500 alunos.

Até que ponto a família conta no estímulo à criatividade?
Sim, conta, mas a escola como bem público vem para reduzir as desigualdades. E precisamos fazer um alerta porque também há desigualdade por conta de gênero e nível socioeconômico nas escolas. Achados mostram como estereótipos também se perpetuam quando esses alunos vão para a escola. Os estímulos dados a meninos e meninas são os mesmos? Os alunos mais pobres dentro da mesma escola recebem o mesmo efeito das expectativas dos professores em relação aos demais alunos? Temos pesquisa sobre o efeito das crenças tanto dos professores quanto dos estudantes no desdobramento da aprendizagem seja por questões de nível socioeconômico, raça e cor, gênero.

Um dado interessante da pesquisa do Pisa é que, em nenhum país, os meninos superaram as meninas em pensamento criativo. Por quê?
É um dado para a reflexão, de que forma a diferença vem das crenças, e dos vieses nas diferentes formas de estímulo para meninas e meninos. Porque, por outro lado, em matemática, vemos o viés contrário, meninos tendo melhor desempenho. Não é porque as meninas nascem mais criativas. Isso nos convoca a pensar como a socialização das meninas talvez permita que elas tenham mais abertura a dialogar, a passar por quadros de incerteza, enquanto os meninos recebem a expectativa de terem respostas prontas. De onde vem isso? Se não há enfrentamento de vieses, eles vão criando expectativas e crenças em professores e estudantes.

A pesquisa do Pisa contradiz a autoimagem de um país que se vê como criativo, dono de um jeitinho brasileiro para resolver situações sociais?
Quando saíram os resultados, vi muita repercussão de pessoas surpresas, menos por causa do jeitinho, mas pela autoimagem da criatividade artística e cultural do Brasil. “Poxa, se temos uma produção artística e cultural tão intensa, como não [somos criativos]?”. Nada disso invalida [a pesquisa]. Há muito o que podemos desenvolver para que o pensamento criativo não fique só restrito à produção artística. Mas esteja também na solução de problemas sociais, científicos, comunitários, para além de um único setor. Não é automático. Não estamos falando de um dom nem de um segmento particular, de estudantes de 15 anos que já atuam como artistas, mas de estudantes de 15 anos em geral, e como estamos os preparando enquanto país.