Os Rankings e o Pensamento Crítico

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A Revista Veja publicou em suas versões São Paulo, Rio e Minas Gerais um ranking das escolas locais de ensino básico (fundamental e médio) que, de modo não totalmente aceito pelos envolvidos, provoca até hoje comentários os mais diversos.  
 
Gostando ou não, ninguém fica indiferente às listagens que pretendem ordenar coisas, empresas ou pessoas. Os números mais vendidos de vários tipos de publicações são aqueles que divulgam rankings, sejam eles das 100 melhores companhias de Internet, dos 10 mais ocupados executivos do mundo ou dos 20 homens mais elegantes do planeta. É quase infinita a gama de classificações que se podem produzir, e estas se reproduzem em velocidade crescente. 
 
Isso reflete duas coisas: primeiro, a crescente obsessão por medir as coisas, por classificá-las em alguma ordem de grandeza, por quantificá-las, ainda que os valores usados para tais quantificações sejam paradoxalmente qualitativos. Há um implícito desejo de se situar pessoalmente neste mundo onde, cada vez mais, ao sentir-se “mais um”, busca-se os quinze minutos de fama. Assim, há um ranking paralelo, onde a própria vida é comparada com a daqueles avaliados na classificação. Não é incomum ouvir expressões “Mas se eu fizer uma plástica, fico igual a ela” ou “Nem se ganhasse na loteria duzentas vezes, teria este patrimônio”…  
 
Segundo, num mundo onde o acesso à informação é cada vez mais fácil, a dificuldade está não mais em obter o conhecimento, mas em discernir, dentro desta enorme gama de notícias e opiniões, o que é relevante para a realidade de cada um. Assim, os rankings são como um atalho: eles resumem, em uma tabela ou lista, uma série de informações que facilitam a vida de quem os consulta, pois um outro se incumbiu do trabalho de pesquisa, avaliação e compilação de dados para formar a classificação. Há uma confiança implícita neste indivíduo, ou na companhia que ele representa, de que houve isenção de viés nos critérios utilizados para a classificação, com seus vencedores e perdedores. Sim, pois se no início o ranking não é um julgamento, uma vez pronto e divulgado, passa a sê-lo. O centésimo lugar pode ainda ser bom, mas não é tão bom quanto o primeiro… e muitas vezes a diferença entre eles é sutil. E o leitor compra esta informação já digerida e processada. E com base nisso, toma suas decisões ou forma suas opiniões. 
 
A já famosa lista das 50 melhores escolas da cidade já surtiu alguns efeitos que vão desde estabelecer a dúvida entre os pais ou fazer com que se reforce a decisão tomada antes dela. Embora estas listas em geral sejam feitas para registrar o “status” de alguma coisa em algum momento, é na repetição delas que se vai formando um juízo de valor mais duradouro. Na já célebre relação dos melhores MBAs publicada anualmente pela Business Week onde se consagram os “top five” ou os “ top ten” de acordo com o interesse da Instituição ranqueada, o importante é ser citado. Cabe aos candidatos elegerem o curso de sua preferência levando em conta fatores como dificuldade de acesso, preço, efeito sobre seu currículo futuro, etc…   
 
O importante é não engolir sem crítica uma informação preparada por outros. Há que processá-la individualmente, filtrá-la e avaliá-la quanto à origens, aos critérios e as intenções. Só porque alguém se deu ao trabalho de elaborar um ranking a respeito de um determinado assunto, só isto não lhe dá credibilidade. 
 
Um critério adicional às listas de Veja, seria distinguir dentre os listados aquelas escolas que tratam a educação com seriedade e adotam livros didáticos de qualidade. Nesta análise vamos concluir que salvo uma ou outra exceção, todas as escolas ditas de “alto padrão” trabalham segundo uma linha pedagógica própria, buscando no mercado os mais adequados livros de texto ao seu projeto educacional, evitando desta forma a improvisação das apostilas que reúnem textos mal costurados e sem unidade. 
 
Os rankings são úteis, é claro, mas não são sagrados: devem ser uma ferramenta adicional de análise, não a única. Afinal, nessa maré de informações que nos atinge diariamente, o maior valor não está naquele que sabe repetir bem as informações, mas em quem sabe selecionar o que é importante, criticamente; e assim acresce seus valores e idéias aos fatos, dando então sua contribuição criativa. Como pergunta-se Ítalo Calvino “quem somos nós, senão uma combinatória de experiências e informações, de leituras e de imaginação?” 
 
 

Artigo escrito com a colaboração de Daniela Barone Soares formada em
Economia pela Universidade Estadual de Campinas e
Mestre em Negócios, por Harvard Business School.

 
 
Reproducão autorizada desde que citada a fonte