A Abrelivros em Pauta deste mês conversa com Ana Lígia Scachetti, CEO da Associação Nova Escola, organização que produz conteúdo e formação para educadores da rede pública. Um levantamento da Nova Escola, realizado com mais de 1.200 docentes, mostra que o uso de inteligência artificial passou de 1 em cada 4 professores, em 2023, para 4 em cada 5 atualmente, e que a percepção sobre a tecnologia migrou da economia de tempo para a geração de ideias mais criativas e a qualificação do planejamento pedagógico. Na entrevista, Ana Lígia aborda o que os dados revelam sobre a adoção da IA nas escolas, os desafios de formação diante das novas diretrizes do CNE e do MEC, como preservar a autonomia e a autoria docente, o desenvolvimento de competências como escrita e resolução de problemas e o futuro da relação entre professor, aluno, livro e recursos digitais.
O levantamento de Nova Escola mostra que o uso de IA pelos professores passou de 1 em cada 4, em 2023, para 4 em cada 5 atualmente. O que essa rápida disseminação revela sobre a transformação da prática docente e quais são os principais desafios que as escolas precisam enfrentar neste momento?
Essa evolução rápida e significativa revela que os educadores estão abertos a inovações e já incorporaram a tecnologia ao cotidiano profissional. Um dado que chama a atenção é qualitativo: a percepção deles sobre a inteligência artificial migrou da busca por “economia de tempo” para a “geração de ideias mais criativas” e a qualificação do planejamento pedagógico. Hoje, a inteligência artificial (IA) já apoia tomadas de decisão, ajuda a diversificar estratégias e a adaptar as aulas para trabalhar com turmas heterogêneas.
Ao mesmo tempo, o uso da IA pelos educadores acompanha o uso dos estudantes: 82% dos professores acreditam que os alunos também usam IA em suas produções. Ou seja, estamos diante de uma transformação que inclui o ensino e a aprendizagem. O grande desafio das escolas é colaborar para que todos consigam ir além de delegar tarefas à IA e refletir sobre as oportunidades que ela oferece, ajustando as ferramentas à realidade da sala de aula, à idade dos alunos e aos currículos locais.
Como garantir que essas ferramentas sejam utilizadas como apoio ao trabalho pedagógico, e não como substitutas da curadoria e da experiência do professor?
Autonomia, autoria e centralidade docente são pilares inegociáveis. Nenhum assistente digital pode substituir a humanidade, a sensibilidade e o conhecimento do educador. Para assegurar que a IA atue como apoio ao planejamento, temos de fortalecer o docente como mediador, curador e crítico. É ele quem deve formular os comandos, orientar a ferramenta, delimitar o que se busca e, sobretudo, avaliar a consistência das propostas, checar as fontes e ajustar as atividades à realidade da turma.
A Associação Nova Escola demonstra na prática que soluções responsáveis exigem avaliação pedagógica humana contínua sobre os conteúdos gerados e alinhamento rigoroso à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), garantindo que a tecnologia sirva para potencializar o repertório docente sem jamais comprometer sua autoria. Temos uma ferramenta gratuita de IA para educadores feita de professores e está ancorada na experiência e na história da marca, que já elaborou mais de 6 mil planos de aula assinados por professores de escolas públicas.
Continuamente, os planos de aula gerados pela ferramenta são submetidos à avaliação pedagógica de especialistas humanos nos componentes curriculares, a fim de analisar se as rubricas estão consistentes, encontrar fragilidades e divergências e, é claro, melhorar os prompts. Cerca de 97% dos usuários dizem ter economizado tempo com o uso da ferramenta, e 94% afirmam que o plano gerado atendeu às expectativas para aplicação em sala de aula. Também avisamos os professores de que o conteúdo está sendo gerado por IA, garantindo transparência e lembrando que a decisão final é deles.
Quase metade dos professores ouvidos se sente pouco ou nada informada sobre a legislação brasileira de IA. Diante das novas discussões do CNE e das iniciativas do MEC, o que precisa avançar na formação e na orientação dos docentes para que a regulamentação se transforme em segurança e boas práticas dentro das escolas?
A distância entre a legislação sobre o uso da IA na educação e a vida real nas escolas, como em outros temas que envolvem ensino e aprendizagem, precisa ser reduzida com investimentos consistentes e perenes em formação inicial e continuada. O “Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de IA na Educação”, do MEC, é um documento que orienta o “porquê e para quê”, e o parecer normativo do Conselho Nacional de Educação (CNE) estabelece “o que pode e o que não pode” nas escolas.
Ainda assim, para que essas diretrizes se convertam em proteção concreta, as redes de ensino precisam formar os professores sobre segurança, privacidade de dados, uso dos sistemas, prevenção de vieses e proteção dos direitos autorais. Precisam também manter tempos de estudo e troca de práticas entre eles, ajudando-os a reconhecer erros factuais, prevenir o uso mecânico das ferramentas e garantir que qualquer recurso esteja sempre relacionado a objetivos pedagógicos explícitos e sob supervisão humana contínua.
O levantamento aponta uma percepção ambivalente dos professores: a IA pode contribuir para pesquisa, avaliação de fontes e criatividade, mas também está associada a possíveis perdas em habilidades como escrita e resolução de problemas. Como preservar essas competências fundamentais?
Produzir textos e resolver problemas são competências essenciais para o desenvolvimento estudantil e precisam estar sempre sob combinados e regras transparentes na comunidade escolar. Proibir o acesso dos alunos à IA e à internet não é um caminho plausível: eles já usam a tecnologia, ainda que só fora da escola. A questão é definir o uso pedagógico, ou seja, como potencializá-lo a serviço da aprendizagem.
A chegada do Google transformou a nossa forma de pesquisa, deixando as enciclopédias para trás, e a sociedade aprendeu o que é o bom uso dessa e de outras ferramentas de busca na escola. Agora temos de aprender a usar a IA de forma inteligente, sem nos limitarmos à reprodução do conteúdo gerado, ao “copiar e colar” de respostas dos robôs. Isso vai levar tempo, mas é fato que a sala de aula deve continuar sendo o espaço para debater, questionar, argumentar e resolver problemas. A IA pode gerar conteúdos, apontar referências e apresentar resoluções, mas o protagonismo humano não pode ser anulado.
Considerando que os professores já estão incorporando a IA às suas práticas, como você imagina o futuro da relação entre professor, aluno, livro e recursos digitais?
Na Nova Escola, defendemos que o professor tem autonomia e autoria em sala de aula e que isso não pode ser substituído pela tecnologia. Mas o uso dela pode enriquecer, e já está enriquecendo, as experiências de ensino e aprendizagem. O livro didático e os outros materiais continuam indispensáveis como referências curriculares, e a IA e outros recursos digitais podem ser usados para ampliar o repertório de propostas e de atividades acessíveis.
Pensando no futuro, uma das grandes contribuições da IA pode ser desonerar o professor do tempo excessivo investido na elaboração mecânica de rotinas e materiais e na busca por conteúdos em fontes diversas, liberando-o para olhar para cada estudante, mediar conflitos, dialogar, desenvolver o pensamento crítico da turma e formar cidadãos conscientes.