O Censo Escolar e os avanços da educação

Manchetes na imprensa sobre os últimos dados do Censo Escolar 2025 destacaram a redução do número de matrículas nas redes de ensino pública e privada – o que foi associado à transição demográfica – porém outros assuntos tão importantes quanto, e positivos, merecem atenção por representarem avanços na educação brasileira.

Entre eles estão a redução da distorção idade-série, a maior conectividade e a expansão do tempo integral nas escolas. Os dois primeiros temas guardam relação direta com o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), que tem entre seus objetivos oferecer material de ensino de qualidade que possa estimular os alunos a estudar e a permanecer na escola, o que inclui aproveitar as possibilidades dos novos recursos digitais.

A queda na distorção idade-série, prioridade do Ministério da Educação (MEC) há algum tempo, indica que os alunos estão progredindo em sua trajetória. É boa notícia num cenário em que a evasão escolar – para a qual contribui a defasagem – ainda representa um problema que tira o sono das famílias, de professores e de gestores da educação.
O investimento em materiais de qualidade ajuda o aluno a se manter interessado, especialmente quando acompanhado de recursos digitais, que atraem as novas gerações.

Nesse sentido, é muito positiva a informação do Censo Escolar 2025 sobre o crescimento da conectividade, que subiu de 82,8% em 2021 para 94,5% em 2025. A melhora da infraestrutura para as escolas é crucial para os novos programas, que exigem o enriquecimento do material com recursos digitais.

O conteúdo didático não é físico ou digital, são partes complementares do mesmo material. E no Brasil ainda há regiões que não estão conectadas ou têm uma conexão ruim com a internet.

Outro motivo de celebração é a expansão significativa do ensino em tempo integral, em vários estados, o que propicia avanços na qualidade da educação. Não se trata apenas de mais tempo em sala de aula, e sim de mais dedicação do aluno. A proposta reforça a importância de políticas públicas estruturantes para garantir o acesso a conteúdo de qualidade e reduzir desigualdades.

Vale mencionar ainda que o ensino técnico registrou um crescimento grande no número de matrículas. São estudantes que buscam carreiras no mundo técnico visando a diversificação de habilidades e a maior empregabilidade.

Sobre o dado mais destacado do Censo Escolar, que registrou cerca de 46 milhões de matrículas em 178,8 mil escolas, com queda de 2,1% na rede pública e 2,9% na privada, governo e analistas apontam o declínio da taxa de natalidade como um dos fatores para a redução de matrículas.

A transição demográfica está entre as explicações plausíveis, mas o fenômeno da evasão escolar continua a assombrar a nossa educação, o que precisa ser mais aprofundado, especialmente no Ensino Médio, historicamente a etapa mais afetada.
No levantamento, o estado de São Paulo, isoladamente, apresentou uma queda atípica de 17% nas matrículas do Ensino Médio, que representa 250 mil estudantes a menos em números absolutos.

Além do Censo Escolar 2025, tivemos, mais recentemente, dados positivos vindos do Indicador Criança Alfabetizada (ICA), no qual o Brasil registrou 66% das crianças alfabetizadas ao fim do 2º ano do Ensino Fundamental. São dois pontos percentuais acima da meta prevista para 2025, estabelecida pelo Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA).

A consolidação de pactos nacionais e programas estruturantes revela que o caminho para uma educação de excelência não aceita atalhos. Mais do que reagir às mudanças demográficas, o Brasil demonstra que a continuidade das políticas públicas é o alicerce necessário para transformar desafios conjunturais em avanços permanentes na aprendizagem de cada estudante.

* Ângelo Xavier é presidente da Abrelivros – Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais