“Entender matemática não pode ser privilégio de poucos”

Professora da rede pública, pesquisadora da USP e ex-secretária de Educação Básica do MEC, Katia Smole reúne uma trajetória marcada pela atuação em diferentes frentes da educação brasileira. Nesta entrevista à Abrelivros em Pauta, ela fala sobre os desafios do ensino de matemática no país, a importância da formação docente, o papel estratégico do PNLD e os caminhos para consolidar políticas públicas voltadas à aprendizagem matemática.

Você foi professora de rede pública, pesquisadora na USP e Secretária de Educação Básica do MEC. O que cada uma dessas experiências te ensinou sobre o que realmente funciona no ensino de matemática no Brasil?

Minha trajetória como professora me ensinou o valor que tem um professor de matemática acreditar que todos são capazes de aprender. Como dei aula para turmas de Ensino Médio, tive muitos estudantes que não sabiam matemática, tinham medo. Foi sendo professora deles que comecei a pensar como equilibrar a necessidade de ensinar os temas da série em que estavam e, ao mesmo tempo, retomar conceitos não aprendidos por eles, ajudá-los a ter autoconfiança.

Lecionei em cursos de magistério e isso me deu outra aprendizagem importante: cada futura professora precisava saber matemática, entender como o estudante aprende e em que fase deveria aprender o que.

Quando passei a trabalhar no Centro de Aperfeiçoamento do Ensino da Matemática (CAEM), pude ampliar meu conhecimento sobre formação continuada de professores, políticas públicas, currículos, materiais didáticos e aprendizagem. No Ministério da Educação (MEC), como secretária da Educação Básica, tive mais clareza da importância das políticas públicas e da integração entre os diferentes segmentos da Educação Básica. Também entendi o quanto o MEC não consegue atuar sem o pacto interfederativo: o regime de colaboração com os estados e municípios é fundamental.

Foi durante esse período também que pude entender o imenso valor do PNLD, talvez o único programa que, de fato, chega a todas as escolas e aos rincões do Brasil. É um exemplo vivo da importância de continuidade e aprimoramento em políticas educacionais.

Os dados do PISA e do Saeb mostram dificuldades e a importância da aprendizagem em matemática. Na sua avaliação, quais são os desafios e o que a Política Nacional de Matemática propõe para enfrentá-las?

Os dados do PISA e do Saeb mostram que o Brasil enfrenta desafios profundos em matemática. O primeiro é de aprendizagem, uma vez que muitos estudantes avançam na escolarização sem dominar conhecimentos essenciais, o que compromete não apenas o desempenho na própria matemática, mas também outras aprendizagens e sua participação plena na vida social. Esse primeiro desafio faz com que tenhamos que seguir estruturando políticas de recomposição de aprendizagens. O segundo desafio é pedagógico, uma vez que ainda predomina, em muitas salas de aula, um ensino centrado no treino mecânico, na memorização de regras e na repetição de procedimentos, com pouco espaço para raciocínio, argumentação, resolução de problemas e construção de sentido.

No Brasil, o debate público sobre a educação elegeu um protagonista claro: a capacidade de ler e escrever em língua materna. Compreensível, visto que o analfabetismo funcional em português é uma barreira evidente para o exercício da cidadania. No entanto, isso trouxe duas consequências, uma foi exatamente a ausência de uma política com foco em matemática, ou mais clareza de como a aprendizagem da matemática deveria estar incluída nas ações de alfabetização – algo que o Compromisso Nacional Toda Matemática visa corrigir. A outra consequência é que estimulamos pouco o pensamento matemático na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, apesar de as habilidades matemáticas iniciais serem preditoras importantes do desempenho futuro em matemática, leitura e linguagem.

Quando a criança aprende a lidar com noções de quantidade, espaço, ordem, comparação e medida, ela amplia sua capacidade de organizar o pensamento e compreender o mundo. É importante que isso seja profundamente revisto. Outro desafio central é a formação inicial de professores. Saber matemática e saber ensinar matemática são coisas diferentes, mas que precisam estar interligadas.

Muitos estudantes, especialmente adolescentes e jovens, dizem não gostar de matemática, sentem medo ou ansiedade diante das avaliações, não se veem capazes de aprender ou não enxergam utilidade no que estudam. Isso tem relação com o mito, naturalizado por décadas, de que matemática é difícil, inacessível ou “para poucos”. Essa crença produz baixas expectativas e penaliza, sobretudo, os estudantes mais vulneráveis.

O Compromisso Nacional Toda Matemática (CNTM), lançado pelo MEC, é uma resposta importante, mas também tem seus desafios. O primeiro é garantir continuidade, porque, uma política seja ela qual for, precisa ser perene, atravessar gestões, ter recursos e não se limitar a uma ação pontual. O segundo é assegurar coerência entre currículo, avaliação, materiais didáticos e formação de professores, para que todos esses elementos apontem na mesma direção. O terceiro é apoiar efetivamente as redes na implementação, respeitando suas diferentes capacidades técnicas, desigualdades regionais e condições reais de trabalho nas escolas. O quarto é acompanhar resultados sem reduzir a política a metas numéricas: é preciso medir avanços, mas também observar se a experiência de aprendizagem está mudando em sala de aula. Creio que um apoio importante para o CNTM foi a inclusão de metas específicas para matemática no novo Plano Nacional de Educação 2026-2036. Entender matemática não pode ser privilégio de poucos. É um direito de todos os estudantes.

Para muitos professores da rede pública, o livro didático é o principal recurso pedagógico disponível. Como um material de qualidade, e bem usado, pode mudar o resultado do aluno em matemática?

Para muitos professores da rede pública, o livro didático não é apenas o principal recurso pedagógico disponível; em muitos casos, é o principal organizador do trabalho em sala de aula. Por isso, um material de qualidade, bem escolhido e bem usado, pode fazer muita diferença no resultado dos estudantes em matemática. Bons materiais não se limitam a uma sequência de exercícios. Eles organizam situações em que os alunos precisam raciocinar, argumentar, resolver problemas, desenvolver fluência e flexibilidade de pensamento matemático, com compreensão e sentido para os conceitos matemáticos. Outro ponto fundamental é o uso pedagógico do erro. Em matemática, o erro não pode ser tratado apenas como falha. Quando o material ajuda o professor a analisar os erros dos estudantes, discutir diferentes estratégias e compreender os caminhos de pensamento da turma, ele transforma o erro em motor de aprendizagem.

O PNLD tem enorme importância para o país e precisa estar cada vez mais articulado aos pressupostos do Compromisso Nacional Toda Matemática. Isso significa que as obras devem apoiar uma matemática mais voltada à resolução de problemas, ao raciocínio, à argumentação, à construção de sentido e à recomposição das aprendizagens — especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental, etapa em que muitos estudantes acumulam lacunas importantes e passam a se afastar da matemática.

Não basta selecionar bons materiais, é preciso garantir que todos os estudantes recebam, usem e tenham continuidade no trabalho com esses recursos. A qualidade da obra, a escolha feita pelas redes e escolas, a formação dos professores para o uso do material e a chegada efetiva do livro ao aluno precisam ser vistas como partes de uma mesma política pública para que sua relevância se traduza em aprendizagem.

O que você espera ver acontecer no ensino de matemática no Brasil nos próximos anos, e qual é a mensagem que você deixa para professores, gestores e todos que trabalham com livros e materiais educativos?

Demos, recentemente, passos importantíssimos colocando a matemática no PNE e com o lançamento do Toda Matemática. Mas é preciso fazer muito mais e logo. Espero que alcancemos a consolidação de uma cultura de implementação contínua e firme do ensino de matemática. Países que melhoraram nessa área revolucionaram o ensino combinando continuidade das políticas de Estado, consistência das metodologias de ensino e investimentos de longo prazo.

Precisamos investir em Coerência Pedagógica Sistêmica (CPS) – conceito desenvolvido pelo Instituto Reúna que concretiza nossa premissa sobre a importância de um sistema que tem o currículo no centro e, ao redor dele, o material didático, a avaliação e a formação docente.

Todos temos de acreditar firmemente no potencial de aprendizagem de cada criança, adolescente e jovem, combatendo as baixas expectativas. Matemática tem que ser acessível a todos: isso não pode ser tratado somente como uma meta. É um imperativo de justiça social e cidadania.