“A leitura é direito dos sujeitos e dever dos Estados”

A Abrelivros em Pauta abre o ano de 2026 trazendo uma entrevista com Eliana Yunes, especialista referência no campo da leitura, da formação de leitores e das políticas públicas do livro.

Professora universitária no Brasil entre 1970 e 2017 e professora visitante no exterior, Eliana tem formação em Filosofia e Letras, doutorados em Linguística e Literatura, e trajetória marcada pela atuação como pesquisadora, crítica e intelectual pública. É autora de importantes publicações nas áreas de interpretação, teorias da leitura e formação de leitores, com estudos inter e transdisciplinares que dialogam com Hermenêutica, Educação, Artes, Teologia e Políticas Públicas.

Ao longo de sua carreira, foi orientadora na UFRJ, na UERJ e na PUC-Rio, onde também dirigiu o Instituto Interdisciplinar de Leitura. Atuou como organizadora do Proler, da Fundação Biblioteca Nacional, foi cocriadora da Cátedra Unesco de Leitura no Brasil e da RELER (Rede de Estudos Avançados em Leitura), além de ter participado como conselheira da Política Nacional de Leitura.

Nesta edição, Eliana reflete sobre a experiência da leitura e sobre como o ato de ler interfere positivamente na vida das pessoas, seja na condição de estudantes, seja na formação mais ampla de cidadãs e cidadãos de uma sociedade que se escreve e se lê. A entrevista dialoga com temas centrais de sua obra, como o livro A experiência da leitura, coorganizado por ela e por Maria Luiza Oswald, e reafirma a leitura como base da educação, da vida democrática e da redução das desigualdades.

A senhora costuma defender o livro como um direito. O que significa, na prática, reconhecer a leitura como um direito fundamental na educação pública brasileira?

A educação é o processo pelo qual a potência de cada ser humano é provocada e potencializada pela cultura, isto é, pelo acervo de saberes e conhecimentos partilhados por um povo, por uma coletividade. Esta participação enriquece a vida comum, valoriza e melhora a forma de vida de todos e de cada um, tornando a capacidade criativa uma força de qualificação e bem-estar em sua comunidade. Para sentir-se inserido como cidadão, é necessário interpretar os jogos de linguagem que presidem os relacionamentos; a habilidade que preside todo o processo é a da leitura, do mundo e das letras num primeiro momento e depois, das letras e do mundo. É verdade que a grafia alfabética não é a única, mas entre as múltiplas linguagens ela hoje rege a interpretação do que acontece e do que lhe acontece a cada um, desde a oralidade expressa em registros diversos até a digitalidade. Ler é condição para sobreviver em qualquer ambiente, e de inserção social justa.

Na opinião da senhora, qual é o papel do PNLD na garantia do acesso democrático à leitura, especialmente para crianças e jovens que dependem da escola como principal espaço de contato com o livro?

A desigualdade econômica e social entre diferentes camadas da população arrasta qualquer povo à indigência não apenas material, com índices graves de pobreza, mas também inviabiliza a dinamização cognitiva capaz de gerar novos horizontes à vida no país. Então, os estados democráticos que priorizam a riqueza humana frente ao acúmulo de fortunas imorais, na maioria das vezes oriundas de oportunismos corruptos, precisam mobilizar-se e oferecer oportunidades mais equânimes, sobretudo para o acesso às condições básicas de direito: saúde, justiça, segurança, que dependem da qualidade da educação; esta, por sua vez, depende da leitura – do livro, das artes, das manifestações populares e dos sistemas de governança política. A porta de entrada mais generosa, seguramente é a da literatura.

Como o livro literário contribui para a formação cidadã, a ampliação de repertórios culturais e o desenvolvimento da sensibilidade e do pensamento crítico dos estudantes?

Nada há na vida humana, disse José Luís Borges, que não esteja de mil e uma formas, relatada sob a forma expansiva da literatura, que sugere e alarga a compreensão da realidade através do imaginário, com concisão mobilizadora dos afetos e da inteligência. Por isso, Antônio Cândido insistia no direito à literatura com sua dupla face artística e social, capaz de provocar insights luminosos sobre estar no mundo entre outros, abrindo a subjetividade à alteridade. A falta de convívio com narrativas, com poesia, com imagens, estreita a visão que poderia fazer de cada sujeito, cidadão do mundo e gente em sua casa. A literatura obriga o leitor a levantar os olhos da página, no dizer de R Barthes, para enfim, entender a terra dos homens. No cotidiano, raras vezes enxergamos o que os olhos veem.

Na sua avaliação, de que forma políticas públicas contínuas de leitura impactam a redução das desigualdades educacionais e fortalecem o país?

Uma palavrinha chave está na pergunta: contínua. No Brasil, programas e projetos promissores para alcançar o fortalecimento de políticas de leitura, ainda que de gabinete, por mais honestas e razoáveis que sejam, foram abortados por razões mesquinhas ou ardilosas, para manter a população distante do exercício do pensamento – que leva à liberdade e à criatividade, à organização social participativa e eficiente para atender às realidades da vida ordinária. Acima tentei expor o impacto que nas vidas pessoais e da coletividade tem a leitura, como direito dos sujeitos e dever dos estados. A capacidade de pensar com as informações disponíveis, e buscar as que faltam, nasce da prática de ouvir e dialogar, ler e expressar diferenças para acordos inevitáveis na vida comum. Tornar-se pessoa, lembra Paul Ricoeur é poder nomear e nomear-se entre seus pares.