“A IA executa, o docente escolhe”

Na Abrelivros em Pauta deste mês, Braulio Takahashi fala sobre o avanço da inteligência artificial na educação e seus reflexos para o Brasil, as redes de ensino e o trabalho com livros e materiais didáticos. A partir de projeções da Grand View Research, ele analisa como a IA pode apoiar o enfrentamento da evasão e o trabalho docente, sem substituir o professor, e quais cuidados são necessários em conectividade, formação e proteção de dados para que o investimento se traduza em aprendizagem. Confira!

O senhor cita a pesquisa da Grand View Research, que prevê um crescimento do mercado de IA na Educação. Como isso pode ajudar a educação brasileira?

A Grand View Research projeta que o mercado global de IA na educação passe de US$ 8,3 bilhões em 2025 para US$ 57,2 bilhões em 2033, com crescimento anual de 25,9% entre 2026 e 2033.

No Brasil, a pesquisa TIC Educação, realizada anualmente pelo Cetic.br, permite identificar quatro motivos que explicam a adoção crescente da IA nas escolas. O primeiro é a maturidade e a disponibilidade das soluções de IA generativa, que passaram a oferecer aplicações práticas para pesquisa, produção de conteúdo, tutoria e apoio ao ensino. Em 2025, 53% dos gestores escolares já a utilizavam em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras e, em 2024, 37% dos alunos (70% no ensino médio) e 43% dos professores a empregavam em pesquisas e na preparação de conteúdos.

É nesse cenário que o investimento em tecnologia pode ter papel relevante diante dos desafios históricos da educação brasileira, como as desigualdades regionais, a infraestrutura insuficiente, as diferenças na formação docente e as defasagens de aprendizagem. Bem direcionado, ele pode ampliar o acesso ao conhecimento, personalizar a aprendizagem, apoiar o trabalho do professor e fortalecer a educação digital e midiática.

A expansão global do mercado é sustentada por personalização, análise de dados, automação, nuvem, ensino híbrido e requalificação, e o Brasil reúne motivos próprios para acompanhar esse movimento, com tecnologia mais madura, escolas mais conectadas, estudantes digitais e demanda por produtividade. Contudo, o potencial do investimento só se realiza se vier acompanhado de infraestrutura, diretrizes claras de uso e formação docente, sobretudo no Norte, no Nordeste e nas escolas rurais e municipais, onde as lacunas ainda são maiores.

Que contribuições a IA pode dar às redes de ensino?

A IA não é um fim em si, mas pode ajudar as redes de ensino a enfrentar desafios concretos que o país já identifica: a evasão, a personalização do ensino e a produtividade do trabalho escolar.

Segundo o Inep, entre os ingressantes de 2015 acompanhados até 2024, 65% desistem no EaD, contra 59% no presencial. Entre as contribuições da IA, está identificar cedo quem está em risco, cruzando sinais como faltas, infrequência e engajamento, antes que o vínculo com a escola ou o curso se rompa, e priorizar e personalizar a intervenção, classificando os estudantes por nível de risco e orientando planos de ação individuais. A IA indica quem está em risco, mas quem retém o estudante são orientadores, tutores e busca ativa.

Na personalização do ensino, a IA pode adaptar conteúdos, atividades e trilhas ao desempenho e ao ritmo de cada aluno, e dar feedback imediato, de modo que o estudante corrija o rumo na hora, sem esperar a avaliação. O cuidado é a mediação pedagógica: 70% dos alunos do ensino médio já usam IA generativa em pesquisas escolares, mas só 32% dizem ter conversado com professores sobre como usá-la.

Planejar, corrigir e produzir relatórios consomem tempo que poderia ir para o acompanhamento dos alunos. Entre as contribuições, está automatizar tarefas administrativas e de correção, um dos principais vetores de adoção apontados pela Grand View. O ganho só se converte em resultado se o tempo liberado for reinvestido em acolhimento e ação pedagógica, com diretrizes claras: apenas 22% das escolas têm um guia de uso de IA.

Qual o papel da IA em relação ao livro didático e ao trabalho do professor?

Livros e materiais didáticos, impressos ou digitais, em qualquer rede, seguem como referência do planejamento pedagógico. O documento orientador do MEC, Inteligência Artificial na Educação Básica, define a IA nesse campo como um recurso de apoio ao professor, que otimiza tempo e amplia possibilidades, sem substituir o julgamento pedagógico.

Entre os usos, estão adaptar o conteúdo ao nível e ao contexto da turma, coproduzir materiais complementares ao livro (textos, atividades, imagens, roteiros) e planos de aula, sempre a partir de objetivos definidos pelo próprio docente, e tornar os materiais acessíveis, com resumos, versões em vários idiomas, formatos como o Braille, simplificação de textos e descrição de imagens.

Quem define o objetivo e decide é o professor. A IA executa, o docente escolhe, e a responsabilidade final é sempre humana: a IA não checa o que produz e pode gerar informações falsas. O MEC recomenda que nenhum recurso de IA seja adotado em larga escala sem que professores o testem e emitam parecer, e que recursos sem evidência suficiente comecem como piloto, com métricas e possibilidade de reversão.

A IA pode ampliar o repertório e devolver tempo ao professor, mas o planejamento, a mediação e a avaliação seguem sendo do docente. Isso exige curadoria, formação e participação dos professores nas decisões, em escolas públicas e privadas.

Quais desafios existem para o uso da IA nas escolas de diferentes regiões do país?

O primeiro passo é reconhecer que a IA depende de condições de base que ainda são desiguais no país. Os desafios estão conectados, e as saídas também.

O país avançou, mas “ter internet” é diferente de ter conexão adequada e equipamentos. Mesmo assim, segundo a TIC Educação 2025, só 62% das escolas têm computador e internet para os alunos, com 38% no Norte e 48% no Nordeste, contra 88% no Sul. A IA já está na escola, mas sem mediação: 43% dos professores a usam na preparação de conteúdos, só 19% dos alunos conversaram com professores sobre como usá-la e 33% aprenderam a identificar erros e vieses (TIC Educação 2024).

Para superar, entre os caminhos estão: concluir a expansão da conectividade e acompanhá-la de dispositivos, porque internet sem equipamento não basta; letramento em IA também na formação inicial e participação dos professores nas decisões, como nos cursos do Ceará e no guia de Sergipe; tratar a LGPD e o ECA Digital como critérios inegociáveis, com cláusulas contratuais de coleta mínima de dados, proibição de uso comercial ou de treinamento de modelos sem consentimento e relatório de impacto à proteção de dados; e direcionar investimento para Norte, Nordeste, escolas rurais e redes municipais, combinando conectividade, dispositivos e formação.

A IA só chega de fato a todas as regiões se infraestrutura, formação, proteção de dados e equidade avançarem juntas, com diretrizes claras e acompanhamento por indicadores.