“A IA alcançará um nível muito alto de maturidade e penetração social e cultura”

Na edição deste mês da Abrelivros em Pauta, o argentino Daniel Benchimol compartilha sua visão sobre como o setor editorial deve se preparar para os impactos da revolução tecnológica da inteligência artificial. Autor de Modelos de negócios inovadores na indústria editorial latino-americana, ele é diretor da Proyecto451, agência que já apoiou mais de 350 editoras e organizações na América Latina e na Espanha em processos de transformação digital. Nesta entrevista, Benchimol destacou os investimentos prioritários para garantir produtividade e qualidade e falou ainda sobre os riscos de vieses e desalinhamentos dos modelos de IA, reforçando ainda a importância da transparência e da responsabilidade editorial neste novo cenário. Benchimol veio ao Brasil a convite da Câmara Brasileira do Livro (CBL) para participar do 4º Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos (EELDG).

Na sua palestra no Encontro, você destacou os “próximos 1.000 dias”. Quais são as três decisões de investimento que as editoras devem tomar para elevar a produtividade sem perder qualidade editorial?

A primeira seria investir em formação, tanto no sentido mais tradicional, para que haja uma equipe robusta e bem capacitada nas tarefas do processo de produção e comercialização de livros, quanto no campo da inovação, incluindo novos formatos, modelos de negócio, expansão para outras modalidades e, obviamente, tudo o que envolve inteligência artificial. Considero essencial o desenvolvimento de uma política interna clara sobre quais decisões serão tomadas em relação à IA, entendendo que essa tecnologia alcançará um nível muito alto de maturidade e penetração social e cultural.

A segunda recomendação seria investir em automatizações. Realizamos muitas tarefas repetitivas e manuais, e já existe uma ampla gama de ferramentas que permitem automatizar tarefas rotineiras, liberando o tempo da equipe para atividades em que podem gerar maior valor. Na minha visão, a maioria dos projetos editoriais ainda opera com muita ineficiência, e esse é um campo crucial de melhoria.

A terceira recomendação é rever o desequilíbrio que geralmente existe nos projetos editoriais entre o investimento em produção de conteúdos e o investimento em comunicação e marketing. A fase de comunicação será cada vez mais relevante. Isso envolve estruturar uma base de dados de leitores, criar comunidades, expandir o alcance para outros mercados e países e desenvolver estratégias digitais. A fase de comunicação será indispensável porque a inteligência artificial tende a democratizar a produção de conteúdos, tornando cada vez mais fácil produzir e consumir materiais satisfatórios. Nesse cenário, não basta apenas oferecer um conteúdo de alta qualidade; será necessário também ter recursos e capacidade potentes de comunicação para alcançar o leitor certo, no momento certo, de forma precisa.

Como o setor deve lidar com os vieses da IA generativa?

Existem duas grandes frentes. Por um lado, no nível setorial, gremial e até nacional ou regional, é preciso trabalhar em políticas públicas, junto com os governos, para que os modelos não repliquem os vieses atuais. Isso acontece porque, em sua maioria, são alimentados por conteúdos produzidos nos Estados Unidos, sob uma perspectiva filosófica, religiosa e cultural anglo-saxã. Por isso, é fundamental enriquecer esses modelos com nossas próprias culturas e diversidade, mostrando à IA que existem outras formas de ver o mundo. Muitos países já estão desenvolvendo suas próprias inteligências artificiais não para competir com empresas como o Google, mas para criar soluções com relevância educativa, cultural e social para a diversidade local e regional. Esse é um caminho: pensar o tema a partir de uma perspectiva de políticas de Estado, já que hoje a discussão é dominada pelas empresas privadas.

Por outro lado, há a dimensão de cada projeto editorial e de cada equipe, que precisa estar consciente de que os vieses existem e que a IA tende a reproduzi-los. Esse viés não é intencional, mas decorre do aprendizado realizado a partir dos conteúdos consumidos. Por isso, ao usar ferramentas de IA, precisamos ser conscientes e cuidar do tipo de perguntas que fazemos, para obter respostas menos enviesadas.

Que impactos prevê em receita, preços, descoberta e bibliodiversidade, e que proteção recomenda contra alucinações, deepfakes e o desalinhamento das ferramentas?

Alinhar a IA depende de regras públicas. Hoje, cada modelo vem “regulado” pelas próprias empresas (limites morais/éticos), que restringem temas sensíveis, o que interfere no trabalho editorial, inclusive em ficção. Uma alternativa técnica é adotar modelos abertos instalados localmente, ajustando guard-rails e especializações conforme a necessidade da casa. Ainda assim, falta um debate político consistente e transparente sobre como regular essas tecnologias.

Com deepfakes e alucinações tornando cada vez mais tênue a fronteira entre real e falso, são essenciais letramento crítico da sociedade, formação específica dos profissionais do livro e responsabilidade sobre o que se publica e distribui. Se um texto vira produto editorial, a responsabilidade é de quem o edita e assina, não dá para transferi-la à IA. O valor do editor cresce justamente aí: verificar, contextualizar e garantir qualidade e integridade do conteúdo.

Com a queda de custos e a aceleração de capacidades, quais tarefas (edição, tradução, marketing etc.) tendem a migrar para a IA e quais devem permanecer humanas por exigirem intencionalidade e experiência criativa?

O impacto em termos de receitas e preços é muito complexo de prever. A realidade é que a inteligência artificial vai ajudar a otimizar processos, reduzir custos de produção e comercialização, tornar mais eficiente a cadeia de valor e distribuição do livro. Com isso, teremos mais estatísticas, melhores análises e maior confiabilidade sobre distribuição ao mercado.

Essa eficiência poderia contribuir para uma economia mais saudável e, em última instância, para a redução dos preços dos livros. Os modelos de inteligência artificial estão se tornando mais sofisticados e mais baratos. Desde o lançamento do primeiro ChatGPT, em novembro de 2022, até agora, em 2025, houve uma queda exponencial no custo tanto de processar (ler) quanto de gerar conteúdos com IA.

E aqui surge uma questão: se hoje uma biblioteca que atende estudantes investe recursos para adquirir livros, até que ponto não passará a ser mais rentável adquirir licenças de inteligência artificial que ofereçam acesso a esse conhecimento de forma, muitas vezes, mais precisa e infinitamente mais barata? Esse será um grande desafio para o modelo econômico de produção e comercialização de livros, especialmente no campo da não ficção, onde o conhecimento tende a ser cada vez mais barato e acessível.

Como proteger direitos e preservar o valor percebido da obra quando o público muitas vezes não distingue o que é produzido por IA?

No mundo, praticamente não existem regulações específicas sobre inteligência artificial. A única região que se atreveu a estabelecer uma regulação foi a União Europeia, cuja lei já está em vigor e impacta diversos setores. No que diz respeito ao mundo editorial, entre outras coisas, a exigência central é a transparência.

Quando produzimos total ou parcialmente um conteúdo utilizando inteligência artificial, devemos ser transparentes diante dos leitores e compradores. Isso implica também em uma transparência interna nos projetos editoriais: se um autor entrega um conteúdo, é importante que seja claro se utilizou ou não IA; se um designer entrega um trabalho, também deve ser transparente sobre até que ponto fez uso dessas ferramentas. O mesmo vale para as editoras, que precisam estar conscientes desse processo.

No que diz respeito ao público final, a lei europeia exige que qualquer conteúdo comercializado ou distribuído traga a informação de que foi produzido com inteligência artificial. Eu tenho dúvidas se, mesmo dentro dessa normativa, muitas editoras de fato cumprem a regra, já que existe ainda uma percepção bastante negativa, tanto por parte do consumidor final quanto de profissionais da própria indústria, sobre as editoras que utilizam IA na produção de conteúdos.

No restante do mundo, incluindo Estados Unidos, China e, ainda mais, a América do Sul, não há regulação alguma. Assim, a transparência (ou não) passa a ser uma questão ética e moral de cada projeto editorial, de como se posiciona diante de seus leitores. Ao mesmo tempo, começam a surgir iniciativas em que o valor está justamente em destacar que um conteúdo foi produzido com IA; e também outras em sentido oposto, com selos que certificam conteúdos “produzidos por humanos”. Esse selo, já difundido em países como Estados Unidos e Inglaterra, pode ser adotado livremente e busca reforçar esse diferencial.

Minha preocupação principal é que estamos diante de uma transformação estrutural. O que está em desenvolvimento hoje é a infraestrutura para que a IA esteja presente em praticamente todos os dispositivos e aplicações que utilizamos. Uma busca na internet já é mediada por IA; processadores de texto como o Word já incorporam IA; softwares de design, como o Photoshop, também. E quando distribuímos conteúdos em redes sociais, eles passam inevitavelmente por filtros e algoritmos de inteligência artificial.

Portanto, será muito difícil imaginar que um conteúdo possa ser produzido e publicado hoje sem qualquer intervenção de IA. O dilema passa a ser outro: entender qual foi o grau de intervenção da máquina, qual o valor humano agregado e em que momento estamos apenas publicando algo gerado automaticamente.