A hora e a vez da biblioteca

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Biblioteca é um assunto muito caro ao meio editorial. 
Todos sonhamos com o dia em que haverá no Brasil, a exemplo do que acontece em outros países, um programa sério de composição, manutenção e atualização de acervos de bibliotecas, sejam elas públicas ou escolares. Recentemente o Ministério da Educação decidiu-se pela segunda leva de livros de literatura que vai comprar para doar aos alunos de 4ª série do ensino fundamental. No ano passado, as crianças matriculadas nas 4as. e 5as. séries das escolas publicas levaram para casa mais de 60 milhões de livrinhos escritos por um consagrado grupo de autores e, apesar da diversidade dos assuntos, dos estilos e do alto valor literário, todos tinham o mesmo aspecto físico pois fazia parte das regras o formato e o número máximo de páginas de um conjunto de cinco obras. Até a tipologia do texto é padronizada, eliminando a criatividade que faz a beleza do trabalho de arte editorial. 
 
Sem dúvida, esta doação vai motivar pais e filhos a manusearem e lerem livros em casa. O atual Governo se notabilizou por haver comprado à iniciativa privada o maior quantitativo de livros escolares de toda nossa história. Em boa parte dos lares brasileiros só entra o livro didático e o livro mais popular é a Bíblia. A pergunta que se impõe é – E as bibliotecas? Não estarão as poucas que existem sucateadas e desatualizadas? Biblioteca escolar, na grande maioria das escolas não existe. Os pequenos acervos enviados pelo governo que deveriam ser o núcleo de uma biblioteca se diluem pois são enviados esporadicamente e desvinculados de um programa que leve a comunidade escolar a considerar-se engajada em um processo que resultará em uma biblioteca verdadeira com um acervo significativo para todos os usuários: professores, alunos e famílias. Quando me refiro a bibliotecas, refiro-me ao primado do coletivo sobre o individual, ao permanente em contraposição ao eventual. 
Afinal, o que se deseja é que o estudante ou o leitor em geral, se aproprie do conteúdo dos bons livros colocados à sua disposição, a propriedade do objeto livro vem depois do desejo de lê-lo e é desnecessária quando há um programa de orientação ao leitor. 
 
Graças a estudos globais encomendados pela UNESCO foi possível identificar quais os fatores críticos no estabelecimento do hábito de leitura de um povo ou de uma pessoa. Eles são:  
a) ter nascido numa família de leitores, 
b) ter passado a juventude num sistema escolar preocupado com o estabelecimento do hábito de leitura, 
c) o preço do livro, 
d) o acesso ao livro e 
e) o valor simbólico que a população atribui ao livro. 
 
Um sistema bem organizado de bibliotecas pode propiciar o contato das pessoas com o livro sem que haja desembolso de dinheiro. 
As bibliotecas brasileiras, em 2000, responderam por cerca de apenas 1 milhão de exemplares em compras. 
 
O programa “Uma Biblioteca em Cada Município” do Ministério da Cultura implantou, entre 1996 e 2000, 1003 bibliotecas, cada qual com 2.600 exemplares. A verba do programa para 2001 foi de R$ 10 milhões, dividida entre a compra de livros, móveis e campanhas de estímulo à leitura. Neste ano, nenhuma biblioteca foi criada ainda. O Brasil tem 5.560 municípios. 
 
O leitor, em meio à diversidade de títulos, assuntos, autores, capas, cores, formas, espessuras e acabamentos os mais diferentes, típicos de uma biblioteca, encontrará sempre algo que lhe chame a atenção e desperte nele a curiosidade e o desejo de ler. 
 
Carece o país de um sistema de bibliotecas públicas cuja distribuição geográfica se aproxime dos postos de saúde. 
 
Para atingirmos o nível da Espanha ou da Itália, precisamos de uma rede com mais de 15 mil bibliotecas públicas. O que significa no mínimo triplicar a rede existente, criando com isto pelo menos mais 26 mil empregos. Este objetivo está longe de ser utópico. O México, em dez anos, implantou 5 mil bibliotecas públicas voltadas em especial para a escola. A Venezuela e a Colômbia realizaram feito semelhante e – em certos aspectos de qualidade – até mais audaciosos. 
 
Estamos vivendo um tempo de planejamento de novos governos. O momento é oportuno para se lembrar das bibliotecas. 

Reproducão autorizada desde que citada a fonte