A Educação, o Trabalho e o Trabalhador

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O desemprego estrutural, provocado pela exigência de reduzir custos e potencializar a produtividade, imposto pela competição acirrada em um mercado globalizado, é um problema que se manifesta em todos os países. Esse fenômeno, que atinge principalmente o setor industrial, no qual a automação das plantas tem reduzido os postos de trabalho, tem sido minimizado no primeiro mundo, pela migração de mão-de-obra para outros setores de atividades, especialmente os serviços. A reciclagem profissional dos trabalhadores, para que assumam novas funções profissionais, tem sido facilitada, na Europa, Estados Unidos e Ásia, pela formação escolar básica que, na média, é de boa qualidade. 
 
No Brasil, o problema assume proporções mais sérias, porque é agravado pelo despreparo de seus profissionais, que começa na deficiência do ensino básico. A automação industrial exige mão-de-obra altamente especializada, capaz de trabalhar em ambientes cada vez mais informatizados e marcados por tecnologias de ponta; a migração para os serviços remanescentes do desemprego estrutural também exige que os trabalhadores tenham formação básica eficiente e sejam portanto, treináveis a curto prazo. 
 
Não se pode, portanto, considerar o avanço tecnológico como o único grande vilão do desemprego. A automação é irreversível e está em crescimento. Assim, torna-se urgente preparar os trabalhadores para atender às novas expectativas do mercado de trabalho na indústria e em todos os demais setores. 
 
O conhecimento da informática, por exemplo, é atributo indispensável na maioria das atividades. O domínio de línguas, como o inglês e agora o espanhol, em virtude das transações provenientes do Mercosul, tornou-se imprescindível. Quem, hoje em dia, não puder preencher esses requisitos é relegado a segundo plano. Na disputa acirrada por uma vaga, ganha quem tiver mais atributos. Não há tecnologia que por si só provoque desemprego; o uso que dela se faz pode conduzir tanto ao aumento do emprego, como à necessidade de reciclagem da mão-de-obra. O aumento da produtividade, advindo do aperfeiçoamento dos   métodos e processos de produção, quando não gera mais consumo, recai na esterilidade do processo econômico, impedindo o crescimento e provocando o inevitável desemprego. 

Outro fator que interferiu diretamente nos índices de emprego foi a abertura às importações de forma desenfreada, sem que as empresas brasileiras tivessem as mesmas vantagens competitivas de suas concorrentes no contexto da globalização. Exatamente quando ser competitivo torna-se fator imprescindível para a sobrevivência, o empresariado brasileiro enfrenta o contingenciamento de crédito para investimentos, altas taxas de juros, volatilidade cambial, carga tributária excessiva e encargos sociais elevados. Neste cenário desfavorável, a indústria brasileira tem tido grandes dificuldades para competir com o binômio qualidade/preço das empresas estrangeiras. O resultado desse processo é o enfraquecimento de parte de nossas empresas, insolvência de outras, e a dispensa de funcionários. Fica, porém, um alerta: desempregar gente à guisa de equilibrar custos e baixar preços pode ser um caminho sem volta. Cada desempregado é um consumidor a menos. 
 
Apesar de os dados relativos ao desemprego terem despertado ceticismo até no mais contumaz otimista, nota-se que grande parcela da população, que não possui mais contrato de trabalho, migrou para a economia informal. O comércio e os serviços também absorveram uma pequena parcela de trabalhadores. 
 
Hoje, entretanto, quem perde o emprego dificilmente consegue recolocação na mesma função e com o mesmo salário. Por esse motivo, a qualidade do emprego caiu vertiginosamente, gerando baixos salários, vagas disputadíssimas e rigor nas contratações. O mercado tornou-se extremamente seletivo, na busca de profissionais altamente capacitados.  
 
O círculo vicioso instala-se. Todo ano, ingressam no mercado de trabalho profissionais mais e mais despreparados, somando-se aos já existentes. A sua formação educacional é precária, porque o ensino básico público é deficiente. O País também carece de uma estrutura de ensino técnico-profissionalizante em nível de médio (antigo segundo grau), que, no mundo desenvolvido, prepara adequadamente número expressivo de trabalhadores para funções intermediárias, com remuneração digna.   
 
A educação no Brasil é cara. Ou seja, o ensino de boa qualidade, um direito implícito à cidadania, não é democratizado. Assim, a competição pelos melhores postos no mercado de trabalho inicia-se, precocemente e de forma absolutamente heterogênea, nas salas de aula do ensino fundamental. Os que têm oportunidade de pagar escolas caras de boa qualidade saem muito na frente daqueles que buscam a oportunidade de uma vida melhor nas carteiras quebradas de sombrias salas de aula das escolas públicas. 
 
Por isso, não há qualquer exagero em se afirmar: uma das soluções mais eficientes para reduzir o desemprego, a médio e longo prazos, é o resgate da qualidade do ensino. Não se constrói um país apenas com tecnologia de ponta. A inserção soberana e com vantagens competitivas do Brasil na economia global somente será possível se o País encontrar meios para se diferenciar num requisito fundamental e insubstituível: a força e a capacidade do talento humano. 
 
Reproducão autorizada desde que citada a fonte