A leitura para além da festa

São quase dez minutos de barco, outros dez de carro e um choque cultural para o caiçara Almir Tã sair da Ilha do Araújo e chegar ao Centro Histórico. Tã participa da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, lançando seu primeiro livro, escrito nos anos 1970.

 

Sua história, a de um pescador, artesão e líder comunitário de 54 anos, se mistura com a da festa a partir do momento em que a Flip consegue levar literatura àqueles que são mais afetados pelo evento: os moradores de Paraty. É um movimento que passa por educação, cidadania, cultura e, sobretudo, pelo incentivo à leitura numa cidade de apenas 35 mil habitantes.

Enquanto Tã percorre esse trajeto para chegar a Paraty, a Casa Azul, associação que promove a Flip, faz o caminho inverso: durante todo o ano, seus monitores visitam escolas e praças da cidade para viabilizar o acesso aos livros por crianças e adolescentes. A Flip assumiu, ainda, o compromisso de implementar bibliotecas nessas localidades, e, hoje, cada uma das 32 escolas municipais da região tem seu espaço de leitura.

São por ações como essas que os dez anos de Flip vão além do festival cultural e turístico que traz autores internacionais e milhares de visitantes para a cidade. Trata-se de um evento de integração, um claro avanço para Paraty. A festa, porém, também é criticada por moradores da cidade. Para alguns paratienses, a Flip, mesmo com todo o prestígio, não se inteira das demandas de educação e cultura da população – como a falta de bibliotecas em colégios de comunidades vizinhas. E cabe a eles, os moradores de Paraty, a tarefa de avaliar a festa.

A festa não é para todos

Faxineiro da Flip há quatro edições, pescador de 48 anos não sabe ler nem escrever

Apesar da tentativa de transformar a realidade por meio da literatura, a própria Flip revela uma contradição na sua essência: a pessoa que limpa os banheiros na festa de celebração da leitura não sabe ler nem escrever. Há quatro edições, o pescador Sirlei Araújo de Souza, de 48 anos, é contratado para fazer a manutenção dos banheiros e áreas comuns do evento.

Todos os dias, Sirlei sai de casa, em Barra do Corumbê, comunidade a sete quilômetros de Paraty, pega um ônibus e bate ponto na tenda da Flip às 8h. Até as 17h, pode ser visto – embora normalmente seja ignorado – para cima e para baixo com suas vassouras. Mais velho de nove irmãos, teve de trabalhar desde criança para ajudar a mãe em casa. Nunca entrou numa escola. Os livros, para ele, são apenas objetos coloridos.

– Não tenho estudo, mas sou inteligente – orgulha-se Sirlei, em conversa rápida durante seu horário de almoço.

Além de pescador (esta é a melhor época para comer camarão em Paraty, ensina) e faxineiro da Flip, Sirlei é exímio maratonista. Na juventude, começou a correr incentivado por um primo militar. Tomou gosto pelo esporte. Desde então, treina religiosamente três vezes por semana, “até quando chove”, diz ele. O esforço é recompensado: coleciona 22 medalhas de maratonas realizadas no estado. Faz questão de mostrar as fotos de todas elas no celular:

– Correr é o que mais gosto de fazer na vida. Esqueço de tudo quando estou correndo – conta ele, um sujeito esguio e com a pele curtida pelo sol.
Sirlei domina o manuseio do aparelho e usa os ícones para mostrar outras imagens registradas nos últimos dias, como as de sua mãe, do recém-inaugurado restaurante do irmão (o Bistrô Amigo), da montagem das tendas da Flip e do seu cavalo, Teimoso. No ano passado, ele realizou o sonho de correr a São Silvestre. Eram 30 mil participantes, e Sirlei chegou entre os cinco mil primeiros.

– Nunca tive patrocínio. Quando tem alguma maratona, meus amigos ajudam. Um deles dá R$5, o outro dá R$10, e foi assim que eu cheguei até São Paulo – conta Sirlei, que não tem medo de se perder no caminho por não saber ler. – Quem tem boca vai a Roma. E eu vou para aonde eu quiser.

A importância da leitura

Caiçara lança livro e cria biblioteca para sua comunidade

Longe das questões políticas, entre os admiradores e os levemente descontentes, há também em Paraty uma terceira categoria de moradores que, mesmo antes da Flip, já batalhavam para facilitar o acesso à leitura no município e acabaram se juntando à festa. Almir Tã é um desses. O caiçara lançou ontem, numa mesa da Flipinha, seu primeiro livro, intitulado “Cultura caiçara” (editora Linha D”água). A obra foi escrita à mão num caderno há mais de três décadas. Desde então, Tã procura incentivar a leitura em sua comunidade, a Ilha do Araújo, onde vivem somente 500 pessoas. Para isso, criou uma biblioteca em sua casa, reunindo livros doados por amigos ou turistas.

Aos poucos, o acervo foi crescendo, até que Tã recebeu ajuda de colaboradores, entre eles a Flip, e transformou outra casa da ilha numa biblioteca equipada com três mil obras. Lá, há desde coleções inteiras da Enciclopédia Mirador até romances de nomes como o turco Orhan Pamuk e o moçambicano Mia Couto, já convidados da festa literária. O espaço fica aberto das 14h às 20h, e serve para as crianças da ilha terem acesso à leitura.
Tã também está sempre por lá. Mas seu projeto com os livros esconde uma curiosidade: o escritor, agora com uma obra editada, nunca leu um livro.

– Eu sou semianalfabeto. Não sou bom de leitura. Começo, mas não consigo ir muito longe – diz. – Mas sei a importância da leitura para os jovens. E é isso o que a Flip ajuda a proporcionar. Ela traz um poder de conhecimento e de educação muito grande.