Mestres em valorizar a educação

Ao longo de cinco edições, o Anuário Abrelivros se consolidou como um espaço de informação, reflexão e debate sobre a educação brasileira. A publicação mantém viva uma discussão que precisa estar permanentemente no centro das atenções: os caminhos e desafios da educação no país. Nesta edição, o foco recai sobre quem está na linha de frente desse processo: o professor. Sob o tema “Profissão Professor”, o Anuário reúne dados, pesquisas, entrevistas e artigos sobre os desafios da profissão docente.

O retrato é complexo. São 1,9 milhão de professores na educação básica pública. Sete em cada dez têm mais de dez anos de carreira e 48% possuem pós-graduação. Ao mesmo tempo, quase 80% dos docentes ouvidos em pesquisa mencionada no Anuário afirmam já ter pensado em deixar a profissão.

Há um aspecto que merece atenção especial: o papel das mulheres na educação brasileira. Elas representam 96% dos docentes da Educação Infantil e 76,4% no Ensino Fundamental. No Ensino Médio, ainda são maioria, mas se aproximam mais do equilíbrio, com 58,2%. Esses números ajudam a compreender a composição da profissão docente no país.

O Anuário compara a realidade brasileira com dados internacionais da Talis, pesquisa coordenada pela OCDE. Os indicadores mostram desafios nas condições de trabalho e no bem-estar dos professores.

Outro eixo da edição é o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Em 2025, o programa distribuiu mais de 127 milhões de exemplares, com investimento de R$ 1,5 bilhão. O Anuário apresenta os números por Estado e mostra a evolução do atendimento, incluindo obras literárias e materiais em braille.

Mas talvez um dado significativo esteja na percepção dos professores. Pesquisa realizada pelo MEC com apoio do FNDE mostra que 97,8% dos docentes da rede pública conhecem o PNLD e 98,5% consideram que o programa contribui para melhorar a qualidade do ensino. Para 71,1%, essa contribuição é grande. Os materiais do programa são apontados como principal recurso didático por 80% dos gestores municipais e 77,5% dos professores.

Esses números reforçam a importância de preservar e aprimorar o PNLD. O programa precisa de previsibilidade e continuidade. Enquanto avançamos para a escolha do PNLD 2027 para os Anos Iniciais, entre 28 de agosto e 8 de setembro, é fundamental manter o diálogo sobre os recursos necessários para garantir esse ciclo. A previsibilidade orçamentária é parte essencial desse planejamento.

Também não podemos ignorar o risco de déficit de professores. Valorizar a carreira, fortalecer a formação inicial e continuada e oferecer melhores condições de trabalho são medidas urgentes. A valorização aparece como principal desafio, seguida por indisciplina e desinteresse dos alunos e falta de apoio e reconhecimento da sociedade. Vale observar a experiência de países como a Coreia do Sul, cujo salto socioeconômico nas últimas décadas esteve associado a pesados investimentos em educação e à transformação da profissão docente em uma carreira de elevado prestígio social.

O Anuário Abrelivros 2026 – 5ª edição nasce para contribuir com esse debate. Convido todos a conhecerem a publicação. Seu lançamento será no dia 4 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em encontro que reunirá o presidente do Conselho Nacional de Educação, César Callegari, a diretora de Apoio à Gestão Educacional da Secretaria de Educação Básica do MEC, Anita Gea Martinez Stefani, e a coordenadora-geral dos Programas do Livro do FNDE, Patrícia Costa Dias, em conversa mediada pelo jornalista Paulo de Camargo.

Mais do que apresentar uma nova edição do Anuário, queremos abrir espaço para uma conversa necessária sobre como fortalecer, valorizar e preparar para o futuro aqueles que fazem da educação, todos os dias, uma realidade.

 

* Ângelo Xavier é presidente da Abrelivros – Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais