“Educação integral: o rigor está no processo, não no formato”

A edição de junho da Abrelivros em Pauta conversa com Thaís Mesquita, Coordenadora de Parcerias Estratégicas da Ashoka e Coordenadora-Executiva do programa Escolas2030 no Brasil. Na entrevista, Thaís destaca os desafios da avaliação do desenvolvimento integral dos estudantes, tema que ganhou força com o lançamento da publicação Avaliação do Desenvolvimento Integral como Direito: Sentidos, Práticas e Desafios.

A iniciativa foi desenvolvida a partir de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre o Ministério da Educação (MEC), a Ashoka Brasil e a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). O trabalho está vinculado ao Escolas2030, programa internacional realizado entre 2020 e 2030, que busca fortalecer práticas de educação integral e transformadora. A coordenadora explicou como o trabalho foi desenvolvido, que teve o objetivo de transformar os aprendizados acumulados pela pesquisa em subsídios para o aprimoramento das políticas públicas de avaliação da Educação Integral no país.

– O Escolas2030 valoriza o que já funciona no Brasil no ensino integral. Essa perspectiva oferece um novo viés da avaliação das escolas públicas brasileiras?

O Escolas2030 busca redefinir o que é sucesso em educação a partir não apenas da concepção teórica, mas também de práticas bem-sucedidas de escolas e organizações sobre educação integral e transformadora. Para que essa educação seja efetiva, é necessário mudar tanto as práticas de ensino quanto as formas de avaliação.

É preciso repensar o que é avaliado, como se avalia, com quais objetivos e quem participa desse processo. Na educação convencional, a avaliação muitas vezes se restringe a habilidades acadêmicas e ocorre de forma pontual e hierárquica, seja na prática cotidiana dos professores, seja nas avaliações externas.

Já na perspectiva da educação integral e transformadora, é preciso ir além das aprendizagens acadêmicas, incluindo dimensões como empatia, colaboração, criatividade, protagonismo e autoconhecimento. A avaliação deve ser processual, formativa e parte do processo educativo, contribuindo para a compreensão do desenvolvimento dos estudantes por professores, estudantes e famílias.

Também é fundamental ampliar os sujeitos envolvidos, incluindo autoavaliação, avaliação entre pares e participação das famílias. Essa pluralidade de olhares é essencial para captar a complexidade do desenvolvimento integral.

– O guia lançado por vocês nasce da escuta de educadores e estudantes em territórios de alta vulnerabilidade. O que a pesquisa capturou e o que surpreendeu a equipe ao longo desses anos?

A pesquisa-ação do Escolas2030 redefine a relação com a produção de conhecimento ao reconhecer professores como pesquisadores de suas próprias práticas, com apoio da FEUSP. A escola passa a ser vista como lócus de produção de conhecimento, valorizando o protagonismo docente.

Ao longo do processo, as comunidades nos mostram a importância de considerar contextos marcados por falta de tempo institucional para pesquisa, alta rotatividade de profissionais e dinâmicas sociais complexas que atravessam o cotidiano escolar.

Também aprendemos que, quando professores e gestores adotam uma perspectiva de educação integral e olham para os estudantes a partir de suas potencialidades, surgem trajetórias significativas de desenvolvimento e transformação. Quanto mais o protagonismo estudantil é estimulado, mais experiências inovadoras emergem.

Nos surpreende a determinação diária dos professores, que, mesmo em condições adversas, seguem comprometidos com uma educação que reconhece o estudante em sua integralidade. Esse compromisso inspira o fortalecimento de políticas públicas que deem visibilidade e sustentação a essas práticas.

– Quais os desafios de avaliar o desenvolvimento integral?

O principal desafio é a mudança de olhar sobre o papel da educação, que historicamente tende a reduzir os estudantes a números. Um primeiro ponto é a garantia da autonomia das escolas, prevista na LDB, para que possam desenvolver avaliações contextualizadas e significativas. Quando demandas externas ocupam o tempo da aprendizagem, torna-se difícil realizar uma avaliação processual.

Outro desafio é a mudança de mentalidade dentro das escolas, superando a lógica da educação bancária. É necessário fortalecer o protagonismo estudantil e reconhecer os estudantes como sujeitos que também produzem conhecimento.

A formação docente também é central: o conceito de desenvolvimento integral precisa estar presente desde a formação inicial até a formação continuada, incluindo experiências práticas e contato com diferentes realidades escolares.

Por fim, há o debate sobre rigor e confiabilidade. Frequentemente, avaliações numéricas são vistas como mais rigorosas, mas o rigor está no processo, não no formato. Avaliações contínuas e baseadas em observação podem ser mais confiáveis do que testes pontuais. O desafio é ampliar a compreensão de qualidade em educação para além de indicadores restritos.

– O Acordo de Cooperação com o MEC busca levar os aprendizados da pesquisa para a política pública. Na prática, como esse diálogo acontece?

O Escolas2030 tem como objetivo ampliar o alcance das práticas desenvolvidas nas escolas e contribuir para impactos sistêmicos na educação. A incidência em políticas públicas é central nesse processo.

O ACT com o MEC se conecta especialmente ao eixo de acompanhamento do Programa Escola em Tempo Integral. Na prática, o programa sistematiza e compartilha os conhecimentos produzidos por docentes por meio de eventos, publicações e materiais.

Um marco importante foi o seminário realizado em Brasília, que reuniu professores, gestores e estudantes para compartilhar experiências sobre avaliação na educação integral. Também foi realizada uma construção coletiva de recomendações, resultando em um documento com 11 propostas para políticas públicas.

Além disso, foi lançado o guia Avaliação na Educação Integral: Guia para redes e escolas de educação básica, que reúne aprendizados da pesquisa-ação e apresenta exemplos de práticas e indicadores desenvolvidos pelas escolas.

O diálogo com políticas públicas também envolve articulação com redes e instituições como Undime, Consed e outras organizações. Estão previstos ainda eventos regionais para ampliar a disseminação dos referenciais do programa.

– O Escolas2030 termina em 2030. O que você espera que permaneça nas redes de ensino brasileiras?

A expectativa é que o programa contribua de forma duradoura para o debate sobre qualidade e sucesso em educação, a partir das práticas desenvolvidas nas escolas.

Ao longo do percurso, o programa busca influenciar mentalidades, práticas e políticas públicas. Já foram publicadas recomendações sobre pesquisa-ação e educação antirracista, e está em elaboração uma terceira publicação sobre avaliação.

A parceria com o MEC é estratégica para ampliar o impacto em diretrizes nacionais e fortalecer o diálogo com redes estaduais e municipais.

Nos próximos anos, o objetivo é consolidar ações como assessoria para pesquisa-ação, intercâmbio entre docentes e fortalecimento de iniciativas inovadoras.

Como sintetiza Elie Ghanem, da FEUSP, avanços significativos dependem de três pilares: autonomia das escolas, qualificação docente e protagonismo estudantil. Esses elementos são fundamentais para a consolidação da educação integral e transformadora nas redes públicas.