A Abrelivros em Pauta de abril conversa com Priscilla Campiolo Manesco, pedagoga, mestre em História e especialista em Docência no Ensino Superior. Atua como Gerente Técnica Acadêmica da Escola de Ciências da Educação na Vitru Educação, com mais de 25 anos de experiência na formação de professores. É avaliadora do Sinaes e integrante da Comissão de Elaboração e Revisão de Itens do Enade. Professora de graduação e pós-graduação, dedica-se à qualificação das práticas docentes e ao desenvolvimento de educadores com visão de futuro.
Na entrevista, Priscilla falou sobre o avanço da inteligência artificial na educação exige menos uma resposta tecnológica e mais uma reorganização institucional, com diretrizes claras, formação docente para o discernimento e materiais didáticos como eixo de coerência pedagógica.
Diante do avanço da inteligência artificial também na Educação, de que forma essas ferramentas podem contribuir para otimizar parte das rotinas pedagógicas e dialogar com materiais didáticos e conteúdos educacionais na promoção da aprendizagem?
A contribuição mais consistente da IA na educação, na minha leitura, não está na aula em si, mas antes dela, no planejamento do trabalho pedagógico. Hoje, uma parte relevante do tempo dos docentes é consumida por tarefas técnicas, repetitivas e burocráticas: elaboração de rubricas, organização de sequências didáticas, adaptação de atividades por nível de complexidade, sistematização de critérios avaliativos, preenchimento de relatórios padronizados. Não são tarefas simples — exigem rigor —, mas são operacionais. É exatamente nesse ponto que a IA pode atuar como copiloto, oferecendo versões iniciais que o professor analisa, ajusta e contextualiza.
Isso tem um efeito direto: reorganiza a alocação do tempo. Ao reduzir o esforço nas etapas operacionais, amplia-se o espaço para aquilo que nenhuma tecnologia substitui — leitura de contexto, interpretação das necessidades dos estudantes, construção de vínculo e tomada de decisão pedagógica qualificada.
Quando pensamos na relação com materiais didáticos e conteúdos educacionais, a lógica é a mesma. A IA não substitui o conteúdo estruturado — ao contrário, passa a depender ainda mais dele como referência de qualidade e alinhamento. O que muda é a capacidade de desdobrar conteúdos em diferentes níveis de aprofundamento; gerar variações de atividades a partir de um mesmo material; apoiar a organização de percursos de aprendizagem mais ajustados aos diferentes ritmos.
Mas esse uso só é consistente quando há intencionalidade pedagógica e diretrizes claras. Sem isso, a IA tende a reproduzir respostas genéricas, descoladas do contexto, e pode até fragilizar a coerência do processo educativo. Por isso, a discussão não é sobre substituir materiais ou automatizar o ensino. É sobre usar a inteligência artificial para potencializar o uso qualificado dos conteúdos educacionais e liberar tempo para o que, de fato, impacta a aprendizagem.
No campo das políticas públicas, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) evidencia a relevância do livro didático na garantia de acesso a conteúdos de qualidade no Brasil. Como você avalia a permanência e a importância desse recurso em um ambiente escolar cada vez mais digital?
A permanência do livro didático se torna ainda mais estratégica em um ambiente educacional atravessado pela digitalização e pela IA. Quanto maior a disponibilidade de informação e geração automática de conteúdo, maior a necessidade de referência estruturada, validada e alinhada curricularmente. O livro didático cumpre exatamente esse papel. Ele é um organizador do percurso de aprendizagem, com intencionalidade pedagógica, progressão de complexidade e curadoria qualificada.
Em um cenário de expansão de ferramentas digitais, o risco não é a substituição do livro, mas a sua desvalorização diante de conteúdos fragmentados, muitas vezes descontextualizados ou sem rigor. E isso tem impacto direto na qualidade da aprendizagem. O livro (físico ou digital) continua sendo um eixo de estabilidade pedagógica.
A IA, nesse contexto, não concorre com o material didático — ela passa a operar sobre ele. Quanto melhor o conteúdo de base, mais qualificado tende a ser o uso da IA. É a partir desse referencial estruturado que se torna possível: adaptar atividades com coerência; desdobrar conteúdos em diferentes níveis; organizar percursos mais ajustados aos ritmos de aprendizagem. Sem essa base, a IA tende a produzir respostas genéricas, com risco de inconsistência conceitual.
Há ainda um segundo ponto, de natureza pública e estrutural: o PNLD garante equidade de acesso. Em um país marcado por desigualdades, a digitalização avança, mas não elimina diferenças de infraestrutura, conectividade e condições de uso. Na minha avaliação, o material didático continua sendo uma das poucas garantias de acesso universal a conteúdos de qualidade. Portanto, a discussão não deve ser colocada como substituição entre livro e tecnologia. O que está em jogo é a integração qualificada entre conteúdo estruturado e novas ferramentas, preservando o papel do material didático como referência e utilizando a IA como apoio para ampliar suas possibilidades de uso.
Na sua visão, quais condições institucionais e de formação podem favorecer a adoção de inovações de forma consistente e alinhada às necessidades das escolas?
A adoção consistente de inovação, especialmente quando falamos de IA começa na própria instituição. Há um erro recorrente nesse debate: tratar inovação como iniciativa individual, quando, na prática, ela depende de condições estruturais claras. Sem isso, o que se tem é uso pontual, heterogêneo e, muitas vezes, inconsistente por parte de algumas iniciativas isoladas.
Eu organizo essas condições em três eixos.
O primeiro é governança. A instituição precisa definir, com clareza para quais finalidades a tecnologia pode ser utilizada; o que pode ou não ser delegado; quais são os critérios de qualidade esperados; e como se dá a supervisão humana.
Sem esse direcionamento, o uso tende ao improviso. E improviso, em educação, compromete coerência e equidade. Esse ponto dialoga diretamente com diretrizes recentes do Ministério da Educação e com a agenda de proteção de dados da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, especialmente quando envolve informações de estudantes.
O segundo eixo é formação. Mas, formação não pode ser treinamento de ferramenta. Precisa ser formação para discernimento profissional. Isso implica desenvolver a capacidade de avaliar quando usar e quando não usar; interpretar criticamente as respostas geradas; ajustar o material ao contexto real; e manter o julgamento pedagógico como instância final. Sem esse nível de maturidade, a tecnologia vira atalho — não solução.
O terceiro eixo é organização do trabalho. Se a estrutura de tempo permanece a mesma, a inovação não se sustenta. É preciso garantir espaço para planejamento, troca entre pares e uso intencional das ferramentas. Caso contrário, adiciona-se mais uma demanda sobre uma rotina já sobrecarregada e o efeito tende a ser rejeição ou uso superficial.
No fundo, a questão é menos tecnológica e mais institucional. Inovação consistente exige direção, critério e condições reais de implementação.
Em meio às transformações tecnológicas, cresce também a preocupação em preservar dimensões essencialmente humanas do processo de ensinar e aprender. Nesse cenário, como você percebe o papel de professores, livros e políticas públicas voltadas ao acesso educacional?
A incorporação de tecnologias tende a deslocar o debate para eficiência e escala. Mas, em educação, há um limite claro: o que é essencialmente humano não pode ser terceirizado. E é justamente nesse ponto que o papel dos profissionais da educação, dos materiais estruturados e das políticas públicas se torna ainda mais crítico.
O papel dos docentes não diminui com a tecnologia — se redefine com mais exigência. Quando a IA assume parte das etapas operacionais, o que permanece (e se intensifica) é o que exige julgamento: leitura de contexto, mediação pedagógica, construção de vínculo com estudantes, desenvolvimento de habilidades socioemocionais, interpretação das dificuldades e tomada de decisão pedagógica. Não se trata de “preservar o humano” como um valor abstrato, mas de reposicionar o humano onde ele é e sempre será insubstituível.
Os materiais didáticos, por sua vez, ganham uma função ainda mais estratégica. Em um ambiente com abundância de conteúdo e geração automatizada, eles deixam de ser apenas suporte e passam a ser referência de qualidade, coerência e progressão de aprendizagem. São eles que sustentam a intencionalidade pedagógica e evitam a fragmentação do processo educativo. A tecnologia pode ampliar o uso desses materiais, mas não substitui a curadoria e o rigor que eles carregam sob supervisão humana.
Já as políticas públicas cumprem um papel estruturante: garantir equidade e estabelecer limites de uso. Em um país marcado por desigualdades, assegurar acesso a conteúdo de qualidade continua sendo central — e programas como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático seguem fundamentais nesse sentido. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico exige diretrizes claras sobre uso de dados, critérios de adoção e proteção de direitos, agenda que vem sendo tensionada por órgãos como a Autoridade Nacional de Proteção de Dados.
Portanto, não há oposição entre tecnologia e dimensão humana. O que há é uma necessidade de reorganização do sistema: profissionais mais focados no que exige julgamento e mediação; materiais como eixo de coerência e qualidade; políticas públicas garantindo acesso, regulação e proteção.
Para concluir, gostaria de acrescentar alguma reflexão final sobre esse tema e os caminhos da educação nos próximos anos?
Se há uma reflexão final que considero central, é esta: a educação não está diante de uma escolha entre adotar ou não a inteligência artificial — está diante de uma escolha sobre como irá se reorganizar diante dela nos próximos anos.
Nos próximos anos, o principal movimento não será tecnológico, será institucional. Organizações que conseguirem estruturar uso com intencionalidade — combinando conteúdo de qualidade, diretrizes claras, formação consistente e proteção de dados — tendem a ampliar sua capacidade pedagógica. As que tratarem a IA como solução rápida ou a simplesmente ignorarem correm o risco de gerar dois problemas: uso superficial ou atraso estrutural.
Esse cenário exige um deslocamento importante. A discussão deixa de ser “quais ferramentas usar” e passa a ser: quais decisões podem ser apoiadas por tecnologia e quais não podem; como garantir coerência pedagógica; como proteger estudantes em ambientes cada vez mais mediados por dados; como formar novos profissionais para atuar com discernimento, e não apenas com habilidades técnicas.
Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja sobre o futuro da tecnologia na educação, mas sobre o futuro da própria educação diante de novas condições de trabalho, produção de conhecimento e organização do ensino. E essa é uma decisão que já está em curso.