“Mais do que preparar para o mercado, a escola precisa formar cidadãos”

A Abrelivros em Pauta de março conversa com a professora paulistana Débora Garófalo, que acaba de receber o título inédito de Global Teacher Influencer, concedido pela Varkey Foundation, entidade responsável pelo Global Teacher Prize, conhecido como o “Nobel da Educação”. Com mais de 20 premiações ao longo da carreira, Garófalo se destaca por iniciativas como o projeto “robótica com sucata”, que transforma materiais descartados em ferramentas de aprendizagem e estímulo à ciência e à tecnologia nas escolas públicas.

Na entrevista, a educadora aborda os desafios da educação pública brasileira, com ênfase nas desigualdades de acesso e aprendizagem, destacando a importância de políticas públicas estruturantes, da valorização dos professores e do acesso a materiais e conteúdos educacionais de qualidade. A especialista também discute como práticas pedagógicas inovadoras e acessíveis podem contribuir para uma educação mais equitativa, conectada aos desafios do século XXI e à realidade dos estudantes.

O reconhecimento como Global Teacher Influencer reforça o impacto do seu trabalho. Na sua visão, o que essa conquista diz sobre o potencial da educação pública brasileira?

Esse reconhecimento mostra, acima de tudo, que a educação pública brasileira tem um potencial imenso, mesmo diante de tantas limitações estruturais. Quando um trabalho desenvolvido dentro da escola pública ganha visibilidade global, isso evidencia que nossos professores são altamente criativos, resilientes e comprometidos.

Segundo dados da OCDE, sistemas educacionais que valorizam o protagonismo docente e a inovação pedagógica conseguem melhores resultados mesmo em contextos adversos. O Brasil tem muitos exemplos disso — práticas potentes que nascem da realidade local, dialogam com o território e geram transformação concreta.

Esse reconhecimento não é apenas individual, ele ilumina o que já acontece diariamente em milhares de escolas públicas: professores criando soluções, engajando estudantes e promovendo aprendizagem significativa.

Você desenvolveu o projeto “robótica com sucata”, que alia inovação e acessibilidade. Como iniciativas como essa podem contribuir para reduzir desigualdades educacionais no país?

Projetos como “robótica com sucata” mostram que inovação não depende necessariamente de alto investimento, mas de intencionalidade pedagógica. Ao utilizar materiais reutilizáveis, ampliamos o acesso e garantimos que estudantes de diferentes contextos possam vivenciar experiências com ciência e tecnologia.

Dados da UNESCO indicam que o acesso desigual a recursos tecnológicos é um dos fatores que aprofundam as desigualdades educacionais. Quando criamos alternativas acessíveis, estamos democratizando oportunidades.

Além disso, esse tipo de projeto desenvolve habilidades essenciais — como pensamento crítico, resolução de problemas e trabalho em equipe — que são fundamentais para quebrar ciclos de exclusão. O mais importante: o estudante deixa de ser apenas consumidor de tecnologia e passa a ser criador.

Quais são hoje os principais desafios estruturais da educação brasileira e que papel as políticas públicas devem desempenhar para enfrentá-los?

Os desafios são múltiplos e interligados. Podemos destacar três grandes pontos: desigualdade de acesso e permanência, valorização docente e infraestrutura escolar.

O Brasil ainda enfrenta dificuldades em garantir equidade. Dados do INEP mostram diferenças significativas de aprendizagem entre regiões e contextos socioeconômicos. Além disso, a evasão e a defasagem idade-série ainda são problemas relevantes.

As políticas públicas têm um papel central nisso. Elas precisam ser contínuas, baseadas em evidências e focadas em equidade. Isso envolve investimento consistente, formação continuada de professores, ampliação do acesso à tecnologia com propósito pedagógico e políticas integradas que considerem também o contexto social dos estudantes.

Não se trata apenas de ampliar recursos, mas de garantir qualidade e intencionalidade no uso desses recursos.

Na sua experiência em sala de aula, qual é a importância de garantir acesso a materiais e conteúdos educacionais de qualidade para o desenvolvimento dos estudantes?

O acesso a materiais de qualidade é decisivo para ampliar repertório, estimular o pensamento crítico e promover aprendizagens mais profundas. Quando o estudante tem contato com conteúdos bem estruturados, contextualizados e relevantes, ele consegue estabelecer conexões com o mundo e com sua própria realidade.

Relatórios do Banco Mundial apontam que a qualidade dos recursos pedagógicos está diretamente associada aos resultados de aprendizagem, especialmente em contextos mais vulneráveis.

Mas não é só sobre o material em si — é sobre como ele é mediado. Um bom recurso nas mãos de um professor preparado potencializa o aprendizado, engaja o estudante e torna o processo mais significativo.

Diante de um mundo cada vez mais tecnológico, como a escola pode formar estudantes críticos, criativos e preparados para os desafios do século XXI?

A escola precisa ir além do uso instrumental da tecnologia e trabalhar com intencionalidade pedagógica. Isso significa desenvolver competências como pensamento crítico, cultura digital, colaboração e resolução de problemas.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, essas são algumas das habilidades mais demandadas no século XXI. E elas não se desenvolvem apenas com acesso a dispositivos, mas com práticas pedagógicas ativas.

Projetos interdisciplinares, aprendizagem baseada em problemas e cultura maker são caminhos importantes. Quando o estudante investiga, cria, testa e erra, ele aprende de forma mais profunda.

Mais do que preparar para o mercado, a escola precisa formar cidadãos capazes de compreender o mundo, tomar decisões conscientes e atuar de forma ética e responsável na sociedade.