Na entrevista deste mês à Abrelivros em Pauta, o professor Fernando de Oliveira falou sobre a importância do livro no processo de alfabetização, destacando seu papel no desenvolvimento de competências leitoras e na formação cultural dos estudantes. Especialista em alfabetização, leitura, literatura infantil e políticas públicas do livro, Fernando atua na formação de professores, coordena programas como o Leitura e Escrita na Educação Infantil (LEEI/MEC) e integra comissões do PNLD.
Para ele, é fundamental compreender a leitura como uma prática social. “Desde o ingresso da criança na escola, mas especialmente a partir do processo de imersão formal na alfabetização, é preciso pensar na leitura e na formação dos leitores como um tipo de prática social e como objeto de ensino que corresponde a um processo de construção de sentidos a partir da interação com o outro e com o mundo, mediada pela linguagem”.
Fernando também abordou os limites da alfabetização funcional, os impactos do mundo digital nas práticas de leitura, a importância da formação docente e o papel das políticas públicas na garantia do acesso a materiais de qualidade e na formação de leitores críticos desde a infância.
Qual é o papel do livro no processo de alfabetização das crianças e como ele contribui para o desenvolvimento de competências leitoras?
O livro exerce um papel fundamental na alfabetização ao oferecer às crianças acesso a uma variedade de textos e discursos, com temas, formatos e visões de mundo distintos. Ele amplia o repertório e proporciona experiências significativas de leitura que vão além da simples decodificação de palavras. Por meio do livro, a criança entra em contato com diferentes formas de linguagem e aprende a interpretar não só o texto, mas também a si mesma e o mundo ao seu redor.
Contudo, é fundamental superar a ideia de que o livro é apenas um instrumento para “ensinar a ler”. O papel do livro na alfabetização vai além da função utilitária: ele deve ser compreendido como espaço de construção de sentidos e de interação entre texto, leitor e autor. Para que isso ocorra, o acesso ao livro precisa estar articulado a práticas pedagógicas intencionais, que incentivem a interpretação, a reflexão e a troca de ideias. Assim, o livro contribui de forma decisiva para a formação de leitores autônomos, críticos e socialmente engajados.
Por que é fundamental que o trabalho com leitura vá além da alfabetização funcional e envolva também práticas culturais desde os primeiros anos escolares?
Frequentemente, a alfabetização é vista apenas como o momento em que a criança aprende a decodificar palavras. Essa compreensão limitada leva à ideia de que primeiro se aprende a “ler tecnicamente” para, só depois, passar a compreender e interpretar os textos. Essa separação artificial entre decodificação e compreensão colabora para um cenário de alfabetização funcional, em que muitos alunos sabem ler palavras, mas não desenvolvem habilidades para construir sentidos a partir dos textos.
Por isso, desde o início da vida escolar, é fundamental trabalhar a leitura como prática cultural e social, conectada à vida cotidiana das crianças. Mesmo sem dominar totalmente o código escrito, elas já são capazes de participar de experiências de leitura significativas, refletindo sobre o conteúdo dos textos, ativando conhecimentos prévios e construindo sentidos com a mediação do professor. A leitura precisa ser vista como uma atividade complexa, que envolve múltiplas operações cognitivas — como inferência, interpretação, comparação de textos e reconhecimento de intenções discursivas.
Tratar a leitura apenas como uma habilidade técnica é reduzir seu potencial. Formar leitores exige reconhecer a leitura como um direito e como uma prática essencial para a formação cidadã e crítica dos estudantes.
Segundo a Unicef, 617 milhões de crianças e adolescentes no mundo não sabem ler. Na sua opinião, quais caminhos o Brasil pode seguir para avançar na formação leitora e transformar a leitura em uma prática contínua na vida dos estudantes?
Essa é uma questão que envolve múltiplas dimensões — não apenas pedagógicas, mas também políticas, sociais e estruturais. No Brasil, ainda há uma lacuna importante na formação inicial e continuada de professores para o trabalho com leitura, além da ausência de políticas curriculares que enfrentem a complexidade da formação leitora com seriedade. Também faltam ações efetivas para a democratização do acesso ao livro, à leitura e à mediação qualificada.
Outro ponto preocupante é que, conforme mostram pesquisas como “Retratos da Leitura no Brasil”, o interesse dos estudantes pela leitura tende a diminuir com o avanço da escolaridade. Isso revela falhas no modo como a leitura é tratada ao longo dos anos escolares — muitas vezes de forma desestimulante, mecânica ou desconectada das práticas culturais dos alunos.
Embora a escola não seja o único espaço de formação leitora, ela tem um papel central: é nela que o direito à leitura pode ser garantido como parte da formação cidadã. Por isso, é preciso repensar as condições materiais e simbólicas oferecidas pelas instituições de ensino, investir na valorização da leitura literária e fortalecer políticas públicas que garantam acesso a bibliotecas, livros de qualidade e formação de mediadores. Sem isso, continuaremos a formar leitores frágeis e pouco engajados.
Em um mundo cada vez mais impactado pela internet e pelas redes sociais, quais são os principais desafios para manter vivas e eficazes as práticas culturais de leitura no processo de alfabetização?
O avanço das tecnologias digitais não representa uma ameaça à leitura, mas impõe novos desafios. Hoje, lemos em múltiplos suportes — telas de celulares, computadores, tablets — e interagimos com textos que misturam linguagem verbal, visual e sonora. Esses novos formatos exigem habilidades específicas, que nem sempre são contempladas nos processos tradicionais de alfabetização.
É fundamental que a escola compreenda essa nova realidade e amplie seu conceito de leitura. Alfabetizar hoje significa também preparar os estudantes para lidar com os textos digitais, com sua interatividade, velocidade e multiplicidade de sentidos. Isso inclui ensinar a ler criticamente memes, mensagens de WhatsApp, publicações em redes sociais e outros formatos que circulam no cotidiano dos alunos.
Ao mesmo tempo, é importante preservar e atualizar as práticas culturais de leitura que vêm sendo construídas há séculos, como o contato com a literatura. O desafio está em integrar o novo sem abandonar o essencial, reconhecendo que diferentes textos cumprem funções distintas e exigem leituras igualmente relevantes.
A leitura continua sendo uma prática fundamental para a formação de sujeitos críticos, mas precisa ser pensada a partir das condições sociotécnicas do nosso tempo. Isso exige um olhar mais atento às transformações do mundo e à necessidade de formar leitores capazes de navegar entre linguagens, plataformas e realidades diversas.