“Utilizar dados de aprendizagem e observações em sala de aula permite identificar o que está funcionando”

A Abrelivros em Pauta deste mês conversou com Ernesto Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (IEDE). Mestre em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas e doutorando em Organização do Ensino, Aprendizagem e Formação de Professores na Universidade de Coimbra, Ernesto também é especialista em cálculos e análises de indicadores educacionais.

Na entrevista, ele destaca a importância da análise baseada em evidências para avaliar os avanços e desafios das políticas educacionais no Brasil, ressaltando o papel dos dados na tomada de decisões estratégicas, especialmente em programas como o PNLD. Também aborda a relevância das evidências na formulação de políticas públicas, o papel do IEDE na disseminação de boas práticas educacionais e como isso pode beneficiar programas nacionais, como o Anuário Abrelivros. Além disso, discute o futuro do IDEB, as perspectivas para o fortalecimento da educação básica e o desafio de garantir que gestores e professores tenham acesso a formações que os capacitem a interpretar e aplicar os dados de maneira eficiente na melhoria da aprendizagem. “Muitas vezes, os gestores e professores têm dificuldade em interpretar indicadores complexos, como o IDEB, e necessitam de capacitação para utilizar essas informações na tomada de decisão. Portanto, é fundamental investir em formação continuada e simplificação da apresentação dos dados para garantir que sejam efetivamente utilizados”, afirma.

O uso de dados e evidências na formulação de políticas públicas tem se mostrado cada vez mais importante para melhorar a qualidade da educação. Na sua visão, quais são os principais desafios para garantir que essas evidências sejam efetivamente consideradas pelos gestores educacionais?

Dados e evidências de pesquisa são elementos muito importantes para a gestão educacional. Eles devem guiar e orientar as decisões a partir de diagnósticos que permitam entender o que os alunos estão aprendendo, quais são as dificuldades de aprendizagem e outros fatores que impactam o desempenho escolar. A avaliação educacional ajuda a identificar habilidades críticas que precisam de reforço, mas também é essencial olhar para outros aspectos, como clima escolar e condições de ensino dos professores. Podemos trabalhar com dados em diferentes esferas que impactam o resultado educacional.

No entanto, um grande desafio é a comunicação desses dados. Muitas vezes, os gestores e professores têm dificuldade em interpretar indicadores complexos, como o IDEB, e necessitam de capacitação para utilizar essas informações na tomada de decisão. Portanto, é fundamental investir em formação continuada e simplificação da apresentação dos dados para garantir que sejam efetivamente utilizados. Precisamos aproximar e estimular esses profissionais a usarem dados, para garantir que consigam trabalhar bem com esses números, com investimento em processos formativos na gestão educacional.

O IEDE desempenha um papel central na disseminação de boas práticas educacionais. Quais exemplos de políticas bem-sucedidas, baseadas em evidências, poderiam servir de referência para fortalecer programas nacionais como o PNLD?

Os materiais didáticos, e consequentemente o PNLD, estão inseridos em uma visão educacional ampla. Para que o programa seja efetivo, é necessário um alinhamento entre currículo, avaliação e materiais pedagógicos. As diretrizes do MEC e dos órgãos que promovem a colaboração entre redes de ensino, como a UNDIME e o CONSED, têm um papel fundamental nesse processo de dar diretrizes e apoiar em discussões em relação ao material didático.

A qualidade do material didático está diretamente ligada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às expectativas de aprendizagem. No entanto, para garantir um impacto positivo, é essencial revisar o SAEB e outros sistemas de avaliação, tornando-os mais alinhados com as necessidades de aprendizagem dos estudantes. Esse processo também envolve formação de professores e apoio das redes de ensino para adaptar os materiais às realidades locais.

É preciso que haja coesão entre currículo, avaliação, material didático e formação de professores.

De que forma o Anuário Abrelivros, que oferece um amplo conjunto de informações sobre o PNLD, associado a outros indicadores de educação, pode contribuir para a tomada de decisões e para a implementação de políticas públicas mais eficazes?

Iniciativas como o Anuário Abrelivros são bem importantes por tornar os dados mais acessíveis e contribuir para o planejamento educacional. Muitas vezes, informações importantes estão dispersas em diferentes fontes, dificultando sua compreensão pelos gestores. Ao reunir diversos indicadores em um único documento e apresentar análises interpretativas, o anuário facilita a tomada de decisões informadas. Temos a visibilidade de dados de cidades do eixo Rio-São Paulo, Brasília, onde boa parte dos debates educacionais acontecem, especialmente pela influência do governo federal. Iniciativas como essa tem um trabalho grande de disseminação. Precisamos tornar esses dados mais acessíveis e ajudar na interpretação desses dados. Nem todos os gestores escolares estão familiarizados com os principais indicadores educacionais. Explicar o impacto de taxas de reprovação, distorção idade-série e IDEB permite uma melhor compreensão dos desafios e da necessidade de políticas mais eficazes para melhorar a educação.

O IDEB tem sido um indicador fundamental para monitorar a qualidade da educação no Brasil. Quais tendências e desafios o senhor enxerga para os próximos anos, e quais medidas poderiam impulsionar avanços significativos nos resultados?

O IDEB foi criado para apoiar a educação brasileira a ter um plano de metas. E nesse sentido, ele trouxe uma contribuição muito positiva, ajudou a consolidar uma cultura de monitoramento de indicadores e avaliações, mas também precisa ser aprimorado para corrigir distorções.

O IDEB Passou a ser um indicador que baseia muito as políticas educacionais, passou a ter um papel ampliado. Um desafio importante é evitar que escolas e redes direcionem seus esforços apenas para melhorar os números do IDEB, sem garantir aprendizagens significativas. Outra questão é tornar o indicador mais inclusivo, considerando também alunos que estão fora da escola e não apenas os que permanecem no sistema. Temos que olhar para quem está fora da escola também, o acompanhamento longitudinal que temos no Censo Escolar, permite que a gente consiga colocar na medida a grande parcela de estudantes o Brasil possui. Mesmo aqueles que passam pelo sistema educacional.

Monitorar a evasão entre anos letivos e garantir que a equidade seja um critério fundamental na avaliação da qualidade educacional são medidas essenciais para avançar.

E ter os aprendizados dessa série histórica, apreender com os erros. Podemos melhorar a padronização dos resultados de aprendizagem, a forma de apresentação do fluxo escolar, que são avanços importantes.

Diante das transformações educacionais do ensino, como equilibrar inovação e qualidade para garantir que os materiais didáticos continuem sendo ferramentas eficazes no aprendizado dos estudantes?

Para equilibrar inovação e qualidade na educação, as escolas nas redes de ensino podem adotar uma abordagem experimental e baseada em evidências, monitorando os resultados de aprendizagem dos alunos.

O uso de dados é muito importante, a introdução de novas metodologias e tecnologias deve ser acompanhada de monitoramento constante dos resultados de aprendizagem. Por meio de monitoramento, mas também por meio de uma escuta ativa de professores e alunos.

Nem todas as inovações exigem avaliações rigorosas para serem implementadas, mas é essencial criar uma cultura de monitoramento contínuo. Utilizar dados de aprendizagem e observações em sala de aula permite identificar o que está funcionando e fazer ajustes necessários. Dessa forma, a educação pode evoluir sem comprometer a qualidade do ensino e garantindo que os estudantes tenham uma aprendizagem significativa e transformadora.

É importante pensar em indicadores como algo contínuo, de forma cotidiana. Aprender com as experiências que estão sendo feitas nas escolas e ter insumo do que está funcionando e do que não está.