O caminho das leis e da leitura na era digital

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil – em sua sexta edição, divulgada no fim do ano passado e realizada pelo Instituto Pró-Livro com o apoio da Abrelivros , da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) trouxe um dado preocupante para um país que pretende desenvolver a formação profissional e a cidadania.

Pela primeira vez, desde o início da série histórica, há mais brasileiros não leitores, 53%, do que aqueles que, segundo a definição da pesquisa, são leitores: alguém que leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses (47%).

A queda no número geral de leitores veio acompanhada de outro dado inquietante: a sala de aula, que era um espaço de leitura para mais de um terço dos entrevistados (35%) em 2007, passou a ser um bom lugar para ler um livro para apenas 19% dos brasileiros.
O comportamento do leitor tem mudado não só aqui, mas no mundo em razão de alguns fatores, entre eles a expansão do uso excessivo de telas, especialmente o celular. É um fenômeno que ocupa o tempo dos usuários, seduzidos pelas atraentes possibilidades da tecnologia, mas que também provoca efeitos negativos.

Ao sentirem as consequências desta mudança, distintos atores têm buscado saídas para a proteção da sociedade, seja no âmbito individual, por exemplo em virtude do impacto na saúde mental da população, ou no coletivo, ao revisarem regras de convívio em instituições educacionais.

Em novembro, o Parlamento da Austrália aprovou uma lei inédita no mundo que proíbe o uso de redes sociais por adolescentes menores de 16 anos. Neste ano, no Brasil, o poder público federal publicou a Lei 15.100/25, que proíbe qualquer tipo de uso de aparelhos celulares por alunos dentro do ambiente escolar – ressalvado o uso pedagógico e de acessibilidade desde que orientado por profissional da educação.

O digital ocupou muito espaço e a sociedade se deu conta de que precisa rever e voltar atrás, para continuar avançando. Não se trata de defender medidas avessas à tecnologia – uma realidade importante e que faz parte da nossa vida – mas de preservar um repertório de sociabilidade e de capacidade de raciocínio que tem sido ameaçado. Muitas vezes, uma mudança na legislação vem para moldar hábitos arraigados e o futuro prova que a decisão foi acertada, como no caso da obrigatoriedade do uso de cinto de segurança, hoje plenamente assimilado em nossa sociedade e que, comprovadamente, salvou muitas vidas.

O livro é peça fundamental para oxigenar o pensamento, aprofundar a reflexão, exercitar a imaginação; enquanto a leitura pelo celular é carregada com a arquitetura dos algoritmos das redes sociais. Baseia-se na superficialidade do fácil deslizar de dedo que descarta telas e, ao mesmo tempo, prende-se a elas. Na avaliação de especialistas, como médicos, psicólogos e educadores, o celular tem sido apontado como um vício tão nocivo ao cérebro quanto seria um maço de cigarros para os pulmões. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 75% dos entrevistados afirmam ter lido um livro pelo celular, ambiente onde a leitura não é atrativa. Nesta concorrência, o livro digital tem briga desleal, pois o uso de telas acaba por promover a distração, diante da ampla oferta de redes e aplicativos. Vale ainda acrescentar que a popularização da inteligência artificial (IA) abre novo capítulo neste fragmentado enredo.

A formação educacional requer leitura profunda e concentração. E isso, ao que tudo indica, tem se perdido, vide os resultados de nossos alunos em exames internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), ou nacionais, como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

No Enem de 2024, apenas 12 alunos dos quase 3,2 milhões de participantes tiraram nota máxima na redação. Só um deles – uma estudante de Minas Gerais – alcançou o feito tendo vindo da escola pública, cuja rede de ensino atende 90% dos alunos brasileiros.

Quem tira a nota 1000 tem muita leitura e repertório, bases para a construção de uma formação cidadã e profissional sólida, seja humana ou técnico-científica. Nas disciplinas do Enem mais importantes para as carreiras que mais remuneram – como matemática e ciências da natureza – houve um declínio nas notas médias. O nível de leitura é importante mesmo em áreas exatas porque a solução de problemas sempre dependerá da compreensão do enunciado.

O Brasil precisa qualificar sua população economicamente ativa, uma tarefa mais difícil conforme os anos passam na vida do indivíduo. Como um recém-formado, seja médico, advogado, jornalista, vai abraçar sua carreira se não é um leitor? É impossível separar as carreiras nas quais posso ser leitor ou não leitor.

Um dado sintomático e preocupante da pesquisa é o fato de que estudantes do ensino médio, portanto aqueles que se aproximam do mercado de trabalho, leem menos do que os alunos do ensino fundamental.

Um dos grandes desafios das escolas públicas e particulares é como transformar alunos em leitores. E a retirada de celulares do espaço de ensino vem num bom momento. Mas tal medida precisa ser acompanhada de um conjunto de fatores.

Não dá para falar do estímulo à leitura sem mencionar a importância da família, da experiência do contato com pais, tios, avós, como leitores que incentivam o prazer de folhear os livros, dentro de casa. Mas sabemos que não é a realidade de todos os lares do Brasil, e especialmente dos alunos das escolas públicas brasileiras.

Por isso, a escola tem um papel mais do que relevante para a formação dos leitores. É fundamental, pelo conjunto de equipamentos, repertório e situações que proporciona, o que nos leva a outros dois fatores: a valorização do professor – capaz de incentivar a leitura, atividades de redação, entre outras ações – e da biblioteca. Num cruzamento realizado pelo Instituto Pró-Livro, observou-se que alunos de escolas que contam com bibliotecas têm desempenho melhor do que os de escolas que não possem um acervo de livros.

Temos visto muito incentivo do governo para a aquisição de livros para bibliotecas públicas ou salas de leitura, pelo PNLD, com uma combinação de livros didáticos e literários. É uma boa notícia, mas que precisa ser atrelada aos demais vetores que exercem função importante na formação de novos leitores. O livro também é uma tecnologia que chega ao aluno e o faz aprender a ler e escrever. Ajuda a refletir e imaginar. Favorece o pensamento crítico e a atitude ativa diante de tantos desafios que temos, individuais e de um país.

Por Ângelo Xavier, presidente da Associação Brasileira dos Editores de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros)