As profundas transformações que ocorrem no mundo contemporâneo têm provocado impactos em diversos setores da vida em sociedade, entre os quais a educação, com efeitos de longa duração para o desenvolvimento das nações e dos indivíduos. Em tempos de Inteligência Artificial, redes sociais e alterações estruturais no mundo do trabalho, a tarefa de ensinar e aprender passa por grande transformação.
Adaptações de métodos e abordagens são necessárias, especialmente para os alunos que já enfrentam as difíceis mudanças inerentes à sua faixa etária: os adolescentes. Entender o perfil e a realidade deste jovem está entre os motivos pelos quais a Abrelivros, com o objetivo de contribuir para o debate sobre a educação brasileira, escolheu o tema “Os Jovens e o Ensino Médio” para o Anuário 2025.
Em sua quarta edição, o Anuário Abrelivros 2025 destaca a importância do momento em que o país se mobiliza para a implementação da nova Política Nacional de Ensino Médio, e dá voz a especialistas e também, claro, aos jovens de várias partes do país. Em menos de dez anos, é a segunda grande reforma dessa etapa de ensino, que vem se apresentando como o segmento da Educação Básica com maiores desafios: desde questões como evasão, abandono, repetência, passando pelos métodos de aprendizagem até chegar aos indicadores abaixo das metas estabelecidas no Plano Nacional da Educação.
A escolha dos jovens e do Ensino Médio como tema para a edição de 2025 do Anuário Abrelivros também é pertinente pelo ciclo editorial do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). No próximo ano letivo, em 2026, as escolas já receberão os novos livros didáticos do PNLD, alinhados à Política Nacional de Ensino Médio.
Professores e estudantes terão materiais novos que trazem uma série de inovações, como a organização por componente curricular, voltando as obras por disciplina, os livros de projetos integradores e obras de Educação Digital, que abordam diferentes faces do tema, como o funcionamento das big techs, dos algoritmos e princípios de educação midiática para a promoção da cidadania digital.
O PNLD 2026–2029 traz ainda o retorno da Língua Espanhola e novas obras de Redação e de Educação Física para alunos (programas anteriores tinham obras apenas para professores). Isso representa um avanço importante na consolidação de uma proposta curricular mais conectada com as demandas contemporâneas da juventude.
Um dos maiores programas de distribuição de livros do mundo, com origem há quase 80 anos, o PNLD se renova e reafirma sua importância e função estratégica para o desenvolvimento do país. Em setembro, o processo de escolha dos novos livros foi finalizado e, segundo dados do Ministério da Educação, 96,34% das 20.493 escolas participaram da seleção, um recorde que demonstra que esses novos livros eram esperados pela rede de ensino.
As dimensões do programa, como nas edições anteriores do Anuário Abrelivros, podem ser verificadas na seção dedicada a apresentar os dados do PNLD, contextualizados pelos principais indicadores educacionais da educação pública do país.
Para além dos números, no entanto, o debate sobre a educação dos jovens deve contemplar o novo campo das competências socioemocionais. O desafio é constante, sobretudo com as mudanças de comportamento trazidas pelo uso intenso das redes sociais e a expansão da IA.
Não é possível mais separar a dimensão do ensino e da aprendizagem de outras faces inerentes ao adolescer, como um período de formação cada vez mais complexo. O currículo do Ensino Médio deve contemplar aspectos como a educação no contexto digital, o desenvolvimento socioemocional, a saúde física e mental e a boa convivência.
A adolescência é uma das etapas mais desafiadoras da vida humana. No Brasil, há 14 milhões de jovens entre 15 e 19 anos, idade esperada para o Ensino Médio. Desses, 6,7 milhões estão matriculados em quase 21 mil escolas públicas.
É uma população cheia de expectativas, angústias, sofrimentos e que, muitas vezes, não vê a escola como lugar de pertencimento e aprendizagem. O problema já não se reflete mais apenas nas preocupantes taxas de evasão, abandono ou repetência.
Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), entre jovens de 15 a 19 anos, as notificações por transtorno de ansiedade cresceram 3.300%, na última década. Neste cenário, o sonho de uma universidade e a entrada no mercado de trabalho competitivo, muitas vezes, se tornam um objetivo longínquo. Cerca de 9 milhões de jovens entre 15 e 29 anos não estudam nem têm uma ocupação. A proporção de brasileiros graduados, com 25 anos ou mais, atingiu 18,4% — bem abaixo dos 48% verificados nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Diante desse desafio, a Abrelivros põe-se ao lado de alunos, professores, diretores e gestores, para que continuemos a buscar novos caminhos, como o que se desenha com o novo Ensino Médio. Para que a rede escolar brasileira promova qualidade de ensino em um ambiente de bem-estar, que seja capaz de desenvolver a formação do pensamento autônomo e crítico, e também de apoiar os jovens na formação de sua identidade e prepará-los para um novo contexto individual e global.
*Ângelo Xavier é presidente da Abrelivros – Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais
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