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“Enfrentar a crise climática exige uma transformação cultural capaz de reorientar valores e decisões cotidianas”

Nesta edição, conversamos com Telma Teixeira, Coordenadora de Cooperação da Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI), sobre o papel da cultura como agente de transformação frente à crise climática.

A partir de programas que integram arte, educação e economia criativa, a OEI tem atuado em iniciativas internacionais que unem sustentabilidade e cultura, entre elas, o Programa Ibero-americano de Indústrias Culturais e Criativas, o Programa de Rotas Culturais Ibero-americanas e o Prêmio Escolas Sustentáveis, desenvolvido em parceria com a Fundação Santillana. Na entrevista, Telma nos conta como a cultura molda comportamentos, estimula novas mentalidades e promove mudanças sustentáveis, além de discutir o papel da cooperação internacional e da educação na formação de cidadãos comprometidos com o futuro do planeta.

 

A senhora poderia nos explicar por que a transformação cultural é um caminho eficaz para enfrentar a crise climática e quais trajetórias a OEI tem traçado para os próximos anos?

Enfrentar a emergência climática exige, além de soluções tecnológicas, uma transformação cultural capaz de reorientar valores, rotinas e decisões cotidianas. A cultura traduz conhecimento científico em sentido e prática social, moldando hábitos, sustentando narrativas de cuidado e reconhecendo protagonismos locais. Por isso, na OEI vemos a articulação entre cultura, ciência e educação como ação fundamental. É por meio do vínculo dessas áreas fundamentais que é possível fazer com que temas complexos se tornem mais tangíveis/acessíveis e mobilizadores, ao valorizar saberes tradicionais como parte das soluções, por exemplo.

Essa visão materializa-se em três eixos complementares e prioritários da nossa ação: incidência em políticas públicas para que a cultura seja formalmente integrada às agendas climáticas e educacionais; desenvolvimento de programas que conectam economia criativa e sustentabilidade, impulsionando cadeias de baixo carbono, economia circular e renda local; e promoção de iniciativas educacionais que convertem as escolas em laboratórios de práticas sustentáveis.

A convicção nessa união também foi pensada pela OEI em nossa ação rumo à COP30, onde estaremos presentes com o Ibero-América Viva, nosso eixo de visibilidade e cooperação, espaço para pensar ações concretas e compartilhar experiências e evidências de que cultura é, sim, política climática. Ali reuniremos atores públicos e sociais para cocriar, testar e avaliar propostas sustentáveis, com governança compartilhada e visão de longo prazo.

Será uma prévia dos diálogos e ações que queremos promover para os próximos anos. Nossos objetivos são claros neste sentido: consolidar indicadores de impacto cultural em mitigação e adaptação; internacionalizar programas de economia criativa de baixo carbono; ampliar as ações educacionais como base para o desenvolvimento sustentável; e fortalecer a cooperação intersetorial para transformar boas práticas em políticas públicas e promover hábitos sustentáveis.

 

Em relação às iniciativas de economia criativa, como a OEI tem convertido essas ações em resultados concretos, engajamento, geração de renda local e mudanças de hábitos, no âmbito do Programa Ibero-americano de Indústrias Culturais e Criativas?

A OEI tem desenvolvido iniciativas em práticas social e economicamente sustentáveis. Essa lógica se exemplifica claramente com o Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, o MICBR, política pública do Ministério da Cultura realizada em parceria com a OEI. Em 2023, o evento realizou rodadas de negócios com projeção superior a R$70 milhões em transações e, para 2025, já registra crescimento de mais de 60% nas inscrições em relação a 2023, um sinal claro de um ecossistema consolidado. Nosso papel é ampliar o MICBR, conectando empreendedores, artistas e instituições a mercados ibero-americanos, traduzindo essa relação em engajamento de públicos e geração de renda local.

Outro projeto que se destaca neste âmbito é o Co.liga, uma parceria da OEI com a Fundação Roberto Marinho, que prepara juventudes para o trabalho criativo com trilhas práticas que integram cultura, tecnologia e gestão, favorecendo empregabilidade, empreendedorismo e a adoção de rotinas produtivas mais responsáveis.

Essa mesma coerência orienta, mais uma vez, nossa presença rumo à COP30. Com o espaço Ibero-América Viva, teremos uma ampla programação que inclui debates sobre cadeias da sociobiodiversidade e ação climática baseada em cultura, aproximando governos, redes regionais e organismos internacionais. O objetivo é alinhar resultados de negócios e formação a métricas comparáveis, referenciais metodológicos e agendas de cooperação, consolidando mudanças de hábitos e fortalecendo a integração entre criatividade, desenvolvimento sustentável e políticas públicas focadas nas realidades dos territórios.

 

E sobre o Programa de Rotas Culturais Ibero-americanas, poderia nos explicar mais sobre ele e como se articula com escolas e redes de ensino para estimular comportamentos sustentáveis?

O Programa de Rotas Culturais Ibero-americanas, coordenado pela OEI e pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), é uma plataforma de cooperação que usa rotas e itinerários culturais como motores de desenvolvimento territorial e participação cidadã, com impacto social, educativo e econômico. Na educação, o programa se articula com escolas e redes de ensino por meio de formações e projetos situados no território, como ecomuseus e patrimônio vivo, aproximando currículos às comunidades para fortalecer hábitos de cuidado, tais como: consumo local, mobilidade, conservação e gestão de resíduos.

 

Neste mês, acompanhamos mais uma edição do Prêmio Escolas Sustentáveis (em parceria com a Fundação Santillana e Santillana). Quais evidências de aprendizagem e de mudança de hábitos ambientais a senhora destacaria? Como avalia o impacto dessa premiação?

Destaco três evidências nítidas nesta edição do Prêmio Escolas Sustentáveis. A primeira é a aprendizagem aplicada: escolas que incorporam sustentabilidade ao currículo e à gestão, com planos, metas e acompanhamento. A segunda é a mudança de hábitos dentro e fora do ambiente escolar, refletida em práticas de redução de resíduos, hortas, uso responsável de água e energia e participação das famílias. A terceira é a permanência das ações, fortalecida pelo reconhecimento público e pelo apoio financeiro, o que facilita a replicação em rede.

Um destaque deste ano foi o projeto colombiano “Metodologia de Pesquisa Socioambiental GCA”, eleito Projeto do Ano por transformar a escola em agente de impacto positivo, alinhado à política nacional de educação ambiental. Essa conexão entre cultura e clima também aparece entre os finalistas brasileiros: o “Sombra da Castanheira: Leitura e Sustentabilidade”, da EMEF Mariana Leão Dias (Tucuruí-PA), estará conosco no Ibero-América Viva, na COP30 (12/11), mostrando como leitura, memória e vínculo com o território sustentam resultados ambientais consistentes.

 

No apoio a políticas públicas no Brasil, como a OEI vem cooperando com MEC/SEB e FNDE para alinhar currículo, formação docente e materiais didáticos?

Assim como a cultura, entendemos a educação básica como eixo estratégico das políticas climáticas, pois é na escola que formamos cidadãos conscientes e engajados. Ao integrar educação climática ao currículo e à vida escolar, fortalecemos a capacidade institucional de enfrentar a crise com base em ciência, participação e justiça social. Por esta razão, desde 2009, a OEI coopera com o FNDE, autarquia responsável pela execução das políticas educacionais do MEC, em ações de formulação e implementação de políticas públicas, com ênfase na qualidade, equidade e inclusão. Essa trajetória se reflete no apoio a planos e programas estruturantes da educação brasileira.

Redação Abrelivros

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