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“Ter escolaridade formal não tem garantido o domínio de habilidades digitais básicas.”

A Abrelivros em Pauta conversa com Carla Chiamareli, uma das responsáveis pela coordenação da mais recente edição do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), estudo amostral que avalia as competências de leitura, escrita e matemática em situações do cotidiano. Realizada pela Ação Educativa e pela consultoria Conhecimento Social, a edição de 2024 contou com co-realização da Fundação Itaú e parcerias com a Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Unesco e Unicef. Foram entrevistados 2.554 brasileiros entre 15 e 64 anos, e os resultados estão disponíveis para consulta pública.

Após seis anos, o estudo foi atualizado para refletir os novos desafios do letramento no Brasil, incorporando pela primeira vez a dimensão digital como parte essencial do alfabetismo. Os dados revelam um cenário preocupante: 29% da população entre 15 e 64 anos permanece como analfabeta funcional, sem avanços desde 2018. Entre os jovens de 15 a 24 anos, o índice piorou, reflexo direto das perdas educacionais durante a pandemia.

A aplicação de testes em papel e ambiente digital revelou ainda que 25% dos participantes apresentaram baixo desempenho em tarefas online, indicando defasagens mesmo entre pessoas com escolaridade formal. Nesta edição, Carla Chiamareli comenta os principais achados da pesquisa e discute os desafios atuais para promover o letramento funcional e a inclusão digital no Brasil.

 

O INAF 2024 revelou que 29% da população segue como analfabeta funcional, sem avanços desde 2018. A que a senhora atribui essa estagnação, mesmo após anos de ampliação do acesso à educação formal no Brasil?

Essa estagnação pode ser explicada por múltiplos fatores, mas dois pontos merecem destaque. O primeiro é geracional: uma parte expressiva dessa população está na faixa etária de 50 a 64 anos, que não teve acesso à educação básica na idade certa. Isso evidencia a urgência de fortalecer políticas como a Educação de Jovens e Adultos (EJA), garantindo que o direito à educação seja de fato assegurado ao longo da vida.

O segundo ponto diz respeito à qualidade do ensino oferecido nas últimas décadas. Ainda que tenhamos avançado na universalização do acesso, os dados mostram que a permanência na escola nem sempre se traduz em aprendizagem efetiva. O elevado percentual de pessoas no nível elementar de alfabetismo, especialmente entre os jovens, sugere que precisamos avançar para uma agenda que priorize a qualidade, com foco no letramento e no desenvolvimento integral.


Uma das novidades desta edição foi a incorporação da dimensão digital ao teste. Como a senhora avalia os dados que mostram baixo desempenho digital entre pessoas com escolaridade formal?

Os dados reforçam uma desconexão preocupante entre o conteúdo escolar e as competências exigidas no cotidiano digital. Ter escolaridade formal não tem garantido, necessariamente, o domínio de habilidades digitais básicas.

A alfabetização digital no século XXI precisa estar ancorada em competências humanas mais amplas, como pensamento crítico, comunicação eficaz, adaptabilidade e pensamento sistêmico. Afinal, estamos vivendo uma transição profunda, em que a relação pessoa-máquina e sociedade redefine o modo como produzimos conhecimento e construímos nossas memórias sociais. Preparar a população para essa realidade exige desenvolver não só o uso técnico das ferramentas, mas também a consciência ética, criativa e responsável sobre sua aplicação.


Os porta-vozes do estudo têm destacado recentemente a urgência de um “pacto pela matemática”. Quais seriam os primeiros passos concretos para a construção desse pacto e que tipo de mobilização o setor privado pode liderar nesse processo?

O pacto pela matemática vai muito além da melhoria em avaliações. Trata-se de um chamado para reencantar o ensino da disciplina, promovendo o pensamento lógico, a resolução de problemas do cotidiano e o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens. Para isso, é fundamental ressignificar a matemática em diálogo com a tecnologia e com os desafios contemporâneos, tornando-a mais conectada com a realidade e significativa para os estudantes.

O setor privado pode exercer um papel estratégico nesse processo, liderando iniciativas de produção de conhecimento, desenvolvimento de metodologias inovadoras e implementação de projetos-piloto em parceria com o poder público. A construção desse pacto exige colaboração intersetorial, e o setor privado tem potencial para impulsionar soluções que aliem inovação, escala e compromisso com a equidade educacional, contribuindo efetivamente para transformar a experiência da matemática nas escolas brasileiras.


A pesquisa evidencia um agravamento nos índices de alfabetismo funcional entre jovens de 15 a 24 anos, possivelmente em função da pandemia. Que tipo de política pública ou iniciativa da sociedade civil pode enfrentar esse cenário de forma mais eficaz?

A pandemia acentuou desigualdades já existentes e aprofundou déficits de aprendizagem, especialmente entre os mais jovens. A reversão desse cenário exige políticas públicas articuladas em torno da recuperação da aprendizagem e do fortalecimento da permanência escolar.

É essencial investir em programas de recomposição de aprendizagem com foco em letramento e matemática, integrados a atividades artísticas e culturais, articuladas ao território e as organizações da sociedade civil, que motivem o estudante a permanecer na escola.


Considerando que apenas 10% da população brasileira é considerada proficiente em leitura, escrita e matemática, como a Fundação Itaú pretende atuar, a partir dos resultados do INAF, para contribuir com políticas estruturantes de letramento e inclusão digital?

Os resultados do INAF escancaram a urgência de garantir a todas as pessoas o direito de compreender, interpretar e atuar no mundo com autonomia. Para a Fundação Itaú, isso passa por uma atuação em rede, junto ao poder público e à sociedade civil, apoiando políticas de letramento que integrem competências cognitivas e digitais com habilidades humanas essenciais.

Não se trata apenas de ensinar a ler, escrever ou usar tecnologias. Trata-se de formar sujeitos capazes de pensar criticamente, colaborar, comunicar-se com empatia, adaptar-se a mudanças e participar da construção de um mundo mais justo e sustentável. Nesse cenário de transformação acelerada, marcado pela revolução tecnológica e pela emergência climática, acreditamos que o compromisso com a aprendizagem ao longo da vida e com o desenvolvimento integral é o caminho para promover equidade.

Redação Abrelivros

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