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Saiba quantos Maracanãs seriam lotados com os faltosos do Enem

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) terminou seu segundo dia de provas com o maior percentual de faltas desde sua reformulação em 2009. Foram 32% de ausentes ao todo. O recorde acontece exatamente na edição com mudanças. A avaliação passou a ser feita em dois domingos e os `treineiros` não podem mais ter acesso às suas notas antes do Sistema de Seleção Unificado (Sisu).

— A média histórica é em torno de 30%. O número que foi divulgado no primeiro dia, na revisão, chegamos a 29,8% e historicamente o primeiro dia tem menos abstenção que o segundo dia. Então, (o percentual de faltosos) repete um comportamento mais ou menos padrão de anos anteriores — minimizou Mendonça Filho, ministro da Educação, durante coletiva após a aplicação do Enem.

Em números absolutos, foram 2.006.825 faltosos. Isso equivale a 25 Maracanãs lotados ou 20 vezes a média de público da edição deste ano do Rock in Rio. Apesar dos números em grande escala, o maior impacto segundo Renato Janine Ribeiro, professor da Universidade São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação, é ambiental.

Foram 60.204.750 páginas do caderno de respostas que sequer foram rabiscadas e, agora, não possuem mais serventia.

— O primeiro impacto é o ambiental. A produção de cadernos de questão é feita a partir do número de inscritos. Estamos falando, portanto, de dois milhões de cadernos de 20 ou 30 páginas que não vão ser utilizados. Imagina isso em árvores? — indaga Renato Janine.

Isso significa que mais de 3 mil eucaliptos, a principal árvore para produção de papel, foram cortadas. Esta é a média anual de cortes de árvores da prefeitura de Porto Alegre em um ano.

O Inep informa que todos os cadernos de prova e cartões de resposta são recolhidos e arquivados posteriormente.

Outra questão apontada, com cautela, pelo ex-ministro é a econômica. Com cerca de 70% dos candidatos isentos do pagamento da inscrição, muitos dos faltosos causam prejuízo aos cofres públicos.

— A isenção tem que existir, é fundamental. Mas é preciso ter consciência. Um aluno que é isento e falta a prova sem justificativa causa prejuízo. Esse dinheiro poderia ter sido usado para outras demandas sociais — pondera o ex-ministro que, em sua gestão, formulou uma portaria que retirava o direito de isenção no ano posterior, caso o estudante faltasse a prova sem justificativa. — Essa era uma das medidas para combater isto. Não sei se teve continuidade — lamenta.

A portaria 483, segundo o Inep, continua valendo. No ano em que foi decretada, o Enem teve seu menor percentual de faltas (25%), mas nas edições seguintes o patamar voltou aos tradicionais 30%. Janine estranha que os indicadores permaneçam altos apesar da portaria.

— Infelizmente, muitas vezes os decretos que fazemos não ganham reflexo na realidade. Não estou mais no ministério para saber se a portaria está sendo aplicada. Mas é estranho que esse percentual permaneça alto com essa norma — analisa Janine.

Os motivos para essas faltas são variados e especialistas evitam cravar certezas. O próprio Inep também se manifesta pouco sobre o tema.

—O Brasil é grande e cada região vai encarar o Enem de forma diferente. É difícil pontuar pontos para as faltas no Rio e no Amazonas ao mesmo tempo. O importante é analisar porque candidatos que tiveram isenção na inscrição ainda faltam. Essa ausência pode demonstrar que a tão falada democratização que o Enem diz trazer, na verdade não é bem assim. Se o candidato não se vê passando na prova, por quê vai fazê-la — analisa Miguel Rugento, professor de Educação da PUC.

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