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“Precisamos acreditar mais que toda criança pode aprender”

Neste mês, a Abrelivros em Pauta conversa com Nicole Piedra, diretora executiva do Laboratório de Educação (Labedu), sobre a importância de monitorar a implementação de políticas e programas educacionais. Com base em pesquisas desenvolvidas em parceria com o David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS), da Universidade Harvard, ela defende que não basta avaliar se uma política funciona: é preciso compreender como, em que condições e em que contextos, ela gera resultados. Para Nicole, acompanhar a forma como práticas pedagógicas são apropriadas por professores, gestores e redes de ensino é fundamental para que as políticas públicas se traduzam em transformações efetivas na aprendizagem.

O Labedu desenvolve metodologias que promovem a melhoria de práticas educativas nos sistemas públicos de ensino. Na sua visão, qual o maior desafio hoje na educação das crianças de zero a 10 anos no país?

O maior desafio continua sendo assegurar condições para que todas as crianças, independentemente da realidade socioeconômica, regional ou étnico-racial, possam se desenvolver plenamente.

Sabemos o que esperamos como resultado de cada fase da escolarização, temos uma BNCC consolidada, sistemas de avaliação e materiais didáticos. Por que, então, é tão difícil incidir nas aprendizagens?

Acredito que seja porque nenhuma política ganha vida sem que os educadores, de ponta a ponta, tenham as ferramentas, os conhecimentos e o suporte para agir com autonomia e coerência, garantindo a implementação cotidiana de práticas que construam aprendizagem para todos.

Isso passa pela formação inicial e continuada, mas também pelas condições de trabalho e pela estrutura que os sistemas são capazes de oferecer: oportunidades para que professores e gestores sejam mais do que executores e se tornem corresponsáveis pela qualificação constante do fazer pedagógico, especialmente nos territórios mais distantes e vulneráveis.

O Indicador Criança Alfabetizada 2025 mostrou que, em 2025, o país alcançou a marca de 66% de crianças alfabetizadas ao fim do 2º ano do Ensino Fundamental, ligeiramente acima da meta de 64%. Mas isso ainda não é pouco? Como romper essa barreira?

Depende do ângulo. O desafio de inserir todas as crianças e os jovens na cultura escrita é profundo e histórico. Nos últimos anos, muitos municípios e estados têm se mobilizado, de forma articulada e coordenada, para melhorar seus indicadores, o que tem mérito.

Contudo, nem todas as secretarias de educação têm a mesma estrutura para apoiar a atuação cotidiana de professores e professoras, de modo que suas práticas assegurem as aprendizagens esperadas.

É necessário construir uma infraestrutura de implementação para apoiar esses territórios, não apenas pressioná-los a melhorar índices. Nos municípios e regiões com maior vulnerabilidade, é preciso contar com equipes dedicadas especificamente ao fortalecimento de quem faz a educação acontecer no dia a dia, oferecendo formação e acompanhamento para que as equipes escolares possam se desenvolver profissionalmente e aprimorar suas práticas.

Qual a importância de monitorar a implementação de políticas e programas educacionais? O que é mais importante ser avaliado nesse monitoramento?

O Brasil investe de maneira sólida em avaliação, mas ainda não dedica a mesma atenção à cultura do monitoramento. Para que haja uma mudança no patamar de qualidade da educação, é indispensável mapear os mecanismos que promovem transformações em escala até chegar a cada sala de aula. Isso envolve uma série de relações intermediárias, nas quais a ação de cada ator impacta o nível mais próximo do território.

No Labedu, desenvolvemos um conjunto de referências conceituais e práticas ao longo da última década para apoiar estados e municípios nesse monitoramento, integrando a formação dos diferentes profissionais do sistema educacional.

Formação e monitoramento são instrumentos potentes para a implementação de políticas públicas quando atuam de forma integrada e são pensados não apenas a partir do rigor metodológico dos instrumentos, mas também de suas finalidades: correção de rota, oportunidades de aprendizagem, aprimoramento de processos e ampliação da aprendizagem em todos os níveis.

Quais as principais conclusões de pesquisas feitas em parceria entre o Labedu e o DRCLAS-Harvard?

Um primeiro achado mostra que a formação continuada, com duração prolongada e aprofundamento em conhecimentos pedagógicos essenciais, funciona: nos municípios onde as formações aconteceram com mais regularidade, as práticas docentes observadas foram melhores.

Outro destaque é o papel do monitoramento como elemento decisivo para tornar a formação mais efetiva, porque há uma relação positiva entre as observações em sala de aula e a melhoria da prática docente.

Assim, chegamos à principal conclusão do estudo: formação e monitoramento se retroalimentam. Quanto mais observações uma rede faz, mais encontros formativos os articuladores realizam, e vice-versa.

Isso só é possível porque, no nosso modelo, a profissional da secretaria que observa a sala de aula é a mesma que planeja e conduz os encontros de formação docente, e tudo isso faz parte do seu desenvolvimento profissional. É exatamente aí que o monitoramento se torna uma alavanca para a corresponsabilização: uma relação de responsabilidade compartilhada entre o estado, os municípios e as escolas pela qualidade da Educação Infantil.

Com isso, conseguimos medir os efeitos que chegam às crianças: quanto mais intencionais e qualificadas são as intervenções docentes, mais elas passam a perguntar, formular hipóteses e relacionar ideias, exatamente as habilidades que, mais à frente, aparecem nas avaliações externas de alfabetização.

A base de atuação do Labedu é o Toda Criança Pode Aprender. Na sua opinião, o que pode melhorar no papel das famílias, das escolas e dos professores nesse processo de aprendizagem?

Precisamos acreditar mais que toda criança pode aprender. Essa é uma premissa que nem sempre está garantida. Por isso, o Labedu atua para ajudar famílias e educadores a experimentarem situações em que a criança tenha espaço, escuta e curiosidade para formular suas próprias hipóteses, dialogar, ampliar, rever e revisitar essas ideias, sendo realmente sujeito ativo da própria aprendizagem.

Para isso, é necessário acesso a conhecimentos científicos, mas também a saberes que dialoguem com as práticas reais. Não basta saber que as crianças passam por processos de desenvolvimento neurológico, cognitivo e linguístico; é preciso traduzir isso para os adultos mediadores da aprendizagem, mostrando como esses processos se manifestam no dia a dia de um bebê ou de uma criança pequena.

Redação Abrelivros

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