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O setor editorial deve abraçar a IA como um complemento, não como um substituto à criatividade humana

No momento em que encerra sua gestão à frente da International Publishers Association (IPA), Karine Pansa faz uma reflexão sobre os desafios do mercado editorial. Nesta entrevista à Abrelivros em Pauta, a executiva diz que a defesa do direito autoral é uma missão contínua e essencial para garantir o futuro do livro e da produção editorial num mundo cada vez mais digital e tecnológico. “Reforçar a proteção ao direito autoral é essencial para equilibrar o acesso ao conhecimento com a justa remuneração de autores e editores”, resume. Ela faz ainda um balanço de sua gestão à frente da IPA, fala da importância de se expandir o mercado leitor e afirma que a Inteligência Artificial (IA) deve ser encarada como um complemento e não como um substituto à criatividade humana.

1. A sua gestão na presidência na International Publishers Association (IPA) chegou ao fim neste ano. Quais foram os principais desafios enfrentados e as conquistas que você considera mais significativas para o fortalecimento do mercado editorial global?

Minha gestão na presidência da IPA começou em um momento de transição, logo após a pandemia, em 2023. Este período trouxe desafios únicos, pois a indústria editorial global ainda estava se recuperando das disrupções na cadeia de produção, nos hábitos de leitura e nas práticas de negócios. Além disso, houve a necessidade de reforçar a conexão entre as diferentes regiões, com o objetivo de promover o diálogo e o fortalecimento do setor.

Um dos principais desafios que enfrentamos foi a falta de dados globais confiáveis e comparáveis sobre o mercado editorial. É evidente que, para apoiar o setor de forma eficaz e influenciar políticas públicas, precisamos de dados consistentes e abrangentes que mostrem a realidade da indústria em diferentes regiões. A ausência desses dados limita análises profundas e a elaboração de estratégias eficazes.

Entre as conquistas, destaco os avanços no fortalecimento dos debates sobre direitos autorais e liberdade de publicação, além da ampliação do foco e trabalhos específicos sobre diversidade, inclusão e sustentabilidade.

2. Você tem sido uma defensora firme dos direitos autorais. Como avalia o impacto dessas iniciativas para a sustentabilidade do mercado editorial em um contexto de crescente digitalização e acesso irrestrito a conteúdos?

Os direitos autorais são fundamentais para a sustentabilidade do mercado editorial e a garantia de um ecossistema criativo saudável. Em um mundo cada vez mais digitalizado, onde o acesso irrestrito a conteúdos tem se tornado uma realidade, reforçar a proteção ao direito autoral é essencial para equilibrar o acesso ao conhecimento com a justa remuneração de autores e editores.

Durante minha presidência na IPA, um dos focos foi destacar o papel estratégico do direito autoral como uma ferramenta de proteção, não apenas para o criador, mas para toda a cadeia do livro. Em um contexto onde a pirataria digital cresce exponencialmente, o fortalecimento das legislações e das políticas de proteção ao direito autoral é indispensável para assegurar que o setor editorial continue inovando e produzindo conteúdos de alta qualidade.

O trabalho da IPA em colaboração com a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO, na sigla em inglês) foi crucial nesse sentido. Foram promovidas iniciativas de conscientização global sobre a importância do direito autoral e apoiamos o desenvolvimento de tratados internacionais que buscassem um equilíbrio entre o acesso e a proteção. Um exemplo notável é o Tratado de Marrakesh, que demonstra como é possível ampliar o acesso a conteúdos para pessoas com deficiência visual sem comprometer os direitos dos criadores.

Outro ponto importante dessa colaboração foi a criação de espaços de diálogo com governos e legisladores, especialmente em mercados emergentes, para garantir que o direito autoral seja adaptado às demandas do ambiente digital. É necessário promover licenças flexíveis que permitam o compartilhamento responsável de conteúdos, preservando o valor da criação intelectual.

O impacto dessas iniciativas é claro: elas ajudam a proteger a criatividade e a inovação, pilares centrais da indústria editorial, ao mesmo tempo em que garantem que o mercado continue sendo economicamente viável e culturalmente relevante. A defesa do direito autoral é, portanto, uma missão contínua e essencial para o futuro do livro em um mundo digital.

3. Sendo uma editora de livros infantis e com sua experiência à frente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da IPA, quais estratégias acredita serem mais eficazes para ampliar o acesso à leitura e promover o hábito de leitura entre as novas gerações?

Ampliar o acesso à leitura entre as novas gerações exige uma abordagem abrangente e de longo prazo. Em primeiro lugar, é essencial investir em conteúdos que dialoguem com os interesses e as realidades das crianças e jovens, tornando a leitura uma experiência prazerosa e relevante.

Além disso, políticas públicas que garantam o acesso ao livro, como a criação de bibliotecas escolares e públicas bem equipadas, são fundamentais. A IPA também tem defendido que o acesso à leitura deve ser visto como um direito universal, e isso inclui buscar formas de levar livros para regiões menos favorecidas, seja por meio de parcerias públicas ou privadas.

4. A Inteligência Artificial tem transformado diversos setores, incluindo o editorial. Quais oportunidades e riscos você enxerga para os editores diante dessa nova tecnologia, e como o setor pode se adaptar para aproveitar os benefícios sem comprometer a criatividade e a autoria?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa para o setor editorial, trazendo oportunidades incríveis, como automação de processos, personalização de conteúdos e melhorias no marketing direcionado. Além disso, ela também pode ajudar a democratizar o acesso a conteúdos e facilitar as rotinas de produção, tornando-as mais ágeis.

Porém, os riscos associados à IA também são significativos. Questões relacionadas aos direitos autorais de conteúdos gerados por IA e ao impacto na criatividade humana ainda estão em debate. A colaboração da IPA com as entidades do livro de cada região será crucial para enfrentar esses desafios, desenvolvendo políticas que abordem o uso ético da IA no setor editorial, protegendo tanto os autores como os editores.

O setor deve abraçar a IA como um complemento, não como um substituto à criatividade humana. Para isso, é importante definir diretrizes claras e investir em treinamentos que ajudem os profissionais a integrar a tecnologia de forma equilibrada, mantendo o respeito à autoria e aos valores centrais da indústria.

5. Como você vislumbra o futuro do mercado editorial nos próximos cinco anos?

O futuro do mercado editorial será influenciado por uma combinação de inovação tecnológica, maior foco em sustentabilidade e o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao livro e à leitura. Esses aspectos, embora interconectados, exigem estratégias distintas e bem planejadas para garantir que a indústria continue a crescer e atender às necessidades dos leitores.

No campo da tecnologia, a digitalização e a inteligência artificial continuarão a transformar a maneira como os livros são produzidos, distribuídos e consumidos. Ferramentas de IA podem ser utilizadas para processos como edição, personalização de conteúdos, permitindo uma experiência mais rica e acessível para leitores. No entanto, é essencial que o mercado editorial adote essas tecnologias de forma ética, garantindo que os direitos de autores e editores sejam protegidos e que a criatividade humana permaneça no centro do processo de criação.

A sustentabilidade, por sua vez, será um elemento indispensável para o futuro do setor. Com o aumento da conscientização sobre as questões ambientais, tanto consumidores como empresas estão demandando práticas mais responsáveis. Isso inclui o uso de materiais recicláveis, a redução de desperdícios na produção de livros e o incentivo a cadeias de suprimentos mais verdes. Além disso, editoras e organizações precisam buscar formas de equilibrar a sustentabilidade econômica e ambiental, garantindo que a produção de livros continue acessível e viável em mercados diversos.

O fortalecimento de políticas públicas voltadas à leitura e ao livro também será um fator decisivo. Governos em todo o mundo têm um papel fundamental no incentivo à leitura por meio de programas de distribuição de livros, investimentos em bibliotecas públicas e iniciativas que promovam o acesso universal à educação. Também não podemos esquecer da importância de criar marcos regulatórios que protejam os direitos autorais enquanto garantem o acesso responsável ao conhecimento, especialmente em mercados emergentes.

Outro aspecto que merece atenção é a crescente demanda por dados confiáveis e comparáveis sobre o mercado editorial global. A coleta e análise de dados são fundamentais para embasar decisões estratégicas, identificar tendências e adaptar práticas regionais ao contexto global. A falta de informações padronizadas ainda é um desafio significativo, mas iniciativas lideradas por organizações regionais e a IPA podem contribuir para preencher essa lacuna.

Em resumo, o futuro do mercado editorial dependerá da capacidade do setor de inovar sem perder sua essência, adotando tecnologias de maneira responsável, promovendo práticas sustentáveis e colaborando com governos e instituições para criar políticas que democratizem o acesso ao livro e à leitura. Trata-se de um futuro dinâmico, com desafios e oportunidades que exigirão colaboração e visão estratégica de todos os atores envolvidos.

Redação Abrelivros

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