No mês passado, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, tivemos a honra de lançar o Anuário Abrelivros 2024, uma importante referência para o setor educacional e editorial, especialmente com relação ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). O Anuário deste ano trouxe uma atualização completa dos dados sobre a distribuição de livros em todas as regiões do Brasil, destacando, pela primeira vez, a inclusão do PNLD Literário, uma conquista que reforça a importância da literatura na formação de nossas crianças e jovens.
Com o tema “O Desafio da Leitura”, um dos grandes destaques do Anuário foi o papel fundamental que a leitura desempenha no desenvolvimento acadêmico. Em um mundo cada vez mais tecnológico, onde os avanços da Inteligência Artificial anunciam uma nova fase da revolução digital, a competência leitora — uma habilidade essencialmente humana — ainda se apresenta como um desafio a ser superado globalmente. Obstáculos persistem na formação universal de bons leitores, capazes de atingir níveis mínimos de proficiência.
De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em todo o mundo, 617 milhões de crianças e adolescentes não sabem ler, o que significa que não atingem o nível mínimo necessário para ir além das competências funcionais e informativas básicas. No Brasil, a situação é particularmente preocupante. Na edição de 2021 do Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS), os alunos brasileiros alcançaram classificação inferior à 58ª posição entre os 65 países participantes. O exame revelou que 38% dos nossos estudantes do 4º ano não dominavam as habilidades mais elementares de leitura. Isso inclui a incapacidade de recuperar e reproduzir uma informação explicitamente declarada no texto, demonstrando uma grave deficiência na compreensão de leitura básica.
Agravada pelo uso excessivo de telas, a deficiência na leitura tem gerado impactos preocupantes nas escolas. Estudantes estão cada vez mais expostos a distrações digitais, o que levou a um movimento recente em diversos estados de proibir o uso de celular nas escolas. Mas, não custa reforçar, na jornada de aprofundamento da aprendizagem, é fundamental combinar o uso de livros físicos e digitais em sala de aula. Essa integração fortalece o trabalho dos professores, oferecendo múltiplas ferramentas para enriquecer o ensino. E o livro escolar, especialmente o didático, aliado à literatura, torna-se ferramenta indispensável para melhorar os níveis de escolarização e leitura em nossas escolas.
Considerando que hoje, 90% dos alunos estão matriculados na rede pública, com 37,9 milhões de estudantes, fica evidente que o PNLD é um programa essencial para fomentar a leitura e o conhecimento de crianças e jovens brasileiros. O material didático continua sendo uma peça central no sistema educacional brasileiro. Ou seja, é importante ampliarmos o acesso aos conteúdos físicos e digitais.
Nesse sentido, uma das pautas prioritárias da Abrelivros, com destaque no Anuário, é a defesa contundente de que o PNLD tenha seus recursos orçamentários assegurados de forma obrigatória. Atualmente, o orçamento do PNLD é despesa discricionária, sujeita a cortes e contingenciamentos. Tornando-a obrigatória, seu orçamento estará mais protegido, e as editoras terão mais segurança para realizar seus investimentos. Nossa meta é transformar essa proposta em lei, com o apoio de parlamentares, para garantir que o PNLD continue a fornecer os livros, associados aos recursos digitais necessários.
Também vale enfatizar que, diante da sanção da nova reforma do Novo Ensino Médio, aprovada pelo Congresso Nacional, temos o desafio imediato da produção de novos livros didáticos para essa etapa de ensino para que os jovens brasileiros tenham os materiais disponíveis em sala de aula em 2026, passada a etapa da escolha das obras pelas escolas no início do segundo semestre de 2025.
Temos a convicção de que o sucesso do PNLD e o consequente avanço na educação brasileira exige organização, planejamento e compromisso firme por parte da sociedade como um todo. A Abrelivros seguirá atenta e atuante nas discussões sobre o futuro da educação e do livro didático no Brasil, defendendo a valorização da leitura e o papel fundamental dos professores e gestores nesse processo.
Ângelo Xavier – Presidente da Associação Brasileira do Livro e Conteúdo Educacional
Uma história pode começar antes mesmo da primeira palavra: na capa colorida que desperta a…
O Instituto Alana, a União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação (Uncme), a União Nacional…
A cada disputa presidencial, o Brasil tem a oportunidade de definir prioridades e estabelecer compromissos…
Na Abrelivros em Pauta deste mês, Braulio Takahashi fala sobre o avanço da inteligência artificial…
A Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros) lançou, no dia 4 de setembro,…
Às vésperas de uma eleição que levará cerca de 125 milhões de brasileiros às urnas…