{"id":988,"date":"2005-04-14T13:46:00","date_gmt":"2005-04-14T16:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/2005\/04\/14\/relatorio-da-crise\/"},"modified":"2005-04-14T13:46:00","modified_gmt":"2005-04-14T16:46:00","slug":"relatorio-da-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/relatorio-da-crise\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio da Crise"},"content":{"rendered":"<p>Depois de alguns meses de espera, finalmente est\u00e1 pronta a pesquisa encomendada por Carlos Lessa, quando ainda era presidente do BNDES, sobre a economia do livro no Brasil. Desenvolvida pelos economistas F\u00e1bio S\u00e1 Earp e George Kornis entre mar\u00e7o e novembro de 2004, ela virou um calhama\u00e7o de 500 p\u00e1ginas. Enquanto n\u00e3o \u00e9 transformada em e-book e disponibilizada no site do banco, voc\u00ea pode ler no <a href=\"http:\/\/portalliteral.terra.com.br\/Literal\/calandra.nsf\/0\/1FF581655363627F03256FE1005D6DFD?OpenDocument&#038;pub=T&#038;proj=Literal&#038;sec=Especial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Portal Literal<\/a> as principais propostas apresentadas e os n\u00fameros levantados pelo relat\u00f3rio. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Eles revelam que a ind\u00fastria editorial est\u00e1 em crise. As vendas de livros, desde o Plano Real, ca\u00edram pela metade. As editoras se multiplicam ao mesmo tempo em que livrarias s\u00e3o fechadas. Segundo n\u00fameros de 2004, temos hoje no pa\u00eds 1.400 livrarias, metade do n\u00famero de editoras. O processo de fus\u00e3o e as aquisi\u00e7\u00f5es de algumas empresas editoriais brasileiras revelam que o segmento gr\u00e1fico-editorial foi fortemente concentrado e desnacionalizado nos \u00faltimos tr\u00eas anos. \u201c\u00c9 um setor que trabalha hoje com a mais pura l\u00f3gica de cartel\u201c, comenta Kornis.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para reverter este quadro, os economistas sugerem o investimento em bibliotecas, sobretudo universit\u00e1rias, a institui\u00e7\u00e3o do vale-livro, que beneficiaria alunos de baixa renda, e barateamento do pre\u00e7o final dos livros t\u00e9cnico-cient\u00edficos, aumentando a escala de produ\u00e7\u00e3o com subs\u00eddios e com a taxa\u00e7\u00e3o de equipamentos utilizados na pirataria, como as m\u00e1quinas de fotoc\u00f3pia. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Das 13 propostas apresentadas ao final da pesquisa, seis s\u00e3o exclusivamente para a conduta do banco que, por uma quest\u00e3o de sigilo profissional, os economistas n\u00e3o podem detalhar. Mas, em linhas gerais, adiantaram que o BNDES estuda a oferta de um cr\u00e9dito para as editoras que poderia ser usado para a compra de papel e ajustes.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Das outras sete propostas, a principal \u00e9 que seja destinado \u00e0s bibliotecas o mesmo valor que o governo gasta com a compra de livros did\u00e1ticos para os alunos: R$ 450 milh\u00f5es por ano. \u201cEsta verba seria concentrada em 50 bibliotecas universit\u00e1rias, mais as duas grandes, a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e a Biblioteca M\u00e1rio de Andrade, em S\u00e3o Paulo. Qual a vantagem da biblioteca universit\u00e1ria? Ela vai atuar em todos os mercados, com exce\u00e7\u00e3o do religioso. Ela compra livro t\u00e9cnico-cient\u00edfico, obras gerais \u2013 tanto literatura como livros de refer\u00eancia \u2013 e, sobretudo, \u00e9 uma compradora descentralizada, que pode abrir uma concorr\u00eancia entre livrarias. Esse \u00e9 o ponto crucial: livro se compra em livrarias\u201c, diz S\u00e1 Earp. Segundo ele, o MEC j\u00e1 se acostumou com a negocia\u00e7\u00e3o editora por editora, o que n\u00e3o \u00e9 um bom neg\u00f3cio como parece. \u201cA curto prazo n\u00e3o tem como alterar isso. Mas, para a sa\u00fade do mercado do livro brasileiro, a compra tem que ser descentralizada. Pelo menos um ter\u00e7o das compras de livros de qualquer biblioteca deveria ser feitas em livrarias regionais, do pr\u00f3prio estado, para fortalecer o varejo local\u201c, afirma. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Al\u00e9m do vale-transporte e do vale-refei\u00e7\u00e3o, os economistas sugerem a cria\u00e7\u00e3o de vale-livros. Eles seriam oferecidos para estudantes de baixa renda nas universidades. \u201cCom o sistema de cotas, vamos colocar um estudante que n\u00e3o tem dinheiro na universidade. Como ele vai comprar livros?\u201c, questiona o economista. O programa inicial beneficiaria 60 mil estudantes. Destes, 20 mil na \u00e1rea de humanas, 20 mil na \u00e1rea t\u00e9cnico-cient\u00edfica, e outros 20 mil na \u00e1rea de ci\u00eancias da sa\u00fade.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O relat\u00f3rio aponta que \u00e9 fundamental baratear o livro, aumentando a escala de produ\u00e7\u00e3o. \u201cMas para isso \u00e9 preciso haver subs\u00eddio, porque o livro \u00e9 caro demais para o bolso do consumidor\u201c, adverte S\u00e1 Earp. Hoje o governo gasta R$ 450 milh\u00f5es comprando livro para estudantes pobres. O relat\u00f3rio prop\u00f5e que outros R$ 450 milh\u00f5es sejam direcionados para as bibliotecas. E mais R$ 250 milh\u00f5es para outros programas, o que implicaria em aumentar a despesa com a compra de livros de R$ 450 milh\u00f5es para R$ 1,1 bilh\u00e3o. \u201cIsso teria que ser programado ano ap\u00f3s ano, at\u00e9 o valor chegar a este n\u00famero, que levaria a um aumento de vendas da ordem de 35%\u201c, comenta o economista. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O dinheiro viria do Or\u00e7amento da Uni\u00e3o e do imposto vinculado. \u201cNa Fran\u00e7a h\u00e1 um imposto de 3% sobre as m\u00e1quinas copiadoras. O pirata paga pela pol\u00edtica do livro. Voc\u00ea pode taxar a m\u00e1quina fotocopiadora, voc\u00ea pode taxar o toner, com a id\u00e9ia de que voc\u00ea tem que punir o crime e da\u00ed tirar os recursos para financiar a pol\u00edtica\u201c, explica Earp.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00c9 interessante trilhar o caminho pela qual passaram Kornis e S\u00e1 Earp para chegar a estas sugest\u00f5es. Os dois se dedicam a estudar economia da cultura, territ\u00f3rio a que os economistas em geral n\u00e3o prestam a menor aten\u00e7\u00e3o, como a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, cinematogr\u00e1fica, editora\u00e7\u00e3o etc. A id\u00e9ia de pesquisar a cadeia produtiva do livro no Brasil tinha como objetivo orientar a a\u00e7\u00e3o do BNDES. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> A pesquisa foi estruturada em torno de tr\u00eas relat\u00f3rios. O primeiro, uma an\u00e1lise geral da situa\u00e7\u00e3o do livro hoje no Brasil, foi realizado a partir dos dados fornecidos pela CBL. No segundo relat\u00f3rio, foi feito um levantamento das pol\u00edticas de fomento ao livro praticadas no mundo, da produ\u00e7\u00e3o \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o. O terceiro relat\u00f3rio cont\u00e9m as propostas para o BNDES e foi finalmente apresentado na semana passada. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No mercado mundial de livros, a China tem os n\u00fameros mais impressionantes: 7,1 bilh\u00f5es de exemplares vendidos por ano (49% da produ\u00e7\u00e3o mundial). Logo atr\u00e1s, v\u00eam os EUA, com 2,55 bilh\u00f5es de exemplares (18%), e o Jap\u00e3o, com 1,4 bilh\u00f5es (10%). A posi\u00e7\u00e3o do Brasil chega a 2% do volume de vendas, ou 340 milh\u00f5es, dado nada insignificante, \u00e0 frente de tr\u00eas expoentes como Gr\u00e3-Bretanha (320 milh\u00f5es), It\u00e1lia (270 milh\u00f5es) e Espanha (235 milh\u00f5es). \u201cEsse dado nos d\u00e1 uma perspectiva ilus\u00f3ria de sucesso do mercado no livro do Brasil. Mas isso muda quando se olha para os dois maiores mercados. O mercado brasileiro representa 5% do mercado chin\u00eas e 13% do mercado americano\u201c, afirma S\u00e1 Earp. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Quando est\u00e1 em jogo o valor das vendas, os EUA lideram e o Brasil perde o s\u00e9timo lugar. Com US$ 910 milh\u00f5es anuais (1% das vendas mundiais), est\u00e1 junto da B\u00e9lgica (US$ 1,08 bilh\u00e3o), Holanda (US$ 1,07 bilh\u00e3o) e R\u00fassia (US$ 860 milh\u00f5es), basicamente em fun\u00e7\u00e3o da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial dos \u00faltimos cinco anos. Pela antiga taxa de c\u00e2mbio, com o d\u00f3lar a R$ 1,20, R$ 1,50, o Brasil teria 2%. \u201c\u00c9 um mercado com um imenso potencial pela quantidade de livros vendidos, mas \u00e9 um mercado limitado pela pobreza da popula\u00e7\u00e3o e pela concentra\u00e7\u00e3o de renda\u201c, aponta o economista.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> \u00c9 um mercado grande o bastante para absorver 340 milh\u00f5es de exemplares publicados por ano. Mas seu consumo \u00e9 relativamente pequeno. \u201cNo Brasil, compra-se em torno de dois livros per capita ano, o que \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o do que se compra nos principais mercados\u201c, informa S\u00e1 Earp. No Jap\u00e3o, Taiwan, e EUA, esta m\u00e9dia varia entre nove e 11 livros per capita ano. J\u00e1 na China, Canad\u00e1, Espanha e Alemanha consomem-se entre seis e sete livros per capita ano. Na Fran\u00e7a, B\u00e9lgica e Gr\u00e3-Bretanha, entre quatro e cinco livros. No mesmo patamar que o Brasil, abaixo de tr\u00eas livros per capita ano, est\u00e3o R\u00fassia, M\u00e9xico e Argentina. \u201cPoder\u00edamos pensar como meta para uma pol\u00edtica de cinco a dez anos passar destes dois exemplares per capita para quatro. Dobrar o consumo per capita. E \u00e9 pouco. As vendas de livro no Brasil s\u00e3o de, em m\u00e9dia, US$ 5 por habitante\/ano. A nossa meta, para acompanhar o padr\u00e3o europeu, teria que decuplicar, passar a US$ 50 por habitante\/ano\u201c, completa Earp. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Segundo os economistas, o livro brasileiro \u00e9 muito barato para o padr\u00e3o internacional. O problema \u00e9 que o bolso brasileiro m\u00e9dio \u00e9 ainda menor que isso. O livro produzido no pa\u00eds custa um quinto do livro produzido nos EUA, mas a renda do brasileiro \u00e9 menos que um quinto menor do que a do americano, al\u00e9m de ser muito concentrada e mal distribu\u00edda. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O pre\u00e7o m\u00e9dio pago \u00e0 editora no Brasil varia entre US$ 1 e US$ 3. O livro did\u00e1tico em 2003 custava em m\u00e9dia R$ 4,11 e \u00e9 ele que joga o pre\u00e7o para baixo. Quando se divide por \u00e1rea \u2013 religioso, did\u00e1tico, t\u00e9cnico-cient\u00edfico e obras gerais \u2013 encontram-se n\u00edveis de pre\u00e7o muito diferenciados. \u201cO problema da m\u00e9dia \u00e9 que ela \u00e9 enganadora, ent\u00e3o temos que tomar cuidados com essas m\u00e9dias, que em geral tendem a ser otimistas\u201c, alerta o economista.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Para fugir desta m\u00e9dia enganadora, Kornis e S\u00e1 Earp criaram um \u00edndice para medir a capacidade de compra de livros, comparando a renda do brasileiro m\u00e9dio com a do americano ou o holand\u00eas. \u201cVamos supor que este brasileiro fosse um bibli\u00f3filo fan\u00e1tico, e que quisesse gastar todo o seu dinheiro comprando livros. Quantos livros ele poderia comprar em seu pa\u00eds, dado o pre\u00e7o m\u00e9dio do livro e a renda que ele tem?\u201c, questiona S\u00e1 Earp. Segundo este \u00edndice, os livros mais baratos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o os japoneses e franceses. No Jap\u00e3o e na Fran\u00e7a podem ser comprados 4 mil livros com a renda m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o. Depois v\u00eam EUA, Canad\u00e1 e Su\u00ed\u00e7a, com 2.350 livros em m\u00e9dia. No mesmo patamar do Brasil encontram-se Gr\u00e3-Bretanha, Holanda, Alemanha, B\u00e9lgica e It\u00e1lia, com, aproximadamente, 1.500 livros. \u201cN\u00e3o \u00e9 grave numa primeira observa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que existe uma diferen\u00e7a que a nossa conta n\u00e3o captou. \u00c9 o fato de que entre a menor renda, de um faxineiro, na Gr\u00e3-Bretanha, e de um diretor de empresa, voc\u00ea aumenta poucas vezes. Se voc\u00ea for pensar a mesma coisa no Brasil, ter\u00e1 de aumentar dezenas de vezes, porque a renda da base da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito baixa. Certamente, 70%, 80% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguem comprar livros, mesmo esses livros sendo extremamente baratos para o padr\u00e3o internacional. Existe problema semelhante na China, onde, em m\u00e9dia, o \u00edndice fica em 750 livros\u201c, diz o economista.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Outro c\u00e1lculo feito pela dupla consistiu em estabelecer um \u00edndice de pre\u00e7o relativo do livro. Ele mostra que o livro \u00e9 duas vezes e meio mais caro para o bolso do brasileiro do que o do japon\u00eas. Os economistas chamam isso de falha de mercado. Mesmo o produto sendo vendido a pre\u00e7os normais, ele ainda \u00e9 caro para o consumidor. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Por isso, \u00e9 preciso o Estado intervir, redistribuindo os recursos. O Brasil tem o terceiro maior programa de compra de livros (176 milh\u00f5es de exemplares), em quantidade, do mundo. Ele est\u00e1 bem atr\u00e1s da China (3,78 bilh\u00f5es) e dos EUA (677 milh\u00f5es), mas est\u00e1 muito \u00e0 frente dos pa\u00edses europeus e do Jap\u00e3o (54 milh\u00f5es). A primeira raz\u00e3o \u00e9 que nos pa\u00edses onde as compras institucionais s\u00e3o pequenas a renda j\u00e1 \u00e9 elevada, bem distribu\u00edda e o povo pode comprar de livros. Apenas os 20% mais pobres recebem livros de gra\u00e7a. Estes pa\u00edses tamb\u00e9m t\u00eam um gasto grande com bibliotecas. Isso contrasta com o Brasil, onde as bibliotecas compram muito poucos livros. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Outro dado relevante levantado pelos pesquisadores diz respeito \u00e0s compras institucionais per capita, ou seja, quantos livros por habitante o governo compra em m\u00e9dia. A B\u00e9lgica \u00e9 uma honrosa exce\u00e7\u00e3o, com 12,6 livros per capita. Pa\u00edses com regimes t\u00e3o radicalmente diferentes quanto EUA, China e Holanda t\u00eam a mesma compra m\u00e9dia: entre 2,1 a 3,5 livros per capita. \u201cIsso ultrapassa ideologias, \u00e9 algo que faz parte da busca do mundo civilizado contempor\u00e2neo. N\u00e3o h\u00e1 o modelo americano, o modelo chin\u00eas, a social-democracia holandesa. N\u00e3o adianta voc\u00ea dar educa\u00e7\u00e3o sem dar livro. E livro n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que voc\u00ea d\u00e1 de presente para o estudante, livro tem que estar tamb\u00e9m permanentemente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o na biblioteca. Uma pol\u00edtica institucional deveria, em dez anos, triplicar essas compras institucionais. A compra deveria ser feita de uma maneira diferente da que \u00e9 realizada atualmente, que gerou o oligop\u00f3lio e arrebentou as livrarias. Ao inv\u00e9s de fortalecer a cadeia toda, estas compras s\u00f3 fortaleceram o in\u00edcio da cadeia, as editoras\u201c, revela S\u00e1 Earp. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> O mercado mundial do livro \u00e9 formado por conglomerados, cada um dos quais \u00e9 muitas vezes maior do que todas as editoras brasileiras juntas. O maior deles, Bertelsmann, inclui a BMG, editoras de revistas e jornais, canais de televis\u00e3o e a Random House, que no ano passado teve de faturamento \u20ac 1, 8 bilh\u00e3o, ou US$ 2,32 bilh\u00f5es. H\u00e1 empresas estrangeiras, como a Thompson e Pearson (Penguin, Financial Times) que j\u00e1 atuam no pa\u00eds, mas n\u00e3o operando na escala em que costumam operar. Elas est\u00e3o aqui para aprender como funciona o mercado nacional e reservar seu lugar. O faturamento do setor editorial da Thompson em todo o mundo \u00e9 algo em torno de US$ 2,6 bilh\u00f5es, enquanto que da Penguin, bra\u00e7o editorial da Pearson, foi de US$ 1,509 bilh\u00e3o. \u201cA hora em que elas come\u00e7arem a operar em grande escala pode haver um terremoto em nosso mercado\u201c, prev\u00ea S\u00e1 Earp. \u201c\u00c9 um processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o potencial. N\u00e3o entra quem n\u00e3o quer entrar no mercado brasileiro. Porte existe, n\u00e3o h\u00e1 barreiras \u00e0 entrada, \u00e9 apenas o subdesenvolvimento do mercado consumidor que impede que in\u00fameras outras editoras entrem aqui.\u201c\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Segundo os economistas, a venda das grandes editoras brasileiras est\u00e1 em torno de US$ 900 milh\u00f5es. Provavelmente as vendas finais, em livraria, rendam o dobro disso, algo em torno de US$ 1,5 bilh\u00e3o. Mas \u00e9 o n\u00famero de t\u00edtulos lan\u00e7ados que revela uma crise que vem do in\u00edcio do Governo Collor (1990-1992), foi driblada no auge do Plano Real (1995-1998) e vive um decl\u00ednio desde ent\u00e3o. Quando se olha por exemplares publicados a tend\u00eancia \u00e9 a mesma, embora com um certo ziguezague. A situa\u00e7\u00e3o em 1995-1996 era melhor do que hoje. Hoje \u00e9 melhor do que era na \u00e9poca do Collor, mas a tend\u00eancia \u00e9 de queda preocupante. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> As tiragens oscilam bastante \u2013 dado complicado pelas compras p\u00fablicas, que variam muito de um ano para o outro. As compras do governo federal variam o suficiente para fazer com que o volume do mercado oscile, j\u00e1 as compras feitas por distribuidoras e livrarias s\u00e3o muito mais regulares. Elas mostram uma queda nada desprez\u00edvel da faixa de 150 milh\u00f5es de exemplares para 105 milh\u00f5es ao longo desses seis anos de avalia\u00e7\u00e3o. As compras do governo s\u00e3o quase exclusivamente de did\u00e1ticos. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Outro dado alarmante \u00e9 a quantidade de livros em estoque no mercado brasileiro. Em 1995 tivemos 331 milh\u00f5es de livros fabricados, 275 milh\u00f5es vendidos e estoque de 56 milh\u00f5es de exemplares. Dois anos depois chegamos \u00e0 maior produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 registrada no pa\u00eds: 382 milh\u00f5es de exemplares, dos quais 348 milh\u00f5es foram vendidos, sobrando 34 milh\u00f5es no estoque. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Em 1999, depois da desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, a produ\u00e7\u00e3o caiu para 295 milh\u00f5es e as vendas para 290 milh\u00f5es. Os n\u00fameros voltaram a subir, alcan\u00e7ando 339 milh\u00f5es de exemplares fabricados em 2002, dos quais 321 milh\u00f5es foram vendidos, ficando um estoque de 18 milh\u00f5es. No \u00faltimo ano analisado pela pesquisa at\u00e9 agora, 2003, a produ\u00e7\u00e3o caiu novamente, para 299 milh\u00f5es de exemplares, dos quais 255 milh\u00f5es foram vendidos, resultando em 44 milh\u00f5es de livros estocados ao final do ano retrasado. \u201cPor mais que voc\u00ea deduza essa produ\u00e7\u00e3o encalhada do que saiu em feiras de livros, ou com erros, ainda \u00e9 muito grande este n\u00famero\u201c, avalia Kornis.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> No auge do real, chegamos perto de 300 milh\u00f5es de exemplares, hoje estamos abaixo de 150 milh\u00f5es. Uma explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a crise econ\u00f4mica. \u00c9 verdade que o Brasil n\u00e3o viveu um per\u00edodo de crescimento pujante. Mas, quando se compara o produto interno bruto com as vendas do livro, o PIB cresceu 16% e as vendas do livro ca\u00edram pela metade. \u201cN\u00e3o basta somente a economia voltar a crescer para reverter essa situa\u00e7\u00e3o da venda de livro, porque n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia que voc\u00ea tenha a recupera\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo da classe m\u00e9dia. Ao contr\u00e1rio, aparentemente voc\u00ea est\u00e1 tendo uma melhora da situa\u00e7\u00e3o dos setores menos favorecidos, que n\u00e3o s\u00e3o compradores de livros, que antes de chegar aos livros t\u00eam uma s\u00e9rie de outras prioridades\u201c, argumenta S\u00e1 Earp. \u201cFoi a renda do comprador de livros que foi afetada. \u00c9 algo curioso, verificamos um processo de distribui\u00e7\u00e3o de renda, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 dos ricos para os pobres, \u00e9 da classe m\u00e9dia para os pobres\u201c, conclui.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Segundo Kornis, nas camadas muito ricas, a renda n\u00e3o aumenta em propor\u00e7\u00e3o o consumo de livros. \u201cOs muitos ricos n\u00e3o compram livros. Seus habituais acr\u00e9scimos de renda n\u00e3o t\u00eam nenhuma convers\u00e3o em ganhos para o mercado editorial. Isso \u00e9 um dado muito claro. Estamos falando de classe m\u00e9dia, um segmento muito espec\u00edfico de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, com os sal\u00e1rios congelados, como os professores universit\u00e1rios etc.\u201c\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Um dos principais impactos desestabilizadores sobre as vendas de livro no Brasil \u00e9 a compra do governo, segundo os economistas. De 1998 para 1999 o pa\u00eds teve uma queda de 120 milh\u00f5es para 62 milh\u00f5es de exemplares vendidos por culpa de cortes no or\u00e7amento. \u201cEm 1995, as compras do governo foram muito mais generosas do que nos anos seguintes. O governo, que j\u00e1 gastou mais de R$ 1 bilh\u00e3o com livros, hoje est\u00e1 gastando na faixa de R$ 450 milh\u00f5es e parece que ficou neste patamar. \u00c9 isso o que temos para gastar\u201c, descreve S\u00e1 Earp.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> As compras do governo parcialmente compensam a queda do consumo do setor privado. Em 1998 o mercado absorvia 300 milh\u00f5es de exemplares; hoje est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o bem pior, e absorve apenas 250 milh\u00f5es. Como o livro did\u00e1tico comprado pelo governo \u00e9 muito barato, ele acaba injetando muito pouco, R$ 450 milh\u00f5es, em um mercado com faturamento estimado em R$ 2,5 bilh\u00f5es por ano. Ou seja, o governo \u00e9 muito importante em quantidade. Mas, em dinheiro, \u00e9 muito menos importante. Para piorar, seu impacto est\u00e1 concentrado em meia d\u00fazia de editoras. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Com isso, a venda de livros did\u00e1ticos caiu de quase 100 milh\u00f5es de exemplares para 50 milh\u00f5es em 2003. \u00c9 um retrato da crise da classe m\u00e9dia, que deixa de comprar livros para os filhos. As obras gerais foram as que menos sofreram, passando de 60 milh\u00f5es para 50 milh\u00f5es de exemplares vendidos. Este \u00e9 o mercado mais est\u00e1vel, segundo os autores do relat\u00f3rio. Segundo eles, a venda dos livros t\u00e9cnico-cient\u00edficos permaneceu est\u00e1vel, apesar de ter aumentado o n\u00famero de estudantes.\u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Os dados permitiram aos economistas dividirem as editoras em quatro tipos de empresas: mini, micro, m\u00e9dia e grande. Quando se observa o mercado de did\u00e1ticos, \u00e9 muito simples: \u00e9 um mercado das grandes. \u201c\u00c9 aquela mesma meia d\u00fazia que est\u00e1 vendendo livro barato ao governo e livro caro para o mercado\u201c, explica S\u00e1 Earp. \u00a0<br \/> \u00a0<br \/> Por fim, espera-se que a pesquisa n\u00e3o pare nas gavetas do banco e sirva para gerar novas discuss\u00f5es e propostas para a economia do livro. \u201cDurante todo o Governo FHC tivemos muita conversa e nenhuma a\u00e7\u00e3o. Agora, com o Galeno Amorim, estamos tendo uma mudan\u00e7a institucional, por\u00e9m muito modesta para as necessidades do setor, que precisa muito mais do que isso. A impress\u00e3o que temos \u00e9 que os empres\u00e1rios do livro t\u00eam vergonha de dizer que precisam de ajuda. \u00c9 como se isso significasse \u00b4n\u00f3s somos incompetentes`. Temos que planejar este neg\u00f3cio no longo prazo, em um universo de cinco a dez anos. E certamente n\u00e3o s\u00e3o os iluminados da universidade que v\u00e3o propor pol\u00edticas, no m\u00e1ximo podemos dar uma ajuda \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es editoriais\u201c, finaliza S\u00e1 Earp.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de alguns meses de espera, finalmente est\u00e1 pronta a pesquisa encomendada por Carlos Lessa, quando ainda era presidente do BNDES, sobre a economia do livro no Brasil. Desenvolvida pelos economistas F\u00e1bio S\u00e1 Earp e George Kornis entre mar\u00e7o e novembro de 2004, ela virou um calhama\u00e7o de 500 p\u00e1ginas. 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