{"id":9363,"date":"2019-10-24T15:19:05","date_gmt":"2019-10-24T18:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/criancas-que-leem\/"},"modified":"2019-10-24T15:19:05","modified_gmt":"2019-10-24T18:19:05","slug":"criancas-que-leem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/criancas-que-leem\/","title":{"rendered":"CRIAN\u00c7AS QUE LEEM"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As crian\u00e7as que melhor aprenderam a ler e escrever no Brasil vivem no sert\u00e3o do sert\u00e3o do Nordeste. Seus pais s\u00e3o analfabetos e plantam o que a fam\u00edlia come. A \u00e1rea \u00e9 um bairro na zona rural de Granja, no Cear\u00e1, e fica a 1h30 de carro do centro da cidade. As poucas ruas, de terra, t\u00eam porcos, cabras e vacas perambulando soltas. Os m\u00f3veis das casas se resumem a uma TV de tubo, um sof\u00e1 e uma rede; n\u00e3o h\u00e1 livros.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Avalia\u00e7\u00e3o Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o (ANA), os alunos de 8 anos da Escola Nossa Senhora Aparecida, na zona rural de Granja, tiraram a melhor nota do Brasil em leitura e em escrita. Granja tem ainda nove escolas entre as dez melhores no ranking nacional de leitura, segundo tabula\u00e7\u00e3o feita pelo Estado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No sert\u00e3o cearense ou no interior de S\u00e3o Paulo, onde est\u00e3o algumas das escolas p\u00fablicas com melhores resultados na avalia\u00e7\u00e3o federal, ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado com pol\u00eamicas em torno dos m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Professores ensinam os sons das letras \u2013 pr\u00e1tica t\u00edpica do chamado m\u00e9todo f\u00f4nico \u2013 e alfabetizam por meio de jogos, reflex\u00f5es e textos do cotidiano \u2013 algo presente no construtivismo. Misturam, experimentam, tentam de todas as formas atingir uma meta clara: n\u00e3o deixar nenhuma crian\u00e7a para tr\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O debate sobre como alfabetizar se tornou recentemente mais uma disputa ideol\u00f3gica na educa\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio \u00e9 grav\u00edssimo. Atualmente, mais de 50% dos estudantes de 8 anos no Pa\u00eds n\u00e3o sabem ler adequadamente. E cerca de 35% n\u00e3o conseguem escrever.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A defici\u00eancia nessa etapa crucial funciona como uma bola de neve. Muitos dos que n\u00e3o se alfabetizam na idade certa passam a vida sem aprender quase nada, mesmo que dentro da escola. Ou ent\u00e3o reprovam, abandonam os estudos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse material especial do Estado \u2013 batizado de Crian\u00e7as que Leem \u2013 vai mostrar por meio de uma s\u00e9rie de quatro podcasts como se aprende a ler e a escrever nos melhores exemplos de escolas p\u00fablicas e particulares. Durante tr\u00eas meses, a reportagem foi a quatro cidades, assistiu aulas, conversou com professores, pais, crian\u00e7as e especialistas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As melhores experi\u00eancias foram identificadas a partir da tabula\u00e7\u00e3o criteriosa feita por Cec\u00edlia do Lago, do Estad\u00e3o Dados. O texto a seguir mostra cada iniciativa e discute a disputa em torno dos m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o. O material \u00e9 ilustrado pelo brilhante trabalho dos fot\u00f3grafos Tiago Queiroz e Leo Souza (que filmou e editou os v\u00eddeos).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por meio dos podcasts, a ideia \u00e9 que o ouvinte se sinta parte da hist\u00f3ria e que consiga compreender como o Pa\u00eds pode, de fato, alfabetizar suas crian\u00e7as deixando de lado disputas te\u00f3ricas e ideol\u00f3gicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>DISPUTA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De um lado, est\u00e1 o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o do governo de Jair Bolsonaro, que sustenta que apenas o m\u00e9todo f\u00f4nico tem evid\u00eancias cient\u00edficas e que o construtivismo teria sido respons\u00e1vel pela grande quantidade de crian\u00e7as que n\u00e3o aprenderam no Brasil. Munic\u00edpios que n\u00e3o adotarem os mesmos preceitos podem deixar de receber verbas do MEC para programas de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Um plano nacional para a \u00e1rea foi lan\u00e7ado em agosto com texto em tom nada conciliador: a \u201cci\u00eancia cognitiva da leitura afirma que, ao contr\u00e1rio do que sup\u00f5em certas teorias\u201d (&#8230;), \u201ca leitura e a escrita precisam ser ensinadas de modo expl\u00edcito e sistem\u00e1tico\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De outro lado, defensores da teoria do construtivismo dizem que o f\u00f4nico apenas treina as crian\u00e7as para uma decodifica\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e que \u00e9 preciso mais para, de fato, alfabetizar algu\u00e9m. Defendem que as crian\u00e7as devem, desde pequenas, ser inseridas no mundo da leitura e escrita para que isso tenha significado, antes mesmo de saber as letras. No entanto, essa polariza\u00e7\u00e3o, presente no mundo acad\u00eamico e pol\u00edtico, est\u00e1 distante da sala de aula.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os professores em Granja sequer sabem nomear os m\u00e9todos que usam. N\u00e3o que o trabalho n\u00e3o seja extremamente estruturado e acompanhado. Eles passam por forma\u00e7\u00f5es todo m\u00eas, organizadas pela cidade e com apoio de todo tipo de material did\u00e1tico. Por sua vez, quem d\u00e1 essas aulas aos professores recebe forma\u00e7\u00e3o do Estado do Cear\u00e1, que desde 2007 tem uma pol\u00edtica de alfabetiza\u00e7\u00e3o na idade certa, o que significa ensinar as crian\u00e7as a ler e escrever at\u00e9 os 7 anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Das cem escolas com melhores resultados em alfabetiza\u00e7\u00e3o, 38 est\u00e3o em cidades cearenses, entre elas a j\u00e1 conhecida Sobral, que fica a cerca de 100 quil\u00f4metros de Granja. Nesse mesmo ranking, apenas sete escolas est\u00e3o no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cEu acho que o que \u00e9 bom a gente tem de copiar. A gente vai l\u00e1 para internet, v\u00ea o que est\u00e1 dando certo na cidade vizinha ou no outro Estado, a gente pode tirar um pouquinho daquilo para poder aperfei\u00e7oar o nosso trabalho. E vamos misturando tudo\u201d, diz a secret\u00e1ria municipal de Educa\u00e7\u00e3o de Granja, Tatiana Saldanha, ex-professora da rede.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os professores, conta, recebem da prefeitura uma estrat\u00e9gia de aula \u201cmastigadinha\u201d, que pode ser r\u00edgida na execu\u00e7\u00e3o, mas encantadora para as crian\u00e7as. As aulas come\u00e7am todo dia com inegoci\u00e1veis 15 minutos de \u201ctempo para gostar de ler\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201c\u00c9 um tremendo segredo, nem pense em espalhar, foi o Saci que me contou, ele me cochichou e n\u00e3o quero bafaf\u00e1\u201d, l\u00ea a professora do 1\u00ba ano Jaqueline Rocha Arag\u00e3o, sentada com as crian\u00e7as no ch\u00e3o, vestida de Saci. Fantasias confeccionas pelos pr\u00f3prios professores s\u00e3o comuns na hora da hist\u00f3ria em Granja. Jaqueline n\u00e3o questiona os alunos sobre o que entenderam do texto, mas sim, sobre suas experi\u00eancias e reflex\u00f5es a partir da hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sofia, de 6 anos, diz que n\u00e3o tem medo do Saci Perer\u00ea, mas sim do Lobisomem. O colega ao lado conta que o Saci aparece sempre fazendo um redemoinho. Em seguida, cada um escolhe um novo livro da cole\u00e7\u00e3o que fica na sala, para ler. \u201cEssa fase do ba, be, bi, bo, bu, de decorar, hoje em dia n\u00e3o existe mais. A gente precisa primeiro gostar, despertar nele (aluno) esse amor pela leitura e pra depois desenvolver o processo\u201d, diz Jaqueline.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>REFLEX\u00c3O<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Essa forma de ensinar est\u00e1 pr\u00f3xima do que diz a teoria construtivista, cujo marco foi uma obra da educadora argentina Em\u00edlia Ferreiro no come\u00e7o dos anos 80. \u201cO m\u00e9rito do construtivismo \u00e9 desde muito cedo captar a crian\u00e7a pela magia da leitura, dos contos, dos jogos, antes mesmo de um ensino sistem\u00e1tico\u201d, diz a professora aposentada da Universidade de S\u00e3o Paulo e especialista em alfabetiza\u00e7\u00e3o Silvia Colello.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Grande parte das escolas de elite particulares em S\u00e3o Paulo seguem o construtivismo e, por isso, alfabetizam com foco nas hip\u00f3teses e as reflex\u00f5es das crian\u00e7as. Isso quer dizer que n\u00e3o come\u00e7am a alfabetiza\u00e7\u00e3o pelas letras isoladas. Usam os nomes dos alunos como ponto de partida. Pelas s\u00edlabas ou letras dos nomes dos colegas, as crian\u00e7as v\u00e3o \u201cmontando\u201d outras palavras. Tamb\u00e9m elaboram listas de tarefas do dia e receitas de bolo, mesmo sem ainda saber escrever, para compreenderem para que serve a escrita.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma das refer\u00eancias desse grupo \u00e9 a Escola Vera Cruz, em Pinheiros, zona oeste da capital. A professora Luiza Gaia, de 34 anos, do 1\u00ba ano, n\u00e3o se importa se o aluno escreve \u201ccasa\u201d colocando apenas dois \u201ca\u201d, sem as consoantes. \u201cQue nome tem aqui na nossa sala que come\u00e7a igual \u00e0 casa? Ah, o da Catarina, vamos ver como se escreve o \u2018Ca\u2019 da Catarina?, diz. Luiza acha que \u00e9 preciso ensinar mostrando \u00e0s crian\u00e7as o encanto e o papel da leitura da vida delas. \u201cEu n\u00e3o sou uma m\u00e1quina que est\u00e1 aqui decodificando, que t\u00f4 sabendo fonema, n\u00e3o \u00e9 isso. Eu estou me expressando\u201d, diz ela, sobre o que gostaria que o aluno sentisse em rela\u00e7\u00e3o ao aprendizado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Um decreto editado pelo governo Bolsonaro no in\u00edcio do ano, com refer\u00eancias ao m\u00e9todo f\u00f4nico, caiu como uma bomba nas escolas construtivistas. Em meio \u00e0 crise do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), o texto foi mudado v\u00e1rias vezes ainda na gest\u00e3o de Ricardo V\u00e9lez e deu origem \u00e0 Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o Baseada em Evid\u00eancias (Conabe), que re\u00fane esta semana especialistas ligados \u00e0 mesma linha defendida pelo governo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O governo Bolsonaro tamb\u00e9m chegou a decidir que a prova de alfabetiza\u00e7\u00e3o, a ANA, n\u00e3o seria realizada este ano. Mas voltou atr\u00e1s depois que o Estado revelou a informa\u00e7\u00e3o. A ideia era de que a prova fosse mudada para se adaptar ao que o MEC agora entende ser importante para alfabetizar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cPara mim n\u00e3o faz sentido a ideia de que ler e escrever \u00e9 juntar letras, n\u00f3s acreditamos que a reflex\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 que o permite a ela ir aprendendo. Elas n\u00e3o s\u00e3o uma t\u00e1bula rasa sem nada na cabe\u00e7a, elas trazem ideias do que vem a ser o mundo da escrita\u201d, diz a educadora Telma Weiss, uma das autoras dos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais (PCN) de L\u00edngua Portuguesa, que norteiam o ensino no Pa\u00eds h\u00e1 anos, e coordenadora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em alfabetiza\u00e7\u00e3o do Instituto Vera Cruz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os PCNs foram lan\u00e7ados em 1997 durante a gest\u00e3o de Paulo Renato Souza no MEC. O texto fala de uma revis\u00e3o no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, deixando de lado m\u00e9todos tradicionais, como o que usava cartilha. A ideia principal \u00e9 que o aluno compreenda o significado da escrita, seja um sujeito criativo, que compara, estabelece hip\u00f3teses e cria durante a alfabetiza\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o apenas decodifique as letras de modo descontextualizado. Por isso, indica aos professores o uso de textos verdadeiros, como jornais e contos, e n\u00e3o \u201csimples agregados de frases\u201d, como \u201cvov\u00f4 viu a uva\u201d. \u201cA compreens\u00e3o atual da rela\u00e7\u00e3o entre a aquisi\u00e7\u00e3o das capacidades de redigir e grafar rompe com a cren\u00e7a arraigada de que o dom\u00ednio do b\u00ea-\u00e1-b\u00e1 seja pr\u00e9-requisito para o in\u00edcio do ensino de l\u00edngua\u201d, diz o documento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As ideias remetiam ao chamado construtivismo, termo usado na obra do bi\u00f3logo e psic\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Jean Piaget, que estudou como as pessoas aprendem e jogou luz na import\u00e2ncia do sujeito ao construir o seu conhecimento. Emilia Ferreiro estudou e trabalhou com Piaget.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A nova forma de ver a educa\u00e7\u00e3o de Emilia e Piaget ganharam for\u00e7a entre educadores do Pa\u00eds, mas nem sempre foram transformadas em pr\u00e1ticas de ensino nas universidades que formam os professores. Pesquisas t\u00eam mostrando que os cursos para docentes s\u00e3o basicamente te\u00f3ricos e, ao se formarem, os profissionais \u2013 principalmente que v\u00e3o para a escola p\u00fablica \u2013 n\u00e3o sabem o que fazer em sala de aula. \u201cQuando voc\u00ea tem um m\u00e9todo \u00e9 muito c\u00f4modo para o professor, ele sabe que hoje viu a p\u00e1gina 4 da cartilha, amanh\u00e3 \u00e9 a p\u00e1gina 5. Mas com o construtivismo n\u00e3o tem isso, ele tem de estar atento ao sujeito que aprende, e isso \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, diz Silvia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA gente ensinava pela cartilha, depois quando entrou o construtivismo, foi um problema, ningu\u00e9m entendia nada. Se dizia que tudo a crian\u00e7a conseguia, aprendia, ela ia em busca, por meio de textos\u201d, conta a hoje coordenadora pedag\u00f3gica em uma escola municipal de Indaiatuba, no interior de S\u00e3o Paulo, Roberta Bannwart, h\u00e1 30 anos na rede. Essa vis\u00e3o err\u00f4nea, de que a interven\u00e7\u00e3o do professor n\u00e3o era mais necess\u00e1ria, fez com que muitas crian\u00e7as n\u00e3o aprendessem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As crian\u00e7as de Indaiatuba t\u00eam hoje o melhor desempenho em escrita no Estado de S\u00e3o Paulo em munic\u00edpios com mais de mil alunos na prova do MEC, segundo tabula\u00e7\u00e3o do Estado. A cidade \u00e9 tamb\u00e9m a quarta colocada no Brasil nesse mesmo ranking. Ao longo dos \u00faltimos anos, a cidade implementou aos poucos um sistema com avalia\u00e7\u00f5es, metas, forma\u00e7\u00e3o de professores. A alfabetiza\u00e7\u00e3o passou a considerar tanto o construtivismo quanto o f\u00f4nico. \u201cUsamos o que tem de melhor em cada um\u201d, diz a secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o da cidade, Rita de C\u00e1ssia Trasferetti, que est\u00e1 h\u00e1 dez anos no cargo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Algumas aulas t\u00eam at\u00e9 o uso do antigo silab\u00e1rio, uma cartela com as s\u00edlabas, algo bem tradicional, mas tamb\u00e9m muitos jogos e brincadeiras que favorecem a reflex\u00e3o. \u201cA palavra que eu adoro escrever \u00e9 tomate porque eu adoro tomate\u201d, conta Daniel Silva do Nascimento, de 7 anos. A professora Talita Ugoline, de 32 anos, diz que se preocupa em mostrar o porqu\u00ea da alfabetiza\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as. \u201cN\u00e3o vamos escrever um bilhete por escrever um bilhete. Para onde vamos mandar? Quem vai receber?\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>SONS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A mesma professora Jaqueline, de Granja, ajuda um aluno a escrever a palavra \u201cgorro\u201d falando dos sons das letras. \u201cSer\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 um \u2018R\u2019 que a gente faz \u2018go rrrrro\u2019?\u201d, pergunta, for\u00e7ando o som na garanta. Em outra escola tamb\u00e9m de Granja, outra professora ajudava Sofia, de 6 anos, a ler a palavra \u201cvers\u00e3o\u201d. \u201cO \u2018S\u2019 com \u2018\u00c3\u2019 forma que sonzinho?\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As duas claramente est\u00e3o preocupadas que seus alunos entendam que cada letra corresponde a um som, assim como defende o MEC hoje. O documento sobre alfabetiza\u00e7\u00e3o do governo federal diz que a \u201ccorrespond\u00eancia grafema-fonema\u201d precisa ser ensinada \u201cde forma expl\u00edcita e sistem\u00e1tica, numa ordem que deriva do mais simples para o mais complexo\u201d, ou seja, primeiro as letras, depois as palavras, depois textos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cAlfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 algo completo e definido. \u00c9 voc\u00ea dominar o c\u00f3digo alfab\u00e9tico, ensinar a identificar uma palavra escrita ou reproduzir por escrito uma palavra\u201d, afirma o presidente do Instituto Alfa e Beto, Jo\u00e3o Batista Oliveira, que defende que o m\u00e9todo f\u00f4nico \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o para a maioria das crian\u00e7as, principalmente para as mais pobres cujos pais n\u00e3o estimulam a curiosidade dos filhos com leitura de livros, brincadeiras com letras. \u201cCompreens\u00e3o de leitura, texto, fala s\u00e3o coisas totalmente independentes.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Muitos desses argumentos do grupo que defende o m\u00e9todo f\u00f4nico vieram de um documento feito a pedido do Congresso dos Estados Unidos e divulgado no ano 2000, depois de dois anos de pesquisas, o National Reading Panel. O grupo de especialistas do pa\u00eds analisou estudos sobre alfabetiza\u00e7\u00e3o. O documento surgiu para tentar acalmar os \u00e2nimos no que se chamava nos anos 90 nos EUA de \u201creading wars\u201d, ou guerra da leitura, algo semelhante ao que vemos hoje no Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A conclus\u00e3o foi que ensinar a consci\u00eancia fonol\u00f3gica, ou seja, que as letras correspondem a sons, tem grande impacto na leitura e na compreens\u00e3o. O documento n\u00e3o indicou m\u00e9todo algum. Mas disse que quanto mais cedo isso fosse feito, melhor seria o resultado. Muitas escolas p\u00fablicas americanas passaram a seguir os resultados do documento e come\u00e7aram alfabetizar cada vez mais cedo e com foco nessa decodifica\u00e7\u00e3o das letras e sons, j\u00e1 aos 4 anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA ci\u00eancia j\u00e1 mostrou que o aprendizado da leitura modifica a estrutura cerebral, ent\u00e3o voc\u00ea precisa aprender a ler direito\u201d, diz a especialista Ilona Becskehasy, que estuda o assunto, defende o m\u00e9todo f\u00f4nico e agora faz parte da comiss\u00e3o de alfabetiza\u00e7\u00e3o do MEC. Para ela e outros pesquisadores, o construtivismo \u00e9 algo menos estruturado e menos sistematizado \u2013 algo que o outro lado discorda. \u201cEnt\u00e3o essa parte toda formal, de um ensino estruturado, \u00e9 que causa desconforto nos professores brasileiros, que n\u00e3o est\u00e3o acostumados com a bibliografia, mas quando a gente v\u00ea os estudos, todos os pa\u00edses com bom desempenho est\u00e3o indo nessa dire\u00e7\u00e3o\u201d, completa. Ilona cita Hong Kong, Cingapura e Canad\u00e1 como na\u00e7\u00f5es que d\u00e3o import\u00e2ncia para o som das letras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mesmo depois do documento americano, hoje h\u00e1 debates nos Estados Unidos sobre eventuais preju\u00edzos para crian\u00e7as do ensino infantil que deixaram de brincar na escola porque tiveram que se dedicar ao treino das letras. Na Finl\u00e2ndia, por exemplo, um dos maiores exemplos de educa\u00e7\u00e3o de qualidade, n\u00e3o se ensina crian\u00e7as pequenas a ler e a escrever. Por aqui, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) determina que os alunos devem estar alfabetizados at\u00e9 o fim do 2\u00ba ano do ensino fundamental.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>EVID\u00caNCIAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para a professora em\u00e9rita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que \u00e9 importante saber as rela\u00e7\u00f5es das letras com os fonemas. Mas a educadora discorda da forma como isso \u00e9 feito no m\u00e9todo f\u00f4nico. Ela diz que \u00e9 \u201cum erro lingu\u00edstico grave\u201d pedir que as crian\u00e7as falem os sons das letras. \u201cAs letras representam fonemas e fonema n\u00e3o \u00e9 pronunci\u00e1vel. Eles querem que a crian\u00e7a pronuncie o fonema correspondente \u00e0, por exemplo, letra \u2018p\u2019. Ningu\u00e9m consegue, a n\u00e3o ser que se apoie numa vogal.\u201d Para ela, o ideal \u00e9 come\u00e7ar com crian\u00e7as pequenas a trabalhar com parlendas e rimas, para que, assim, elas notem os sons das palavras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Magda ganhou o Pr\u00eamio Jabuti em 2016 com o livro Alfabetiza\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o dos m\u00e9todos, em que ela conclui que o importante n\u00e3o s\u00e3o os m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o e, sim, alfabetizar com m\u00e9todo. Para ela, que considera absurda a ideia do MEC incentivar apenas uma maneira de alfabetizar, os professores \u201ctiram um pouco de cada m\u00e9todo e com muita sabedoria\u201d. \u201cEst\u00e3o confundindo ideologia com ci\u00eancia e dizendo que os petistas s\u00e3o construtivistas e os \u00e0 direita s\u00e3o do m\u00e9todo f\u00f4nico. N\u00e3o tem nada a ver uma coisa com a outra.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A educadora tem 87 anos e trabalha com alfabetiza\u00e7\u00e3o desde os anos 50. \u201cFalar que a \u00fanica evid\u00eancia cient\u00edfica \u00e9 que o m\u00e9todo f\u00f4nico \u00e9 o melhor n\u00e3o tem consist\u00eancia. O processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complexo que voc\u00ea tem que levar em conta as evid\u00eancias cient\u00edficas da psicologia do desenvolvimento, da psicologia cognitiva, da psicolingu\u00edstica, da lingu\u00edstica.\u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para ela, n\u00e3o se aprende a ler e a escrever no Brasil porque os professores n\u00e3o sabem ensinar. \u201cAs crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bobas assim, s\u00e3o inteligentes, voc\u00ea ensina e elas aprendem\u201d, diz Magda. \u201cO problema \u00e9 que ningu\u00e9m est\u00e1 ensinando as professoras a alfabetizar. Os cursos de Pedagogia t\u00eam hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o, filosofia da educa\u00e7\u00e3o, sociologia da educa\u00e7\u00e3o e nada do que elas precisam saber para atuar na sala de aula.\u201dste ano com o filho Davi, de 6 anos, para Sobral em busca de uma escola p\u00fablica de qualidade. O menino se alfabetizou em meses<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>MAIS QUE SOM<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O munic\u00edpio de Sobral, no Cear\u00e1, tem os melhores resultados do Pa\u00eds em alfabetiza\u00e7\u00e3o em um ranking de munic\u00edpios com mais de mil alunos, tamb\u00e9m tabulado pelo Estado. Sua j\u00e1 conhecida escalada para uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade come\u00e7ou justamente com um plano para garantir que as crian\u00e7as aprendessem a ler e escrever. Nos anos 90 mais de 50% das crian\u00e7as da cidade n\u00e3o se alfabetizavam. Esse projeto incluiu fortemente a consci\u00eancia fon\u00eamica, mas sem preconceito a outras metodologias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A professora Dorenice Mendes de Araujo faz praticamente um show na frente da sala para chamar a aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para o som do \u201cL\u201d no fim da palavra papel. Mas ao mesmo tempo, as crian\u00e7as sugerem palavras para serem escritas em sala que elas usam em casa, no dia a dia. \u201cM\u00e9todo Paulo Freire, n\u00e9?\u201d diz a diretora da mesma escola em que Dorenice d\u00e1 aulas, Ana Carla Siebra. O educador, que tem recebido cr\u00edticas sistem\u00e1ticas do governo Bolsonaro, defendia justamente que adultos analfabetos, em vez de usar as antigas cartilhas, fossem alfabetizados com palavras j\u00e1 conhecidas, como tijolo e planta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA gente v\u00ea com muita preocupa\u00e7\u00e3o essa pol\u00eamica, n\u00e3o faz sentido discutir m\u00e9todo. Compreender o m\u00e9todo e extrair dele o que \u00e9 mais importante sim, \u00e9 estrat\u00e9gico, \u00e9 fundamental\u201d, diz o secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o de Sobral, Hebert Lima. Segundo ele, a cidade usa um modelo h\u00edbrido, que incentiva muito a leitura desde a educa\u00e7\u00e3o infantil, mas com bastante import\u00e2ncia dada ao reconhecimento do som das letras. Dependendo da s\u00e9rie, a cidade d\u00e1 mais \u00eanfase ao m\u00e9todo f\u00f4nico, em outras, busca mais um ensino construtivista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No entanto, o m\u00e9todo usado para a alfabetiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser a raz\u00e3o do sucesso de Sobral. O sistema implementado ao longo de anos inclui uma forma\u00e7\u00e3o mensal dos professores sobre as melhores pr\u00e1ticas, avalia\u00e7\u00f5es constantes das crian\u00e7as para identificar e corrigir problemas de aprendizagem e uma gest\u00e3o baseada em m\u00e9rito, que trabalha para que o ensino seja eficiente. Al\u00e9m disso, houve uma continuidade das pol\u00edticas educacionais ao longo de duas d\u00e9cadas, algo raro nas administra\u00e7\u00f5es de munic\u00edpios e Estados no Pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cVoc\u00ea chega numa escola em Sobral e a escola pode n\u00e3o ter um luxo aparente, mas tem livro para todo mundo, tem um professor atento, controle absoluto de absente\u00edsmo docente, as m\u00e3es e as crian\u00e7as chegam na escola e s\u00e3o todas contadinhas\u201d, diz Ilona, que fez uma tese de doutorado sobre o sistema de ensino da cidade. Mesmo sendo uma defensora do m\u00e9todo f\u00f4nico, ela enumera outras quest\u00f5es que fizeram Sobral ser Sobral. \u201cExiste um respeito aos profissionais da educa\u00e7\u00e3o l\u00e1 que \u00e9 fant\u00e1stico, \u00e9 uma equipe extremamente coesa, com r\u00edgido controle pedag\u00f3gico, mas feito para as pessoas darem o melhor de si\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cVoc\u00ea consegue alfabetizar por diferentes m\u00e9todos. N\u00e3o tenha d\u00favida. Muitos de n\u00f3s fomos alfabetizados com ba be bi bo bu e, no entanto, aprendemos a ler e a escrever\u201d, diz a educadora Silvia Colello. \u201cMas a pergunta n\u00e3o \u00e9 se voc\u00ea foi ou n\u00e3o alfabetizado, a pergunta \u00e9: o que voc\u00ea quer com essa aprendizagem?\u201d Ela lembra o quanto \u00e9 comum meninos e meninos que sabem, mas n\u00e3o gostam de ler, n\u00e3o apreciam a leitura, n\u00e3o gostam de escrever. \u201cO desafio n\u00e3o \u00e9 ensinar ler e escrever ou n\u00e3o, mas ensinar a ler e escrever para qu\u00ea, em fun\u00e7\u00e3o de qual objetivo? Esse para mim \u00e9 o ponto.\u201d<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crian\u00e7as que melhor aprenderam a ler e escrever no Brasil vivem no sert\u00e3o do sert\u00e3o do Nordeste. Seus pais s\u00e3o analfabetos e plantam o que a fam\u00edlia come. A \u00e1rea \u00e9 um bairro na zona rural de Granja, no Cear\u00e1, e fica a 1h30 de carro do centro da cidade. 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