{"id":9237,"date":"2019-09-09T16:36:14","date_gmt":"2019-09-09T19:36:14","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/foi-de-luta-foi-historica\/"},"modified":"2019-09-09T16:36:14","modified_gmt":"2019-09-09T19:36:14","slug":"foi-de-luta-foi-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/foi-de-luta-foi-historica\/","title":{"rendered":"Foi de luta. Foi hist\u00f3rica."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Bienal Internacional do Livro Rio 2019 tinha tudo para ser como foram todas as outras: grande p\u00fablico, grandes vendas (n\u00e3o o suficiente para alcan\u00e7ar o break-even, \u00e9 claro), mas nada al\u00e9m de mais uma bienal. Eis que, na \u00faltima quinta-feira (05), o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, resolve usar suas redes sociais para informar que estava censurando um livro presente em alguns estandes da Bienal, que chegou nesse ano a sua 19\u00aa edi\u00e7\u00e3o. A justificativa: a graphic novel Vingadores \u2013 A cruzada das crian\u00e7as, que traz nas suas p\u00e1ginas a manifesta\u00e7\u00e3o amorosa de dois personagens homens. Foi o suficiente para o prefeito dizer que precisava resguardar as crian\u00e7as da \u201cpornografia\u201d.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A rea\u00e7\u00e3o foi imediata. A declara\u00e7\u00e3o claramente homof\u00f3bica \u2013 que liga o beijo entre dois homens \u00e0 pornografia \u2013 e o pedido de recolhimento do livro foram entendidos como censura. Os principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds colocaram nas ruas suas equipes para entender o caso. A Bienal se tornou o centro das aten\u00e7\u00f5es e o p\u00fablico tamb\u00e9m se manifestou em favor da liberdade de express\u00e3o, de circula\u00e7\u00e3o de ideias e contra a censura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Diante do ataque, a Bienal se posicionou firmemente dizendo que n\u00e3o baixaria a sua guarda e n\u00e3o recolheria os livros. N\u00e3o que fosse preciso, afinal, em menos de 40 minutos desde a abertura da Bienal na sexta-feira, todos os exemplares j\u00e1 tinham sumido dos estandes: quem chegou antes, comprou e levou pra casa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O p\u00fablico lotou a Bienal. A organiza\u00e7\u00e3o fala em p\u00fablico recorde no \u00faltimo s\u00e1bado e de 600 mil pessoas que passaram pelo Riocentro nos dez dias de festival. Ainda de acordo com os dados do balan\u00e7o da Bienal, foram vendidos 4 milh\u00f5es de exemplares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mais do que \u00e0 pressa, Gustavo Martins de Almeida, colunista do PublishNews e advogado do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) entrou com mandato de seguran\u00e7a preventivo para evitar a cassa\u00e7\u00e3o do alvar\u00e1 de funcionamento da Bienal. Na pe\u00e7a, o advogado evoca Goebbels, respons\u00e1vel pela propaganda nazista na Alemanha de Hitler: \u201cDiante de uma cena, de um livro, comercializado com lacre, obedecendo ao que disp\u00f5e ECA [Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente], deslancha-se opera\u00e7\u00e3o de blitzkrieg para a pr\u00e1tica inconstitucional de censura, a procura de conte\u00fado supostamente imoral, e amea\u00e7a-se com o fechamento de toda uma feira de livros\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os fiscais da Secretaria de Ordem P\u00fablica da cidade v\u00e3o at\u00e9 o Riocentro, mas n\u00e3o encontram nada al\u00e9m de \u201cmuitos livros\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Diante do ato claramente de censura, editores e autores resolveram contra-atacar. Os estandes de casas como a Todavia e Faro trouxeram para frente os livros de tem\u00e1tica LGBT e teve at\u00e9 quem fizesse promo\u00e7\u00f5es, dando descontos nesses t\u00edtulos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Felipe Neto, autor campe\u00e3o de vendas, ganhador do Pr\u00eamio PublishNews em 2017 e uma das vozes mais cr\u00edticas \u00e0 onda de conservadorismo que varre o pa\u00eds, resolve colocar em pr\u00e1tica uma a\u00e7\u00e3o e compra 14 mil livros de tem\u00e1tica LGBT; os embala em sacos pretos, cola uma etiqueta onde se lia &#8220;Este livro \u00e9 impr\u00f3prio para pessoas atrasadas, retr\u00f3gradas e preconceituosas&#8221; e distribui aos visitantes da Bienal no s\u00e1bado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O Tribunal de Justi\u00e7a concede a liminar favor\u00e1vel ao pedido da Bienal. Na sua decis\u00e3o, o desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes diz que \u201ctal postura reflete ofensa \u00e0 liberdade de express\u00e3o constitucionalmente assegurada\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No entanto, a liminar foi cassada pelo presidente do TJ fluminense, Claudio de Mello Tavares, que no passado proferiu decis\u00e3o em que dizia: \u201cn\u00e3o se pode negar aos cidad\u00e3os heterossexuais o direito de, com base em sua f\u00e9 religiosa ou em outros princ\u00edpios \u00e9ticos e morais, entenderem que a homossexualidade \u00e9 um desvio de comportamento, uma doen\u00e7a\u201d. Novamente os fiscais v\u00e3o ao Riocentro e nada encontram.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No domingo, a disputa chega ao Supremo Tribunal Federal por duas vias distintas. A pr\u00f3pria Bienal entra com o pedido e, em paralelo, a Procuradoria Geral da Rep\u00fablica tamb\u00e9m questiona a decis\u00e3o do desembargador Mello Tavares. Os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes restabeleceram a primeira liminar concedida pelo TJ fluminense. De acordo com o nosso colunista, autor do mandado de seguran\u00e7a, \u201cO Judici\u00e1rio corrigiu o rumo dos direitos na Bienal, restabeleceu a liberdade de express\u00e3o, bem como afastou o risco de ser fechada a Bienal. O povo tendo acesso ao conhecimento, as editoras vendendo e os autores recebendo pelo seu trabalho&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">E os autores se juntaram em manifestos em favor da liberdade de express\u00e3o e contra a censura. Em um v\u00eddeo autores como Pedro Bandeira, Laurentino Gomes, Thalita Rebou\u00e7as, Raphael Montes, Ot\u00e1vio Cesar Jr. e Miriam Leit\u00e3o recitam versos da m\u00fasica Apesar de voc\u00ea, de Chico Buarque. Cerca de 70 autores que passaram pela Bienal tamb\u00e9m assinaram um manifesto que diz que o \u201cbrasileiro n\u00e3o precisa de tutor. Precisa de educa\u00e7\u00e3o para que cada um possa fazer suas escolhas com consci\u00eancia e liberdade\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na coletiva de imprensa em que fez o balan\u00e7o da Bienal, Marcos da Veiga Pereira, presidente do SNEL resumiu: \u201cFico feliz em terminar esse festival consagrando o valor que a Bienal tem e com a certeza de que o livro vai prosperar. Acreditamos muito no poder de transforma\u00e7\u00e3o do livro e, por isso, tivemos convic\u00e7\u00e3o do que fazer e de que atitude tomar nesses \u00faltimos dias\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;A Bienal \u00e9 e continuar\u00e1 sendo plural. O maior evento de conte\u00fado do pa\u00eds n\u00e3o termina neste domingo. Ele seguir\u00e1 com cada um que visitou ou trabalhou nesta edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica&#8221;, destacou Tatiana Zaccaro, diretora da Bienal. &#8220;Esta Bienal tamb\u00e9m seguir\u00e1 com aqueles que n\u00e3o puderam estar aqui, mas acompanharam nossos conte\u00fados e nosso posicionamento pela imprensa do mundo todo, pelas redes sociais ou em conversas com amigos. A partir de agora, quando voc\u00ea levar um livro para casa, estar\u00e1 levando a Bienal tamb\u00e9m&#8221;, concluiu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Balan\u00e7o das editoras<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As editoras reportaram bons resultados na Bienal. A Faro, por exemplo, j\u00e1 tinha programado o lan\u00e7amento do livro Feitos de sol, de Vinicius Grossos, um dos autores da casa que escreve para o p\u00fablico jovem com a tem\u00e1tica LGBTQIA+, o autor tamb\u00e9m acabou sendo convidado pela organiza\u00e7\u00e3o do evento para participar da Arena #SemFiltro para falar sobre Literatura Arco-\u00edris, o que ajudou ainda mais na divulga\u00e7\u00e3o da obra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Arqueiro e Sextante levaram para o seu estande um n\u00famero recorde de autores do cat\u00e1logo. No topo do ranking de mais vendidos das editoras est\u00e1 Thalita Rebou\u00e7as, com o lan\u00e7amento Confiss\u00f5es de uma garota linda, popular, e (secretamente) infeliz; Br\u00e1ulio Bessa, que autografou Um carinho na alma; Fred Elboni e seu Coragem \u00e9 agir com o cora\u00e7\u00e3o; Augusto Cury com Intelig\u00eancia Socioemocional; e Nathalia Arcuri, com o livro Me poupe!.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Para a Aut\u00eantica, o saldo geral foi positivo, apesar de n\u00e3o ter batido sua meta de vendas. \u201cAcreditamos que uma s\u00e9rie de fatores tenha influenciado neste resultado. Eles v\u00e3o desde as dificuldades financeiras enfrentadas pelos brasileiros nos \u00faltimos tempos at\u00e9 o sentimento de inseguran\u00e7a que, infelizmente, o Rio de Janeiro est\u00e1 vivendo\u201d, avalia Judith de Almeida, gerente comercial do Grupo Aut\u00eantica. Ela menciona ainda a estrutura do evento, que estimula a presen\u00e7a de varejistas que trabalham com pre\u00e7os de livros abaixo do valor de mercado. \u201cA participa\u00e7\u00e3o de expositores que t\u00eam foco nos \u2018sald\u00f5es\u2019 tem forte impacto nesse resultado. Ela estimula no p\u00fablico a ideia de que os livros devem, obrigatoriamente, custar pouco. Isso \u00e9 muito prejudicial ao setor, pois desestimula os investimentos em lan\u00e7amentos ou edi\u00e7\u00f5es de alto valor agregado\u201d, analisa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os leitores que passaram pelo estande da editora buscaram mais por hist\u00f3rias universais e o livro mais vendido acabou sendo Anne de Green Gables, de L. M. Montgomery, que fala sobre \u00e9tica, solidariedade, honestidade e a import\u00e2ncia do trabalho e da amizade. K-Pop &#8211; Al\u00e9m da Sobreviv\u00eancia, de Babi Dewet, \u00c9rica Imenes e Sol Paik; e Chapeuzinho Amarelo, escrito por Chico Buarque e ilustrado por Ziraldo, tamb\u00e9m ocuparam o p\u00f3dio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">J\u00e1 a editora Valentina registrou um aumento de 50% no faturamento e de 60% no n\u00famero de exemplares vendidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Bienal do Livro Rio de 2017. O lan\u00e7amento exclusivo na Bienal de Agir e pensar como um gato tamb\u00e9m foi diferencial para impulsionar as vendas. A editora n\u00e3o comercializou o t\u00edtulo em nenhum outro ponto de venda sendo assim um lan\u00e7amento exclusivo do evento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A HarperCollins tamb\u00e9m teve um saldo positivo: a editora registrou um aumento de 250% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vendas da Bienal de 2017. A editora levou 18 autores para o evento e os cinco livros mais vendidos da casa foram O Hobbit, de J.R.R. Tolkien; O Pequeno Pr\u00edncipe, de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry; Sherlock Holmes box; Fique comigo, de Ayobami Adebayo; e De frente com o serial killer, de John Douglas e Mark Olshaker.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Manifesto assinado na Bienal do Livro do Rio<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A Bienal Internacional do Livro Rio \u00e9 a oportunidade que temos, a cada dois anos, para nos reunir, encontrar nossos p\u00fablicos, nos inspirar e debater livremente sobre todo e qualquer tema, sem restri\u00e7\u00f5es e com empatia. Um evento de conte\u00fado qualificado e diverso, reconhecido nacional e internacionalmente como o maior festival cultural do Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nos \u00faltimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democr\u00e1tico, ao lado de 600 mil pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura. Se engana quem pensa que o alvo era a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos todos n\u00f3s cidad\u00e3os brasileiros, pois n\u00e3o precisamos ter quem determine o que podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro n\u00e3o precisa de tutor. Precisa de educa\u00e7\u00e3o para que cada um possa fazer suas escolhas com consci\u00eancia e liberdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Foi com al\u00edvio e muito orgulho que recebemos as duas decis\u00f5es de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo (8\/9) impedindo que a Bienal Internacional do Livro continuasse sofrendo ass\u00e9dio \u00e0 literatura e aos seus leitores. Do contr\u00e1rio, se criaria uma jurisprud\u00eancia que colocaria todos os eventos culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil \u00e0 merc\u00ea do entendimento do que \u00e9 pr\u00f3prio ou impr\u00f3prio a partir da \u00f3tica de cada um dos 5.470 prefeitos do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Encerramos essa edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Bienal Internacional do Livro Rio com o cora\u00e7\u00e3o cheio de orgulho e determina\u00e7\u00e3o. A Bienal n\u00e3o acaba hoje. Ela seguir\u00e1 com cada um de n\u00f3s todos os dias. O festival foi memor\u00e1vel. Deu voz e ouvidos a todos os p\u00fablicos. Reuniu e celebrou a cultura junto com autores, artistas, pensadores, lideran\u00e7as de movimentos sociais, pastor evang\u00e9lico, monge zen-budista, jornalistas, acad\u00eamicos, ativistas, chef de cozinha e muitos outros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Viva a Bienal do Livro Rio! Via a cultura! Viva a liberdade e a democracia!!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Bienal Internacional do Livro Rio 2019 tinha tudo para ser como foram todas as outras: grande p\u00fablico, grandes vendas (n\u00e3o o suficiente para alcan\u00e7ar o break-even, \u00e9 claro), mas nada al\u00e9m de mais uma bienal. 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