{"id":9164,"date":"2019-08-12T15:21:42","date_gmt":"2019-08-12T18:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/5-razoes-pelas-quais-a-formacao-de-professores-no-brasil-vai-de-mal-a-pior\/"},"modified":"2019-08-12T15:21:42","modified_gmt":"2019-08-12T18:21:42","slug":"5-razoes-pelas-quais-a-formacao-de-professores-no-brasil-vai-de-mal-a-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/5-razoes-pelas-quais-a-formacao-de-professores-no-brasil-vai-de-mal-a-pior\/","title":{"rendered":"5 raz\u00f5es pelas quais a forma\u00e7\u00e3o de professores no Brasil vai de mal a pior"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de um dos relat\u00f3rios mais importantes do mundo sobre Educa\u00e7\u00e3o, a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), repetiu algo que j\u00e1 havia anunciado anteriormente: docentes brasileiros desperdi\u00e7am muito tempo em sala para lidar com quest\u00f5es disciplinares. Aproximadamente um ter\u00e7o do per\u00edodo \u00e9 &#8220;perdido&#8221;: o aproveitamento das atividades pedag\u00f3gicas \u00e9 de apenas 67%. E esse fato reflete diretamente nos baixos \u00edndices de aprendizagem dos estudantes brasileiros.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Muitos ir\u00e3o atribuir a culpa desse quadro \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o das salas de aula, \u00e0 falta de disciplina dos alunos ou \u00e0 sobrecarga de responsabilidades ao professor. E n\u00e3o estar\u00e3o errados, em parte. Mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9, especialmente, sintoma de falhas na forma\u00e7\u00e3o que esses profissionais recebem nos cursos de pedagogia. A aus\u00eancia de abordagens na matriz curricular voltadas \u00e0 quest\u00e3o da psicologia comportamental, por exemplo, contribui em muito para essas lacunas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao mesmo tempo, as faculdades falham em preparar o professor em pontos essenciais. Despreparado para ensinar, ele perde autoridade em sala de aula. Ao gradua\u00e7\u00f5es, por exemplo, n\u00e3o ensinam a adotar t\u00e9cnicas de alfabetiza\u00e7\u00e3o, o que se reflete nos \u00edndices de analfabetismo (em 2019, ainda estamos tentando alcan\u00e7ar uma meta prevista para 2015). Pesquisas mostram ainda que o absente\u00edsmo em sala de aula e o baixo desempenho dos estudantes em testes tamb\u00e9m t\u00eam a sua causa na falta de habilidade do professor em motivar e passar os conte\u00fados. E salientam: \u00e9 preciso, com urg\u00eancia, reestruturar a matriz curricular dos cursos de pedagogia do pa\u00eds &#8211; al\u00e9m de atrair os melhores alunos para a profiss\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Com a ajuda de especialistas da \u00e1rea, elencamos alguns pontos importantes a serem revistos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>1. Disperso e sem foco<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os cursos de pedagogia n\u00e3o t\u00eam `identidade de doc\u00eancia`, `s\u00e3o dispersos` e `sem foco`. \u00c9 o que afirma Selma Garrido Pimenta, professora titular s\u00eanior da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e outros tr\u00eas pesquisadores, que reconhecem as fragilidades da forma\u00e7\u00e3o do pedagogo, em um estudo publicado em 2017. Embora a an\u00e1lise tenha se debru\u00e7ado sobre a matriz curricular de cursos de S\u00e3o Paulo, a situa\u00e7\u00e3o parece ser homog\u00eanea em todo o pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A origem do problema, argumentam os autores, est\u00e1 na indefini\u00e7\u00e3o do campo pedag\u00f3gico e da atua\u00e7\u00e3o do profissional docente. A gama de possibilidades para um pedagogo no mercado de trabalho faz com que o curr\u00edculo dos cursos se torne um `mix` de disciplinas sem foco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A gradua\u00e7\u00e3o `passeia` por diferentes \u00e1reas do conhecimento e acaba se distanciando de seu objetivo principal, que \u00e9 formar o aluno para lecionar na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Esse alheamento compromete, em muito, a forma\u00e7\u00e3o do profissional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;Esses cursos, em sua maioria, n\u00e3o est\u00e3o formando o pedagogo e, tampouco, um professor polivalente para a educa\u00e7\u00e3o infantil e anos iniciais do ensino fundamental&#8221;, insiste Selma. &#8220;Sua forma\u00e7\u00e3o se mostra fr\u00e1gil, superficial, generalizante, fragmentada, dispersiva e sem foco&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A garantia de mudan\u00e7a do quadro somente se dar\u00e1 se a licenciatura em pedagogia se assumir, definitivamente, como de forma\u00e7\u00e3o de professor para atuar na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, defende a pesquisadora. Do contr\u00e1rio, os egressos dificilmente ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de conduzir o ensino, como se tem notado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>2. &#8220;Perde&#8221; tempo com quest\u00f5es b\u00e1sicas<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quest\u00e3o antiga, mas que parece ainda n\u00e3o preocupar o pa\u00eds tanto quanto deveria, \u00e9 que os piores alunos do ensino m\u00e9dio est\u00e3o se tornando professores. Esse \u00e9 o perfil de grande parte dos candidatos aos cursos de pedagogia no Brasil, sendo que a maioria deles obteve notas no Enem menores que a da m\u00e9dia nacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Isso significa que, quando entram nas academias, os alunos n\u00e3o possuem conhecimentos m\u00ednimos. E na tentativa de suprir as defasagens dos estudantes, que j\u00e1 deveriam ingressar nas institui\u00e7\u00f5es superiores de ensino com, ao menos, escolariza\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, as universidades acabam n\u00e3o se aprofundando em quest\u00f5es mais importantes, como o ensino da did\u00e1tica. Dominar o conte\u00fado a ser ensinado \u00e9 fundamental, mas t\u00e3o ou mais essencial que isso \u00e9 saber ensin\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Pricila Chupil, pedagoga, psicopedagoga, mestre em Educa\u00e7\u00e3o e professora universit\u00e1ria conhece essa realidade de perto. `Nem mesmo os pronomes pessoais, por exemplo, s\u00e3o conte\u00fados que foram firmados no tipo de educa\u00e7\u00e3o dos alunos que ingressam na pedagogia`, conta. &#8220;Na faculdade, claro que o estudante volta a ver o que j\u00e1 se pressup\u00f5e que aprendeu, principalmente portugu\u00eas e matem\u00e1tica. Mas a maior preocupa\u00e7\u00e3o deveria ser em ensin\u00e1-lo a aplicar o conhecimento&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Claudia Costin, diretora geral do Centro de Excel\u00eancia e Inova\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas Educacionais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas do Rio de Janeiro, completa o diagn\u00f3stico: &#8220;o aluno n\u00e3o aprende a dar aula&#8221;. &#8220;Na m\u00e9dia, ele faz 3 anos e meio de matem\u00e1tica e 6 meses de teoria sobre a educa\u00e7\u00e3o, ou hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o, filosofia da educa\u00e7\u00e3o, psicologia da educa\u00e7\u00e3o. Mas ele n\u00e3o aprende a ensinar&#8221;, diz. `O estudante deveria, sim, conhecer bem o conte\u00fado. Parte \u00e9 suprir defici\u00eancias do ensino m\u00e9dio, mas outra parte deve ser avan\u00e7ar, sem d\u00favida`.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>3. Muita teoria, pouca pr\u00e1tica<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Aproximadamente metade das institui\u00e7\u00f5es analisadas por Selma Garrido e seus colegas n\u00e3o dedica nenhuma disciplina para supervis\u00e3o e acompanhamento dos est\u00e1gios. Os egressos chegam \u00e0s salas de aula, muitas vezes, com consider\u00e1vel bagagem te\u00f3rica &#8211; baseada em autores cujas teses j\u00e1 se tornaram obsoletas &#8211; mas sem conhecer o &#8220;ch\u00e3o da escola&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;A gente tem saudade do magist\u00e9rio de antigamente, que tem uma caracter\u00edstica mais pr\u00e1tica, e depois tinha a fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Hoje, sentimos uma defasagem muito grande nesse sentido&#8221;, diz a psicopedagoga Pricila. &#8220;Eu percebo que as pessoas que est\u00e3o entrando no mercado de trabalho n\u00e3o t\u00eam esse preparo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Historicamente, nos cursos de pedagogia, houve uma separa\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1tica e teoria, e uma supervaloriza\u00e7\u00e3o do primeiro ponto em detrimento do \u00faltimo. Mas se n\u00e3o caminharem juntos, volta a afirmar Selma Garrido, o resultado \u00e9 desastroso. `O est\u00e1gio, na verdade, \u00e9 que deveria ser essa unidade de teoria e pr\u00e1tica. Pois ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o exerc\u00edcio, mas \u00e9 o exerc\u00edcio com sabedoria. Se n\u00e3o houver pr\u00e1tica e teoria, n\u00e3o serve pra n\u00f3s`.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma quest\u00e3o ainda mais profunda \u00e9 identificada por Claudia Costin. Grande parte dos pedagogos s\u00e3o formados pelo ensino a dist\u00e2ncia que, ao mesmo tempo em que permite maior alcan\u00e7abilidade e flexibilidade, peca na falta de intera\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica did\u00e1tica. `O EaD permite muita flexibilidade, e eu gosto dessa ideia, mas n\u00e3o para medicina. Certamente tampouco em educa\u00e7\u00e3o`, defende.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Metaforicamente falando, Claudia compara o professor a um neurocirurgi\u00e3o que opera o c\u00e9rebro das pessoas. O docente, enquanto isso, opera o c\u00e9rebro de crian\u00e7as, com os mesmos riscos &#8211; n\u00e3o de morte imediata, mas de morte de vida intelectual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">`Ningu\u00e9m colocaria a forma\u00e7\u00e3o do neurocirurgi\u00e3o a dist\u00e2ncia. \u00c9 fundamental que o processo de forma\u00e7\u00e3o de professores, eventualmente, possa se beneficiar de ensino h\u00edbrido, mas que seja muito vivencial`, diz. &#8220;Que o professor, assim como o m\u00e9dico, desde o primeiro ano de faculdade, esteja presente em escolas, analisando o processo pedag\u00f3gico, aprendendo com professores experientes, assumindo, devagarinho, como faz o cirurgi\u00e3o, com `trechos de cirurgias&#8221;, &#8220;pedacinhos&#8221;de aulas, at\u00e9 que ele esteja pronto para ser um profissional muito bem capacitado`.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>4. Aus\u00eancia de abordagens voltadas \u00e0 psicologia comportamental<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As disciplinas sem foco, como citado acima, poderiam dar lugar a abordagens voltadas \u00e0 psicologia comportamental, por exemplo. \u00c9 o que sugere Vitor Haase, professor titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De acordo com Haase, os professores n\u00e3o sabem lidar com quest\u00f5es disciplinares nas escolas porque n\u00e3o se debru\u00e7am, na faculdade, em temas da psicologia comportamental. E \u00e9 isso o que gera, inclusive, altos \u00edndices de absente\u00edsmo. `Os professores n\u00e3o aguentam ficar em sala de aula porque n\u00e3o s\u00e3o preparados, n\u00e3o aprendem a lidar com os desafios. Ficam estressados, entram de licen\u00e7a ou acabam dando um jeito de sair da sala`, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sem terem no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de quais s\u00e3o os mecanismos cognitivos que est\u00e3o envolvidos na aprendizagem, como na alfabetiza\u00e7\u00e3o, por exemplo, os docentes n\u00e3o conseguem implementar quest\u00f5es disciplinares ou mesmo motivar os alunos ao estudo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Do contr\u00e1rio, se fosse capacitado, o professor poderia, inclusive, identificar quando algum aluno precisa de ajuda especializada e impedir decis\u00f5es precipitadas, como o suic\u00eddio &#8211; cujo \u00edndice entre os estudantes ainda assusta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>5. Faculdades que s\u00f3 visam lucro<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outro fator seriam os chamados &#8220;conglomerados econ\u00f4micos&#8221;. Segundo a pesquisa de Selma, em algumas dessas faculdades, os professores, em grande parte, s\u00e3o horistas, n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ter projeto pedag\u00f3gico do curso e acabam priorizando aspectos tecnicistas. Isso, conclui a an\u00e1lise, desfavorece as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos professores, que acabam n\u00e3o capacitando seus alunos graduandos como deveriam.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;Essas institui\u00e7\u00f5es, que foram se reunindo em grandes corpora\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, transformaram o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em uma mercadoria. Isso \u00e9 oposto ao modelo que n\u00f3s definimos como de qualidade&#8221;, diz. A &#8220;precariedade&#8221; do trabalho dos profissionais nas faculdades de conglomerados, afirma Selam, n\u00e3o permite que eles desenvolvam trabalhos coletivos ou mesmo acompanhem e supervisionem est\u00e1gios. &#8220;Isso tudo requer tempo, requer professores efetivos&#8221;, diz. &#8220;H\u00e1 um problema s\u00e9rio com essas institui\u00e7\u00f5es e com a finalidade delas. Uma forma\u00e7\u00e3o de qualidade n\u00e3o se resolve nessa perspectiva apenas tecnicista&#8221;, conclui.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de um dos relat\u00f3rios mais importantes do mundo sobre Educa\u00e7\u00e3o, a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis), repetiu algo que j\u00e1 havia anunciado anteriormente: docentes brasileiros desperdi\u00e7am muito tempo em sala para lidar com quest\u00f5es disciplinares. 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