{"id":8863,"date":"2019-04-03T15:43:11","date_gmt":"2019-04-03T18:43:11","guid":{"rendered":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/demissoes-no-mec-em-disputa-interna-ja-causaram-r-171-mil-de-desperdicio\/"},"modified":"2019-04-03T15:43:11","modified_gmt":"2019-04-03T18:43:11","slug":"demissoes-no-mec-em-disputa-interna-ja-causaram-r-171-mil-de-desperdicio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrelivros.org.br\/site\/demissoes-no-mec-em-disputa-interna-ja-causaram-r-171-mil-de-desperdicio\/","title":{"rendered":"Coordenador do MEC analisa o grande debate sobre os m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A discuss\u00e3o sobre os melhores m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova nem exclusividade do Brasil. H\u00e1 pelo menos 50 anos, esse tem sido o alvo de muitas discuss\u00f5es entre cientistas, educadores e formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas de alfabetiza\u00e7\u00e3o em diversos pa\u00edses. Esse \u201cgrande debate\u201d sobre o ensino das habilidades de leitura e de escrita tornou-se expl\u00edcito inicialmente pela pesquisadora Jeanne Chall, professora j\u00e1 falecida da Universidade de Harvard, que publicou, em 1967, nos EUA, o livro Learning to Read: The Great Debate, no qual fez uma intensa pesquisa sobre o assunto e revelou quais abordagens eram mais eficientes para o ensino da leitura e da escrita, concluindo que a abordagem f\u00f4nica era a mais eficiente. Esse tamb\u00e9m pode ser considerado um marco que impulsionou diversos pa\u00edses a buscar evid\u00eancias cient\u00edficas para embasar suas decis\u00f5es sobre pol\u00edticas, programas e a\u00e7\u00f5es educacionais.<\/span><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesse sentido, pa\u00edses como EUA, Reino Unido, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia, Fran\u00e7a, Finl\u00e2ndia e Portugal promoveram modifica\u00e7\u00f5es em suas recomenda\u00e7\u00f5es para a alfabetiza\u00e7\u00e3o, fundamentando-se nas bases da Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura, que consiste no conjunto de evid\u00eancias produzidas em \u00e1reas como a Psicologia Cognitiva, a Neuroci\u00eancia Cognitiva e a Lingu\u00edstica Cognitiva, que, desde os anos 1970, estudam cientificamente como as pessoas aprendem a ler e a escrever e como podemos ensin\u00e1-las de modo mais eficiente. O Presidente da Rep\u00fablica, Jair Messias Bolsonaro, e o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Ricardo V\u00e9lez Rodr\u00edguez, em conson\u00e2ncia com as experi\u00eancias exitosas na \u00e1rea de alfabetiza\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses, tamb\u00e9m optaram por formular uma nova Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o com base em evid\u00eancias da Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O \u201cgrande debate\u201d pode ser resumido entre defensores de abordagens centradas no c\u00f3digo versus defensores de abordagens centradas no contexto e nos significados. A proposta dos primeiros, que defendem o m\u00e9todo ou a abordagem f\u00f4nica, \u00e9 a de que se deve ensinar explicitamente as rela\u00e7\u00f5es entre letras e seus sons, ou seja, entre grafemas e fonemas, no come\u00e7o da alfabetiza\u00e7\u00e3o. Para eles, os textos utilizados pelas crian\u00e7as devem ser apropriados \u00e0 sua capacidade de leitura e \u00e0 sua idade, ao passo que textos mais longos e complexos devem ser usados apenas pelos professores para a amplia\u00e7\u00e3o do seu vocabul\u00e1rio, desenvolvendo-se a oralidade delas. Os segundos, por sua vez, recomendam que as crian\u00e7as devem interagir, desde o come\u00e7o, com textos ricos que lhes permitam aprender sobre regras do sistema de escrita de modo mais natural e impl\u00edcito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O coordenador-geral de Neuroci\u00eancia Cognitiva e Lingu\u00edstica do MEC, professor Renan Sargiani, explicou um pouco das metodologias e das abordagens f\u00f4nicas, al\u00e9m de outras formas de alfabetiza\u00e7\u00e3o, em uma entrevista ao portal do MEC.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>1. Por que o m\u00e9todo f\u00f4nico ou fon\u00e9tico pode ser considerado uma das melhores formas de ensinar uma crian\u00e7a a ler?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Renan Sargiani<\/strong> &#8211; \u00c9 muito importante, em primeiro lugar, esclarecer os termos que foram utilizados nessa pergunta que normalmente geram muitas d\u00favidas e equ\u00edvocos. N\u00e3o existe apenas um \u00fanico m\u00e9todo f\u00f4nico, mas sim v\u00e1rios m\u00e9todos de ensino de leitura e de escrita que se fundamentam em uma abordagem f\u00f4nica, isto \u00e9, na recomenda\u00e7\u00e3o de que o ensino de leitura e de escrita deve come\u00e7ar por instru\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas em uma ordem sequencial l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es entre os grafemas e os fonemas, ou seja, das letras e seus sons.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quando se fala de m\u00e9todo, fala-se de algo mais delimitado, uma esp\u00e9cie de pacote, criado com um objetivo espec\u00edfico de ensinar um determinado conte\u00fado, de uma determinada forma, prevista por quem elaborou esse m\u00e9todo. Por isso, os m\u00e9todos normalmente est\u00e3o ligados a um criador ou a um autor. Por exemplo, o M\u00e9todo Montessori tem esse nome em alus\u00e3o \u00e0s pesquisas e \u00e0s teorias da m\u00e9dica e educadora italiana Maria Montessori. No caso do m\u00e9todo f\u00f4nico, h\u00e1 uma confus\u00e3o entre m\u00e9todo, abordagem e componente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Abordagens s\u00e3o proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mais abrangentes que permitem a formula\u00e7\u00e3o de diferentes m\u00e9todos. A abordagem f\u00f4nica trata-se do conjunto de recomenda\u00e7\u00f5es para a alfabetiza\u00e7\u00e3o que priorizam o ensino sistem\u00e1tico das rela\u00e7\u00f5es entre fonemas e grafemas como sendo o primeiro passo para que se aprenda a ler e a escrever com sucesso em sistemas alfab\u00e9ticos. A abordagem f\u00f4nica baseia-se na premissa de que, como o sistema alfab\u00e9tico representa a fala no n\u00edvel dos fonemas, para que um aprendiz possa ler e escrever, deve-se primeiro conhecer o princ\u00edpio alfab\u00e9tico, ou seja, o modo pelo qual se organiza esse sistema, em que cada letra ou conjunto de letras das palavras escritas representa sistematicamente os fonemas da linguagem falada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>2. Em que se baseia essa concep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; As pesquisas mostram que os m\u00e9todos que se fundamentam na abordagem f\u00f4nica s\u00e3o os mais eficientes para ensinar-se a ler e a escrever em sistemas alfab\u00e9ticos, como \u00e9 o caso do portugu\u00eas, porque fornecem a chave do funcionamento do c\u00f3digo alfab\u00e9tico. Portanto, existem diversos m\u00e9todos que se baseiam na abordagem f\u00f4nica, e n\u00e3o apenas um \u00fanico m\u00e9todo f\u00f4nico. Da mesma forma, tamb\u00e9m existem diferentes estrat\u00e9gias de ensino f\u00f4nico previstas na abordagem f\u00f4nica: a F\u00f4nica Sint\u00e9tica, a F\u00f4nica Anal\u00edtica, a F\u00f4nica Embutida, a F\u00f4nica por Analogia etc. Cada forma de ensinar a f\u00f4nica tem suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e impactos, sendo a f\u00f4nica sint\u00e9tica reconhecida como a mais eficiente. Trata-se de ensinar \u00e0s crian\u00e7as primeiro as rela\u00e7\u00f5es entre os grafemas (as letras ou grupos de letras) e os fonemas (sons) que elas representam para depois ensin\u00e1-las como sintetizar ou juntar essas letras e sons para formar palavras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As pesquisas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, t\u00eam mostrado que adotar a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica \u00e9 condi\u00e7\u00e3o sine qua non para aprender a ler a e a escrever em um sistema alfab\u00e9tico, por ser esse um sistema que representa a fala no n\u00edvel dos fonemas. Com isso, queremos dizer que a rela\u00e7\u00e3o entre grafemas e fonemas \u00e9 o que n\u00f3s chamamos de f\u00f4nica, conhecimento grafofon\u00eamico, mapeamento ortogr\u00e1fico, princ\u00edpio alfab\u00e9tico ou conhecimento f\u00f4nico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A palavra \u201cf\u00f4nica\u201d tamb\u00e9m precisa ser esclarecida e n\u00e3o deve ser confundida com a Fon\u00e9tica ou com a Fonologia. F\u00f4nica \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o do termo phonics em l\u00edngua inglesa. Esse termo \u00e9 um neologismo tamb\u00e9m em ingl\u00eas e foi criado para referir-se ao conhecimento simplificado de fon\u00e9tica que deve ser usado para ensinar a ler e a escrever. A Fon\u00e9tica e a Fonologia s\u00e3o \u00e1reas de estudo da Lingu\u00edstica muito mais complexas do que a F\u00f4nica. A instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica \u00e9 importante porque justamente vai ensinar aquilo que h\u00e1 de mais elementar na aprendizagem da leitura e da escrita de um alfabeto: as rela\u00e7\u00f5es entre as letras das palavras escritas e os sons das palavras faladas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os m\u00e9todos que se fundamentam na abordagem f\u00f4nica garantem, portanto, a base essencial da alfabetiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a compreens\u00e3o do funcionamento do c\u00f3digo alfab\u00e9tico. Uma crian\u00e7a que aprende quais s\u00e3o as letras e quais s\u00e3o os sons que elas representam ganha um poderoso recurso psicolingu\u00edstico que a capacita a ler e a escrever palavras com autonomia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, vimos o surgimento de uma verdadeira Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura, que, em resumo, mostra que a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica \u2014 e \u00e9 essa a terminologia mais apropriada \u2014 \u00e9 um componente crucial para o ensino eficiente de leitura e de escrita em um sistema alfab\u00e9tico. Esse componente \u00e9 o que oferece melhores condi\u00e7\u00f5es de sucesso na alfabetiza\u00e7\u00e3o para a maioria das crian\u00e7as, especialmente aquelas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social e que precisam do ensino expl\u00edcito das rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons para avan\u00e7arem mais rapidamente no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>3. Ent\u00e3o o que podemos estabelecer como f\u00f4nica?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; \u00c9 preciso esclarecer que a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica \u00e9 apenas uma etapa do processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Como uma etapa, ela tem dura\u00e7\u00e3o, com come\u00e7o, meio e fim. Podemos dizer ent\u00e3o que a f\u00f4nica n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo, mas sim um componente de m\u00e9todos, programas ou abordagens de alfabetiza\u00e7\u00e3o que s\u00e3o eficientes. Todo bom programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o inclui diferentes componentes e pr\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica \u00e9 um dos componentes essenciais, bem como a consci\u00eancia fon\u00eamica, a flu\u00eancia de leitura oral, o ensino de vocabul\u00e1rio e a compreens\u00e3o de textos. Entre as pr\u00e1ticas, est\u00e3o a leitura compartilhada, a leitura em voz alta, a leitura guiada, a escrita independente e a escrita compartilhada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As pesquisas mostram que, desde a educa\u00e7\u00e3o infantil, devem ser desenvolvidas habilidades fundamentais para a alfabetiza\u00e7\u00e3o. Essas habilidades facilitam todo o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Entre elas se destacam duas habilidades: a consci\u00eancia fon\u00eamica e o conhecimento alfab\u00e9tico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A consci\u00eancia fon\u00eamica \u00e9 uma sub-habilidade da consci\u00eancia fonol\u00f3gica. Ela \u00e9 a habilidade de prestar aten\u00e7\u00e3o, de identificar e manipular, individualmente, os menores sons da fala, isto \u00e9, os fonemas, sendo um dos melhores preditores do sucesso na alfabetiza\u00e7\u00e3o. As professoras podem fazer v\u00e1rios jogos divertidos, l\u00fadicos, que estimulem o desenvolvimento dessa consci\u00eancia dos fonemas, que n\u00e3o se desenvolve naturalmente. Al\u00e9m disso, ainda na educa\u00e7\u00e3o infantil, \u00e9 importante que as crian\u00e7as aprendam o conhecimento alfab\u00e9tico, que \u00e9 conhecimento sobre os nomes, as formas e os sons das letras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O conhecimento alfab\u00e9tico e a consci\u00eancia fon\u00eamica, juntos, formam a base para que as crian\u00e7as possam aprender a ler e a escrever em um sistema alfab\u00e9tico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 preciso esclarecer tamb\u00e9m que ler n\u00e3o \u00e9 compreender, mas que o objetivo da leitura \u00e9 a compreens\u00e3o. \u00c9 um erro achar que apresentar textos longos e complexos, desde o come\u00e7o da alfabetiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 a base para que a crian\u00e7a desenvolva a compreens\u00e3o de textos. Na verdade, a compreens\u00e3o de textos depende tanto de uma boa habilidade de reconhecimento de palavras quanto de uma boa compreens\u00e3o da linguagem oral. O reconhecimento automatizado de palavras acontece quando a decodifica\u00e7\u00e3o \u00e9 proficiente, permitindo que os leitores reconhe\u00e7am imediatamente as palavras que j\u00e1 leram antes. Isso libera espa\u00e7o na mem\u00f3ria de trabalho permitindo processos cognitivos e lingu\u00edsticos complexos envolvidos na compreens\u00e3o de textos, entre eles a compreens\u00e3o da linguagem oral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A compreens\u00e3o da linguagem oral \u00e9 mais ampla e desenvolve-se desde o nascimento. Depois de aproximadamente 150 mil\u00e9simos de segundos que uma palavra escrita \u00e9 reconhecida visualmente, ela \u00e9 tratada no c\u00e9rebro como se fosse uma palavra ouvida. Portanto, a compreens\u00e3o de textos, depois do reconhecimento da palavra, envolve o mesmo processamento de compreens\u00e3o da linguagem oral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por essa raz\u00e3o, na educa\u00e7\u00e3o infantil, e mesmo na alfabetiza\u00e7\u00e3o no primeiro ano do ensino fundamental, os textos longos e complexos devem ser lidos pelas professoras, estimulando a motiva\u00e7\u00e3o pela leitura, o desenvolvimento de vocabul\u00e1rio e a compreens\u00e3o da linguagem oral. As crian\u00e7as, por sua vez, devem receber livros e textos apropriados para a sua idade e o seu n\u00edvel de leitura para que possam praticar a decodifica\u00e7\u00e3o, levando-as ao reconhecimento automatizado de palavras e, por fim, possibilitando a compreens\u00e3o de textos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>4. H\u00e1 outro ou outros m\u00e9todos ou abordagens consideradas t\u00e3o eficazes quanto o m\u00e9todo f\u00f4nico na alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> \u2014 A quest\u00e3o da efic\u00e1cia ou da efici\u00eancia dos m\u00e9todos ou das abordagens de alfabetiza\u00e7\u00e3o envolve diferentes fatores. Fatores como quem ensina, como se ensina e para quem se ensina podem influenciar muito independentemente do m\u00e9todo ou da abordagem que se escolha; de modo geral, podemos identificar caracter\u00edsticas que s\u00e3o consideradas fundamentais para facilitar a aprendizagem da maioria das crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Existem diversos relat\u00f3rios nacionais e estrangeiros, bem como estudos de revis\u00e3o da literatura cient\u00edfica, que atestam que a abordagem f\u00f4nica, a qual privilegia o ensino expl\u00edcito e sistem\u00e1tico do c\u00f3digo alfab\u00e9tico no come\u00e7o da alfabetiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais eficiente do que a abordagem global, tamb\u00e9m chamada de construtivista ou de psicog\u00eanese da l\u00edngua escrita aqui no Brasil. A abordagem global privilegia os contextos significativos, usando, desde o come\u00e7o, textos longos que s\u00e3o \u00fateis para o desenvolvimento da oralidade, mas que n\u00e3o explicitam as rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons, sendo eficientes apenas para aquelas crian\u00e7as que j\u00e1 possuem ampla experi\u00eancia com materiais de leitura, que conhecem as letras e os sons porque aprenderam em casa ou em outros ambientes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>5. Como acontece o processo de aprendizagem de leitura? O que seria mais apropriado?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; Quando uma crian\u00e7a que est\u00e1 aprendendo a ler e que ainda n\u00e3o \u00e9 capaz de reconhecer a maioria das palavras de um texto depara-se com textos longos, na verdade, isso aumenta a sensa\u00e7\u00e3o de incapacidade dela. Esse contato, portanto, torna-se um problema em vez de uma solu\u00e7\u00e3o. O correto \u00e9 fornecer \u00e0 crian\u00e7a um texto apropriado para o seu n\u00edvel de leitura, que permita que ela possa exercitar aquilo que est\u00e1 aprendendo e se sinta, cada vez mais, confiante e com vontade de ler textos mais extensos. Os textos longos n\u00e3o devem estar ausentes no processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, devem ser usados pelas professoras e pelos pais para estimular a linguagem oral, enriquecer o vocabul\u00e1rio, estimular a compreens\u00e3o oral e o gosto pela leitura nas crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesse sentido, a abordagem global ou construtivista, na verdade, deixa a maioria das crian\u00e7as \u00e0 merc\u00ea da sorte de que encontrem, em casa ou em outros ambientes, que n\u00e3o a sala de aula, algu\u00e9m que as ensine o que a abordagem f\u00f4nica ensina desde o come\u00e7o, que \u00e9 a base para aprender a ler e a escrever.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Chamamos de corpo docente oculto esse fen\u00f4meno de crian\u00e7as que suspostamente aprendem na escola por meio da abordagem global, mas que, na verdade, s\u00e3o ensinadas pelos pais ou por irm\u00e3os mais velhos em casa. Perceba que, dessa forma, n\u00e3o significa que a abordagem global ou construtivista n\u00e3o funciona, mas sim que ela n\u00e3o \u00e9 a recomendada para a maioria das crian\u00e7as que possuem poucos conhecimentos e habilidades necess\u00e1rias para aprender a ler e a escrever quando ingressam na escola, e que, muito provavelmente, tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e3o a sorte de encontrar um corpo docente oculto, ou seja, algu\u00e9m que as ensine fora da sala de aula.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As evid\u00eancias de pesquisas mostram que quanto menos uma crian\u00e7a sabe sobre habilidades fundamentais de alfabetiza\u00e7\u00e3o mais ela depende do ensino expl\u00edcito ofertado pela professora, havendo a necessidade, portanto, de que as professoras utilizem sim abordagens mais eficientes, e n\u00e3o quaisquer abordagens, o que nesse caso seriam as abordagens f\u00f4nicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">As habilidades fundamentais para a alfabetiza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m chamadas de precursores, s\u00e3o aquelas que as crian\u00e7as desenvolvem antes do ensino formal de leitura e de escrita. Entre elas, podemos citar habilidades como a consci\u00eancia fonol\u00f3gica, a consci\u00eancia fon\u00eamica, o conhecimento alfab\u00e9tico, a aquisi\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio e a familiaridade com livros. Essas habilidades devem ser estimuladas, tanto em casa quanto na educa\u00e7\u00e3o infantil, e formam a base para o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita no primeiro ano do ensino fundamental.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Bons programas ou m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o devem incluir esses componentes e normalmente s\u00e3o chamados de programas balanceados, completos ou abrangentes, porque incluem as diversas habilidades necess\u00e1rias para aprender-se a ler e a escrever \u2014 entre eles se inclui a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 importante ressaltar que, embora a abordagem f\u00f4nica comece pelo ensino sistem\u00e1tico das rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons, ela n\u00e3o se resume a isso porque ela tamb\u00e9m inclui v\u00e1rios outros componentes importantes que permitem a formula\u00e7\u00e3o de programas balanceados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>6. De uma forma sint\u00e9tica, qual seria a diferen\u00e7a entre as abordagens f\u00f4nica e construtivista?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; O principal diferencial entre a abordagem f\u00f4nica e a abordagem construtivista \u00e9 que a primeira foca no ensino expl\u00edcito das rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons, ao passo que a segunda foca mais nos significados, no texto, no contexto, deixando o ensino das rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons de modo mais impl\u00edcito e acidental, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o eficaz para a maioria das crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na abordagem f\u00f4nica, primeiro voc\u00ea ensina o c\u00f3digo alfab\u00e9tico \u2014 letras representam sons \u2014 e a\u00ed voc\u00ea vai enriquecendo esse conte\u00fado com outros textos mais complexos. Quando se comparam essas duas abordagens, h\u00e1 evid\u00eancias de que a f\u00f4nica supera a construtivista. Aquela supera esta para crian\u00e7as com desenvolvimento t\u00edpico e at\u00edpico, para aquelas que possuem um ambiente que desfavorece a aprendizagem e tamb\u00e9m para aquelas que possuem o ambiente mais favor\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Entre as diferentes formas de ensinar-se a f\u00f4nica, tamb\u00e9m observamos vantagens de um modo para outro. A F\u00f4nica Sint\u00e9tica (dos fonemas para as palavras), por exemplo, \u00e9 melhor do que a F\u00f4nica Anal\u00edtica (das palavras para os fonemas) e a F\u00f4nica Anal\u00edtica \u00e9 melhor do que a F\u00f4nica Embutida (instru\u00e7\u00e3o n\u00e3o expl\u00edcita embutida em textos).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O que as pesquisas mostram \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 questionamentos de que, para aprender a ler e a escrever, em um sistema alfab\u00e9tico, \u00e9 necess\u00e1rio aprender f\u00f4nica. O debate est\u00e1 no modo como se deve ensinar isso, de forma expl\u00edcita ou impl\u00edcita, sistem\u00e1tica ou n\u00e3o sistem\u00e1tica. As evid\u00eancias mais vigorosas apontam que isso deve ser feito de modo expl\u00edcito e sistem\u00e1tico, o que n\u00e3o significa que deva ser chato e enfadonho: pode ser l\u00fadico e muito divertido, como v\u00e1rios m\u00e9todos e programas que existem em diferentes pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O que temos de deixar claro \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico m\u00e9todo f\u00f4nico e que o conhecimento de f\u00f4nica \u00e9 um componente de m\u00e9todos eficientes de alfabetiza\u00e7\u00e3o que n\u00f3s costumamos chamar de abordagens balanceadas ou compreensivas, no sentido de que elas incluem diferentes componentes necess\u00e1rios para o sucesso na alfabetiza\u00e7\u00e3o, ou seja, a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica, a consci\u00eancia fon\u00eamica, o vocabul\u00e1rio, a flu\u00eancia e a compreens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>7. Como considerar as vantagens de aprendizado do m\u00e9todo ou das abordagens f\u00f4nicas sobre outros m\u00e9todos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; Primeiramente, n\u00f3s temos de considerar que a ci\u00eancia est\u00e1 em cont\u00ednua evolu\u00e7\u00e3o. A cada dia que passa, n\u00f3s descobrimos coisas novas que nos impelem a modificar cren\u00e7as passadas. Atualmente, as pesquisas desenvolvidas, nos campos da Psicologia Cognitiva e da Neuroci\u00eancia Cognitiva, que s\u00e3o dois dos maiores aportes da Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura, revelam coisas que n\u00e3o sab\u00edamos 20, 30, 50, 100 anos atr\u00e1s. As pessoas ensinam as outras a ler e a escrever h\u00e1 pelo menos 7 mil anos, mas hoje temos condi\u00e7\u00f5es de investigar o impacto de diferentes modos de ensino com recursos muito sofisticados. As pesquisas em Neuroci\u00eancias mostram, inclusive, o que acontece, em tempo real, no c\u00e9rebro enquanto estamos lendo ou aprendendo a ler.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Essas evid\u00eancias nos mostram que herdamos da evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie um c\u00e9rebro capaz de aprender coisas novas, por meio da plasticidade neuronal, ou seja, por meio da reorganiza\u00e7\u00e3o das conex\u00f5es entre neur\u00f4nios. Nosso c\u00e9rebro n\u00e3o nasce programado para ler e escrever, coisas que s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es culturais mais recentes, mas sim predisposto a aprender coisas b\u00e1sicas que os homens das cavernas j\u00e1 faziam, como falar, ver e ouvir. A plasticidade neuronal que nos permite reorganizar esses sistemas a fim de que possamos aprender a ler e a escrever.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os sistemas de escrita t\u00eam cerca de sete mil anos, dez mil anos no m\u00e1ximo, a fala n\u00e3o: ela \u00e9 mais antiga. A linguagem oral foi desenvolvida na esp\u00e9cie humana h\u00e1 muito tempo, tanto que voc\u00ea n\u00e3o pode impedir uma crian\u00e7a de aprender a falar. Em condi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas, mesmo com pouco est\u00edmulo, uma crian\u00e7a aprende a falar. Se ela tiver todo o aparato biol\u00f3gico para aprender a falar, ela vai aprender a falar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>8 &#8211; O que dizem os especialistas sobre o assunto?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; O Steven Pinker, que \u00e9 um professor da Universidade de Harvard (EUA), diz que esse \u00e9 o \u201cinstinto da linguagem\u201d, instinto porque \u00e9 algo t\u00e3o forte na esp\u00e9cie humana que voc\u00ea n\u00e3o pode evitar de aprender a falar. Isso faz o nosso c\u00e9rebro aprender muito rapidamente a linguagem oral, mas o mesmo n\u00e3o ocorre com a linguagem escrita, tanto \u00e9 que voc\u00ea pode ser um analfabeto na idade adulta mesmo convivendo com o \u201cmundo letrado\u201d a vida toda, e isso n\u00e3o significa que voc\u00ea tenha qualquer tipo de problema de aprendizagem. Tamb\u00e9m n\u00e3o significa que os adultos que n\u00e3o aprenderam a ler e a escrever na inf\u00e2ncia n\u00e3o podem aprender na idade adulta: n\u00f3s temos evid\u00eancias de que o que importa de fato para que uma crian\u00e7a possa aprender a ler e a escrever \u00e9 o ensino que ela recebe. Prova disso \u00e9 que crian\u00e7as com os mais diferentes tipos de necessidades podem aprender a ler e a escrever. Todos podem aprender essas habilidades desde que lhes sejam dadas condi\u00e7\u00f5es apropriadas de ensino. As pesquisas mostram que o modo como voc\u00ea ens<\/span><br \/><span style=\"font-size: 12pt;\">ina tem um papel muito importante no processo e que ele pode ser at\u00e9 mesmo determinante para o sucesso ou n\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o. A Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura tem nos mostrado ent\u00e3o quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ou os elementos que favorecem mais o sucesso na alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A linguagem escrita \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o e precisa ser ensinada, n\u00e3o descoberta. N\u00e3o d\u00e1 para uma crian\u00e7a descobrir a escrita sozinha na sala de aula: ela precisa aprender, e aprender a mesma linguagem escrita que \u00e9 convencionada com os demais ao seu redor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Os estudos de Neuroci\u00eancias, principalmente do pesquisador franc\u00eas Stanislas Dehaene, mostram que o c\u00e9rebro da crian\u00e7a \u00e9 muito bem estruturado porque herdamos da nossa evolu\u00e7\u00e3o redes cerebrais especializadas para processar a vis\u00e3o, os rostos, a linguagem falada, os n\u00fameros, mas n\u00e3o a leitura e a escrita. \u00c9 a reciclagem neuronal, a capacidade dos neur\u00f4nios de aprender, que nos permite aprender.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em um estudo do professor Dehaene, com a participa\u00e7\u00e3o do professor Jos\u00e9 Morais, um pesquisador portugu\u00eas muito importante e conhecido no Brasil, que trabalha na B\u00e9lgica atualmente, descobriu-se que existe uma \u00e1rea no c\u00e9rebro chamada \u00c1rea da Forma Visual das Palavras. Eles testaram uma s\u00e9rie de est\u00edmulos visuais para verificar se existia uma \u00e1rea do c\u00e9rebro que respondia ao reconhecimento das letras e perceberam que, nos adultos que eram alfabetizados, seja na inf\u00e2ncia ou na idade adulta, essa \u00e1rea era mais ativada em resposta a est\u00edmulos como letras, mas n\u00e3o era t\u00e3o ativada para pessoas que eram analfabetas. Essa \u00e1rea se especializa ent\u00e3o para o reconhecimento de palavras escritas, sendo que, em analfabetos, ela responde mais pelo reconhecimento de faces, de rostos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quando a crian\u00e7a est\u00e1 aprendendo, ela est\u00e1 mudando essa \u00e1rea do c\u00e9rebro para reconhecer as letras sempre da mesma forma. Isso \u00e9 uma das coisas que a gente observa tamb\u00e9m como resultado direto dos m\u00e9todos usados para alfabetizar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em um estudo mais recente, de 2015, um grupo de pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA), liderado pelo professor Bruce McCandliss, descobriu que leitores iniciantes que focam nas rela\u00e7\u00f5es entre letras e sons, ou seja, no escopo da f\u00f4nica, aumentam a atividade na \u00e1rea do c\u00e9rebro que \u00e9 melhor preparada para ler, a saber, o hemisf\u00e9rio esquerdo, enquanto aqueles que focam nas palavras como um todo, abordagem global, ativam mais o lado direito que processa as palavras como imagens.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Eles perceberam que aqueles que aprenderam pela abordagem f\u00f4nica conseguem ler palavras novas mais facilmente porque eles aprenderam o mecanismo de funcionamento do sistema alfab\u00e9tico, enquanto o grupo que aprendeu globalmente n\u00e3o consegue progredir para palavras novas porque eles identificam a palavra como uma figura, e isso n\u00e3o permite o reconhecimento de palavras novas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Isso n\u00f3s j\u00e1 sab\u00edamos, por meio dos estudos de comportamento, mas o que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos era o efeito disso no c\u00e9rebro, o que foi pioneiro nesse estudo. Isso nos d\u00e1 mais uma evid\u00eancia da vantagem da abordagem f\u00f4nica sobre a abordagem global ou construtivista. Al\u00e9m de a abordagem f\u00f4nica permitir que a maioria das crian\u00e7as aprenda mais rapidamente e melhor, ela tamb\u00e9m as permite desenvolver a autonomia de leitura e de escrita por meio da ativa\u00e7\u00e3o do hemisf\u00e9rio esquerdo do c\u00e9rebro, respons\u00e1vel pelo processamento da linguagem, sendo, por isso, aquela mais ideal a ser usada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Se voc\u00ea aprende pela f\u00f4nica, voc\u00ea consegue aprender o mecanismo b\u00e1sico da decodifica\u00e7\u00e3o de palavras; portanto, voc\u00ea l\u00ea palavras novas que n\u00e3o lhe foram ensinadas. A crian\u00e7a passa a ler palavras em outros contextos porque aprendeu como funciona a leitura. O global n\u00e3o permite essa autonomia: como h\u00e1 muito mais palavras para memorizar do que letras, e como a crian\u00e7a \u00e9 ensinada a tratar palavras como figuras, o seu desenvolvimento da leitura e da escrita \u00e9 limitado e dificultado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>9. Onde est\u00e3o as recomenda\u00e7\u00f5es para o aprendizado do m\u00e9todo ou das abordagens f\u00f4nicas nas escolas do pa\u00eds?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; A instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica \u00e9 um componente eficiente de bons m\u00e9todos de leitura e de escrita e j\u00e1 \u00e9 recomendada em diversos relat\u00f3rios de pesquisas nacionais e estrangeiros. Ali\u00e1s, ela j\u00e1 est\u00e1 prevista at\u00e9 mesmo na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em que foi estabelecido, nos primeiros anos do ensino fundamental referentes \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, que se deve trabalhar com consci\u00eancia fonol\u00f3gica, com o ensino de letras e com o ensino da natureza do sistema alfab\u00e9tico e das rela\u00e7\u00f5es entre fonemas e grafemas com o objetivo de decodific\u00e1-los, que \u00e9 justamente aquilo que se recomenda em uma abordagem f\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O Pacto Nacional pela Alfabetiza\u00e7\u00e3o na Idade Certa (PNAIC) e o Programa Mais Alfabetiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 cont\u00eam esse tipo de perspectiva embutida de certo modo, principalmente com os jogos de consci\u00eancia fonol\u00f3gica. Muitas escolas da rede particular utilizam esses princ\u00edpios e iniciativas de alguns Munic\u00edpios e Estados tamb\u00e9m fazem esse tipo de recomenda\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esses documentos, como a BNCC, precisam somente ser esclarecidos para que possamos ter objetivos educacionais mais claros e estrat\u00e9gias de ensino apropriadas. Nesse sentido, precisamos agora esclarecer melhor os conhecimentos que j\u00e1 s\u00e3o recomendados e que inclusive j\u00e1 fazem parte das a\u00e7\u00f5es de professoras por todo o Brasil. N\u00e3o estamos falando de algo que as professoras nunca viram: elas conhecem isso e j\u00e1 fazem uso disso h\u00e1 muito tempo e com sucesso. Eu conhe\u00e7o muitas professoras pelo Brasil que j\u00e1 utilizam esses conhecimentos em suas pr\u00e1ticas e com muito sucesso. Se voc\u00ea perguntar para professoras alfabetizadoras o que elas fazem para ajudar as crian\u00e7as a ler e a escrever, muitas v\u00e3o relatar pr\u00e1ticas f\u00f4nicas, ainda que n\u00e3o usem esse nome.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>10. O que pode ser feito agora? Qual a postura que se deve adotar?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">RS &#8211; Precisamos valorizar aquilo que as professoras fazem em sala de aula e o que elas sabem que funciona, mas que, algumas vezes, devido ao car\u00e1ter nebuloso de algumas recomenda\u00e7\u00f5es, parece que n\u00e3o \u00e9 feito ou que n\u00e3o pode ser feito. Precisamos adotar uma postura de cientistas e definir mais claramente os conceitos e termos utilizados nas orienta\u00e7\u00f5es curriculares, nos programas e nas a\u00e7\u00f5es do governo, al\u00e9m de, \u00e9 claro, fundamentarmo-nos no conhecimento cient\u00edfico mais atual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 justamente nesse sentido que, na Secretaria de Alfabetiza\u00e7\u00e3o do MEC, temos uma diretoria de alfabetiza\u00e7\u00e3o baseada em evid\u00eancias. O que acontece \u00e9 que, fundamentando as orienta\u00e7\u00f5es curriculares em evid\u00eancias cient\u00edficas, sabemos exatamente do que estamos falando, o que significa cada conceito, cada objetivo e como definir uma estrat\u00e9gia clara para atingi-lo. Pa\u00edses que tiveram sucesso fizeram exatamente isso. A dificuldade maior agora est\u00e1 mais em esclarecer o que \u00e9 a f\u00f4nica, porque, at\u00e9 agora, no Brasil, tem-se a ideia errada de que o chamado \u201cm\u00e9todo f\u00f4nico\u201d \u00e9 voltar ao passado, \u00e9 o ensino tradicional, antiquado, quando isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00f3s nunca adotamos uma perspectiva f\u00f4nica oficialmente no Brasil: os m\u00e9todos antigos eram a abordagem alfab\u00e9tica e a abordagem sil\u00e1bica. Ambas eram diferentes da abordagem f\u00f4nica. A abordagem f\u00f4nica, pautada pelo conhecimento cient\u00edfico, tem se desenvolvido mais desde a d\u00e9cada de 1980, mesmo per\u00edodo da chegada da abordagem construtivista da Em\u00edlia Ferreiro no pa\u00eds; no entanto, a partir do que sabemos atualmente, podemos abarcar conhecimentos da abordagem construtivista, ir al\u00e9m dela e super\u00e1-la por meio de uma base mais s\u00f3lida por meio da qual a maioria das crian\u00e7as se beneficiem. Temos um grande conjunto de evid\u00eancias produzido no Brasil. N\u00e3o precisamos ir muito longe. Existem v\u00e1rias experi\u00eancias exitosas no Brasil que atestam a import\u00e2ncia do ensino f\u00f4nico e que mostram que n\u00e3o \u00e9 nada chato, antiquado: pelo contr\u00e1rio, as crian\u00e7as gostam e muito dele.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>11. Em quais pa\u00edses se destaca a alfabetiza\u00e7\u00e3o por meio do m\u00e9todo f\u00f4nico? Por qu\u00ea?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; Os pa\u00edses que de fato melhoraram a alfabetiza\u00e7\u00e3o de suas crian\u00e7as, nos \u00faltimos anos, s\u00e3o aqueles que se fundamentaram nas evid\u00eancias mais atuais da Ci\u00eancia Cognitiva da Leitura porque essa \u00e1rea apresenta o conjunto de evid\u00eancias mais vigorosas sobre como as pessoas aprendem a ler e a escrever e como podemos ensin\u00e1-las de um modo mais eficiente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A maioria desses pa\u00edses come\u00e7ou a adotar as recomenda\u00e7\u00f5es dessa \u00e1rea na Ci\u00eancia a partir do final da d\u00e9cada de 1990, quando esse campo estava come\u00e7ando a amadurecer, uma vez que se iniciou por volta da d\u00e9cada de 1970. A Fran\u00e7a, por exemplo, criou um grupo de cientistas chamado Observat\u00f3rio Nacional da Leitura, em 1997, e reformularam as pr\u00e1ticas de alfabetiza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds com sucesso, com recomenda\u00e7\u00f5es de instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nos Estados Unidos, a recomenda\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica, com base em evid\u00eancias de pesquisas, teve como maior defensora a professora Jeanne Chall, da Universidade de Harvard, que publicou no pa\u00eds, em 1967, o livro Learning to Read: The Great Debate, no qual fez uma intensa pesquisa sobre o assunto e revelou quais abordagens eram mais eficientes para o ensino da leitura e da escrita \u2014 ela realizou in\u00fameras pesquisas e recomendou a f\u00f4nica at\u00e9 o fim de sua vida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outros relat\u00f3rios importantes tamb\u00e9m tiveram considera\u00e7\u00f5es semelhantes nos EUA, como o Preventing Reading Difficulties in Young Children, de 1998, que \u00e9 um relat\u00f3rio que foi coordenado pela Catherine Snow, que \u00e9 uma grande especialista em linguagem e alfabetiza\u00e7\u00e3o e minha supervisora de p\u00f3s-doutorado na Universidade de Harvard. Nesse relat\u00f3rio, foram identificados quais s\u00e3o os elementos essenciais para ensinar-se com qualidade alunos a ler e a escrever e o que os professores devem saber para fazer isso com sucesso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse painel foi seguido pelo National Reading Panel, em 2000, que mostrou que n\u00f3s temos cinco pilares de alfabetiza\u00e7\u00e3o de qualidade: a consci\u00eancia fon\u00eamica, a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica sistem\u00e1tica, a flu\u00eancia de leitura, o vocabul\u00e1rio e a compreens\u00e3o de textos. S\u00e3o pilares que todos os programas bons de alfabetiza\u00e7\u00e3o devem incluir. A minha co-orientadora de doutorado, a Dra. Linnea Ehri, da City University of New York, liderou os trabalhos sobre consci\u00eancia fon\u00eamica e instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica do National Reading Panel, publicando s\u00ednteses muito importantes e influentes na \u00e1rea.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Seguiu-se outro relat\u00f3rio, publicado em 2009, chamado National Early Literacy Panel (NELP), que focou mais nas crian\u00e7as pequenas e na import\u00e2ncia da literacia familiar, ou seja, naquilo que os pais fazem em casa e que ajuda as crian\u00e7as mais tarde a aprender a ler e a escrever, por exemplo, ler para seu filho e estimular o seu desenvolvimento da linguagem oral, fazendo-lhe perguntas que estimulem uma resposta mais completa do que apenas um &#8220;sim&#8221; ou um &#8220;n\u00e3o&#8221;. O relat\u00f3rio focou tamb\u00e9m na literacia emergente, que re\u00fane as habilidades fundamentais para a alfabetiza\u00e7\u00e3o que devem ser desenvolvidas na pr\u00e9-escola, como saber os nomes, os sons e as formas das letras e desenvolver a consci\u00eancia fonol\u00f3gica e a consci\u00eancia fon\u00eamica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>12. Em que sentido esses relat\u00f3rios orientam os governos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>RS<\/strong> &#8211; Nos EUA, esses relat\u00f3rios impulsionaram v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es e programas dos governos Federal e Estaduais, com recomenda\u00e7\u00f5es para a inclus\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica. A Inglaterra tinha resultados muitos ruins na alfabetiza\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1990, e, depois de alguns relat\u00f3rios, como o Relat\u00f3rio de Jim Rose, de 2006, passou a recomendar, desde 2012, a instru\u00e7\u00e3o f\u00f4nica nas escolas de todo o pa\u00eds, com melhorias muito significativas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Existem muitas diferen\u00e7as entre cada pa\u00eds e \u00e9 preciso que n\u00f3s consideremos isso, incluindo diferen\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua, mas \u00e9 preciso reconhecer que esses pa\u00edses que mencionei compartilham um elemento importante, pois todos usam um sistema alfab\u00e9tico, que, portanto, tem um mesmo princ\u00edpio de que letras representam sons.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ainda assim, temos o exemplo de Portugal, que tem a mesma l\u00edngua que o Brasil e que implementou mudan\u00e7as significativas na alfabetiza\u00e7\u00e3o, baseadas nas evid\u00eancias de pesquisas, inclusive tendo a participa\u00e7\u00e3o do professor Jos\u00e9 Morais \u2014 que tamb\u00e9m ajudou nas reformas promovidas na Fran\u00e7a. O Prof. Morais participou tamb\u00e9m de um esfor\u00e7o no mesmo sentido no Brasil, pois trabalhou em um grupo, em 2003, liderado por Jo\u00e3o Batista de Oliveira, que, a convite da C\u00e2mara dos Deputados, estudou a quest\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Naquela \u00e9poca, todos estavam se preocupando com essa quest\u00e3o de incorporar as evid\u00eancias de pesquisa para melhorar a alfabetiza\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 mencionei. V\u00e1rios pa\u00edses preparavam relat\u00f3rios cient\u00edficos para embasar suas pol\u00edticas p\u00fablicas de alfabetiza\u00e7\u00e3o e o Brasil n\u00e3o ficou para tr\u00e1s. Participaram desse relat\u00f3rio Jean-\u00c9mile Gombert, da Fran\u00e7a; Marilyn Jager Adams, dos EUA; Roger Beard, da Inglaterra; o Prof. Fernando Capovilla, da USP; e a Prof.\u00aa Cl\u00e1udia Cardoso-Martins, da UFMG, que \u00e9 uma das maiores pesquisadoras brasileiras na \u00e1rea da alfabetiza\u00e7\u00e3o, respeitada na comunidade cient\u00edfica internacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Infelizmente, esses relat\u00f3rios foram ignorados, por muitos anos, embora apresentassem uma excelente revis\u00e3o da literatura com recomenda\u00e7\u00f5es claras e fundamentadas em evid\u00eancias sobre as mudan\u00e7as necess\u00e1rias \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o no Brasil. No entanto, felizmente, ap\u00f3s ter sido apresentado a esses dados pelo Secret\u00e1rio Nadalim, o Ministro Ricardo V\u00e9lez acolheu-os e anunciou, no Senado, que estamos resgatando essas importantes contribui\u00e7\u00f5es na formula\u00e7\u00e3o da nova Pol\u00edtica Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesse mesmo sentido, o Secret\u00e1rio de Alfabetiza\u00e7\u00e3o Carlos Nadalim sempre enfatiza a import\u00e2ncia de considerarmos as evid\u00eancias cient\u00edficas na formula\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas P\u00fablicas, como se pode observar na estrutura da nova Secretaria de Alfabetiza\u00e7\u00e3o. Ele convidou para compor a Diretoria de Alfabetiza\u00e7\u00e3o Baseada em Evid\u00eancias tr\u00eas cientistas que estudam alfabetiza\u00e7\u00e3o, entres os quais eu me incluo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Eu comungo do pensamento do Secret\u00e1rio Nadalim e do Ministro V\u00e9lez de que a educa\u00e7\u00e3o brasileira se fundamente em evid\u00eancias cient\u00edficas. Isso implica pelo menos tr\u00eas coisas: 1) o que sabemos hoje pode ser invalidado ou questionado amanh\u00e3 por uma nova pesquisa ou evid\u00eancia; 2) os resultados de pesquisas devem ser sempre contextualizados: precisamos entender os limites das pesquisas e da generaliza\u00e7\u00e3o dos resultados; 3) n\u00e3o podemos personalizar as evid\u00eancias e adotar \u00eddolos somente porque produziram trabalhos relevantes em algum momento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A ci\u00eancia n\u00e3o para e \u00e9 preciso ir mais al\u00e9m, considerar o tempo atual e o que se sabe, com base no m\u00e9todo cient\u00edfico, naquilo que h\u00e1 de mais vigoroso atualmente, sem personalismos, mas sim com base nas evid\u00eancias. \u00c9 assim que os pa\u00edses que tiveram sucesso mudaram seu modo de ensinar a ler e a escrever e \u00e9 assim que o Brasil pode tamb\u00e9m ir mais longe.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Perfil<\/strong> \u2013 Renan de Almeida Sargiani \u00e9 p\u00f3s-doutorando em Educa\u00e7\u00e3o (Linguagem e Alfabetiza\u00e7\u00e3o) na Harvard Graduate School of Education e p\u00f3s-doutorando em Psicologia no Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade, no Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano no Instituto de Psicologia da USP, com per\u00edodo sandu\u00edche no Ph.D. Program in Educational Psychology na City University of New York. \u00c9 Membro da European Literacy Network (Rede Europeia de Alfabetiza\u00e7\u00e3o); do Grupo de Trabalho Desenvolvimento Sociocognitivo e da Linguagem da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia (ANPEPP); da Psychology Coalition (Coaliz\u00e3o de Psicologia) na ONU; e membro da mesa diretora da International Association of Applied Psychology (IAAP). Ele trabalhou para a Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP) e a para a International Union of Psychological Sciences (IUPsyS).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A discuss\u00e3o sobre os melhores m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova nem exclusividade do Brasil. 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